• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3: DO REALINHAMENTO PRAGMÁTICO AO NACIONALISMO

3.2 Eleições Parlamentares de 2005, Primavera Árabe e Morsi: a Ascenção da

3.2.2 A Irmandade Muçulmana e o Antiamericanismo

Fundada no Egito em 1928, a Irmandade Muçulmana é ―the world‘s oldest, largest, and most influential Islamist organization‖

.

255 Como instituição, ela sempre foi de difícil compreensão para analistas ocidentais

.

Fundada sob os princípios do revivalismo religioso e do anti-imperialismo, a Irmandade Muçulmana já rejeitou oficialmente a violência e a jihad e adotou a democratização como estratégia de poder

.

256 Ao promover tanto o Islamismo quanto a transição pacífica, ela conseguiu,

entretanto, atrair a ira deliberada de ocidentais e de radicais fundamentalistas

.

A Irmandade Muçulmana egípcia chegou a formar alianças políticas com outros grupos de oposição, incluindo secularistas, liberais e nacionalistas

.

Aqueles que rejeitaram este pragmatismo político e, em seu lugar, pregaram a violência e o terrorismo, com frequência perderam as disputas internas do movimento

.

257 Como

partidos religiosos foram banidos do Egito, candidatos da Irmandade Muçulmana foram historicamente forçados a concorrer às eleições como independentes

.

Pela

255 LEIKEN; BROOKE, 2007, p. 107. 256 WICKHAM, 2013.

141

primeira vez, em 2005, todavia, permitiu-se que eles fizessem campanha com uma agenda abertamente islâmica, unindo-se sob o slogan comum ―Islam is the Solution‖

.

258 Eles usaram estratégias de externalização durante a campanha,

defendendo posições antiamericanas e anti-Israel, assim impedindo que a liberalização no Egito adquirisse traços mais democráticos e uma postura externa mais ocidental

.

Como explica o The Washington Times,

[t]he Brotherhood also represents an anti-American political stance which is particularly popular in Egypt right now. Egyptians are overwhelmingly opposed to the war in Iraq and have long been angered by what they perceive as unqualified U.S. support for Israel.259

Aproveitando-se de insatisfações públicas profundas com o regime de Mubarak, a Irmandade ―has managed to come across as simultaneously patriotic and in opposition‖

.

260 Com tal comportamento, o antiamericanismo se tornou um tema

permanente, em uma tentativa de se diferenciar do grupo no poder

.

Diante da oportunidade de criticar o governo abertamente, a Irmandade retratou a relação do presidente Mubarak com os Estados Unidos tanto como uma traição, quanto como contraprodutiva para o povo egípcio

.

O Guia Supremo da Irmandade, Mohammed Mahdi Akef, chegou a proclamar logo depois das eleições, que ―American democracy isn't pursuing Egypt's interests

.

United States democracy seeks to intensify backwardness in this country‖

.

261 Ao mesmo tempo, Akef também acusou os Estados

Unidos de matar civis e de destruir mesquitas no Iraque de maneira proposital, para sabotar a insurgência iraquiana

.

Ele chegou ao ponto de apoiar ataques a soldados americanos, argumentando que como ―such work is done by Americans, the honorable resistance has a noble purpose so its means are always noble‖

.

262

258 ALTERMAN, 2005.

259 ―Rise of the Muslim Brotherhood‖, 2005. 260 ALTERMAN, 2005.

261 HOWEIDY, 2005. 262 MACFARQUHAR, 2005.

142

Akef certamente não está sozinho em sua condenação aos Estados Unidos

.

Líderes da Irmandade consistentemente acusam os Estados Unidos de prejudicarem o Egito, seja por ―an American conspiracy against educational and Islamic curriculums‖263, ou por tentar ―impose its own agenda on the world‖

.

264 Essam Al-

Erian, membro proeminente da Irmandade, anunciou em termos precisos que ―We definitely have no common interests with the United States‖

.

265

De fato, a Irmandade sempre se posicionou como parte vital dos movimentos de protesto contra Mubarak, inclusive durante a Primavera Árabe, desafiando a elite política no nível ideacional com o objetivo de instigar a reforma política

.

Por um lado, seus membros argumentavam que as ameaças domésticas à segurança nacional egípcia emanavam do próprio governo

.

Para a Irmandade, o autoritarismo de Mubarak trazia quatro problemas principais: estagnação política, corrupção, injustiça social e terrorismo estatal – referindo-se ao crescente uso arbitrário da violência contra a população egípcia

.

Para o grupo, esses problemas impediam que o Egito alcançasse a modernização e o desenvolvimento econômico que restaurariam a glória do país como potência no Oriente Médio

.

266

Por outro lado, como Mubarak cooperava com potências estrangeiras, a Irmandade Muçulmana também declarava que o Estado egípcio era uma ameaça à segurança externa da nação

.

A retórica usada era justamente que Mubarak subordinava os interesses egípcios aos interesses americanos e israelenses

.

Essas acusações tornaram-se especialmente fortes às vésperas da Primavera Árabe, enquanto Mubarak preparava a transição do poder para seu filho

.

Enquanto a violência praticada pelo Hamas, pelo Hezbollah ou pelo Irã eram consideradas legítimas (esses três eram inclusive chamados de ―Eixo da Resistência‖ em referência ao ―Eixo do Mal‖ proposto pelo presidente George W

.

Bush), para a Irmandade

263 EL-DIN, 2005. 264 SHAHINE, 2007. 265 SHAHINE, 2007. 266 Ibid, p. 181.

143

Muçulmana, Estados Unidos e Israel praticavam violência ilegítima, contrariando os ensinamentos do Islã, o direito internacional e a vontade do povo egípcio

.

Monier e Ranko explicam que a percepção de ilegitimidade derivava de que

[f]irst, both had engaged in military aggression against the Middle East and in the occupation of foreign territory. Examples were the U.S.- led war and occupation of Afghanistan since 2001 and of Iraq since 2003, the Lebanon war of 2006 and the Gaza war of 2008-09. […] The second form of illegitimate violence attributed to the United States against Middle East societies did not involve military means. Instead it was understood as being ―the imposition [not necessarily through the use of force] of an opinion, a conviction, a certain religion or ideology‖. 267

O relacionamento americano com Israel também proveu espaços extras pelos quais figuras da oposição puderam criticar os Estados Unidos e, por associação, o regime de Mubarak

.

O editorial do jornal popular Al-Ahram descreve essa dinâmica com clareza:

The U.S. bias toward Israel is the card that most Islamic groups have used to gain popularity. It is the stick with which Islamic opposition groups beat pro-U.S. regimes and anyone engaged in the peace process. The peace process has so far failed to bring about peace or restore Palestinian rights. Under the peace process, things have gotten worse for the Palestinians; and Israel seems to be dictating the future, both for Palestinians and the entire region. In the ensuing climate of hatred for the U.S., with popular anger fuelled by the Iraq war and the Palestinian issue, the Islamists won public sympathy, whereas regimes found themselves on the defensive.268

A Irmandade Muçulmana já afirmou em mais de uma ocasião que, no que diz respeito a Israel, eles seguirão a liderança do Hamas, seu afiliado palestino

.

Sobre o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e seu governo na Cisjordânia, Akef afirmou que ―I pity him

.

He embraces the Americans and the Zionists and I told friends that he won't gain anything from that position […] I say

267 MONIER; RANKO, 2013.

144

those who rely on the U

.

S

.

and the Zionists would make no gain‖

.

269 James Traub foi

mais explícito ao explicar que ―Brotherhood figures do not, at bottom, accept Israel‘s right to exist‖

.

270

Com relação à sua agenda política doméstica, muito embora a Irmandade tenha ―made a strategic decision to stress political reform, it still has a social and cultural agenda that can come into conflict with its liberal political priorities‖

.

271 Seus

membros com frequência repetem o artigo 2º da Constituição do Egito, que proclama que ―Islam is the religion of the state and the principles of the Islamic Shari‘a are the main source of legislation‖

.

272 O fortalecimento do papel da lei islâmica no Egito está

―at the center of the Muslim Brotherhood‘s identity as an organization‖

.

273 Um

esboço de programa político oficial da Irmandade, que circulou em agosto de 2007, ainda agravou os receios de que a organização tentaria impor a lei islâmica no governo egípcio

.

O programa recomendava que apenas homens muçulmanos deveriam exercer cargos importantes do governo e que um ―council of religious scholars‖ deveria ser criado para supervisionar as decisões legislativas e executivas

.

274

Em dezembro de 2010, cinco anos depois de ter conquistado um quinto do parlamento egípcio, a Irmandade Muçulmana estava quase imobilizada

.

Milhares de seus membros haviam sido presos, incluindo alguns dos líderes e alguns dos principais financiadores do movimento

.

Além disso, Mubarak havia vetado muitos dos pré-candidatos da irmandade ao parlamento e ainda conduziu um processo eleitoral que grupos de direitos humanos descreveram como ―the most fraudulent poll ever‖

.

Em 2005, a Irmandade Muçulmana havia elegido 88 parlamentares; em 2010

269 Falando a respeito de Israel, líderes da Irmandade Muçulmana já sugeriram que o Egito deveria

desenvolver armas nucleares, criticando a política de Mubarak por um Oriente Médio livre de armamentos nucleares. SALAMA; HILAL 2006.

270 TRAUB, 2007, p. 48.

271 BROWN; HAMZAWY, 2005, p. 6.

272 CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA ÁRABE DO EGITO, 1971. 273 OTTERMAN, 2005.

145

apenas 1

.

Ainda que continuasse a ser a força de oposição mais organizada do país, após tais golpes de Mubarak, a irmandade acreditava que o regime era forte demais para ser desafiado, e que qualquer tentativa de manifestação contra as arbitrariedades do governo seria combatida com ainda mais veemência

.

As ameaças de Mubarak reforçavam essa percepção

.

Enquanto ativistas organizavam os protestos do dia 25 de janeiro de 2011, que catalizariam a queda de Mubarak, o governo ameaçou a irmandade dizendo que se seus membros participassem ―there would be no red lines‖

.

Isso significava que o Guia Supremo da organização ou os líderes regionais poderiam ser presos e torturados

.

275

A natureza antiamericana, anti-israelense e antiliberal das posições políticas e retóricas da Irmandade Muçulmana levou a intensa especulação sobre como eles governariam o país

.

Ao final da década de 2000, alguns analistas sugeriram que eleições competitivas acabariam forçando a Irmandade a se tornar mais pragmática e aberta ao diálogo

.

276 Outros já se mostravam céticos, preocupados que uma vitória da

Irmandade Muçulmana em uma eleição presidencial levaria a, como colocado por Bernard Lewis, ―one man, one vote, once‖

.

277 Alguns, citando exemplos históricos e

regionais (bolcheviques, nazistas, o Hezbollah no Líbano ou o partido Baath no Iraque e na Síria), argumentaram que ―there is scant evidence that extremists really do moderate once they assume power‖

.

278

No período entre as eleições parlamentares de 2005 e a eleição de Mohammed Morsi, em 2012, os candidatos da Irmandade Muçulmana ganharam apoio ao defenderem uma agenda antiamericana

.

O legado do apoio americano criou um ambiente no qual o maior grupo opositor ao regime era contrário à aproximação com os Estados Unidos

.

Da perspectiva das políticas e das preferências do partido de oposição dominante, não havia indicação de que a liberalização levaria a um

275 TRAGER, 2013. 276 DUNNE, 2007. 277 LEWIS, 1993, p. 91.

146

realinhamento das preferências de política externa do Egito em aproximação aos Estados Unidos

.