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5.2 A confiabilidade de nossas intuições morais

5.2.2 A irrazoabilidade do equilíbrio reflexivo

De volta a Greene. Para os seus propósitos, toda essa discussão não é importante. Para ele é suficiente estabelecer que seria irrazoável para nós aceitarmos uma teoria deontológica T porque ela é apoiada por crenças morais baseadas em intuições caracteristicamente deontológicas, e que seria irrazoável para nós rejeitarmos uma teoria utilitarista porque ela conflita com essas intuições. No que concerne ao equilíbrio reflexivo, talvez Greene veja como o bastante estabelecer que alguns de nós poderiam hoje, como resultado de empregar

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impecavelmente o equilíbrio reflexivo, acabar sustentando teorias e posições morais que são irrazoáveis para nós. Isso sugeriria a objeção de que o equilíbrio reflexivo seria inadequado em virtude da sua incapacidade de assegurar a aceitação de crenças morais que são razoáveis para aqueles que impecavelmente empregam o método para decidir no que acreditar. Kelly e McGrath, por exemplo, argumentam que embora não seja problemático que o equilíbrio reflexivo não garanta a aceitação de crenças plausíveis, seria problemático não garantir a aceitação de crenças justificadas ou razoáveis. Kelly e McGrath têm em mente o seguinte argumento contra o valor epistemológico do equilíbrio reflexivo:

(i) o melhor método de reflexão tem de garantir, para aqueles que impecavelmente o usam, a aceitação de crenças que não são irrazoáveis (ou epistemicamente injustificadas);

(ii) o equilíbrio reflexivo não garante a aceitação de crenças que não são irrazoáveis (ou epistemicamente injustificadas).

Logo, o equilíbrio reflexivo não é o melhor método de reflexão121.

Esse argumento parte da objeção de Brandt de que o equilíbrio reflexivo seria “somente um teste interno de coerência, o que pode ser nada mais do que uma reorganização de preconceitos morais” (BRANDT, 1979, p. 22). Equacionando crenças preconceituosas com crenças irrazoáveis, o resultado é a premissa (ii). Como notado por Kelly e McGrath, essa premissa é um caso mais específico de uma bem conhecida objeção a epistemologias coerentistas, segundo a qual a coerência é insuficiente para a justificação epistêmica porque alguém pode manter um sistema coerente de crenças ignorando as evidências e as razões que as suas experiências e o seu ambiente lhe fornecem (KELLY; MCGRATH, 2010, p. 333) – ou alguém pode manter um sistema coerente de crenças incorporando proposições morais que parecem verdadeiras, mas que não seriam razoáveis de se sustentar.

Essa objeção seria fatal para uma abordagem coerentista ao equilíbrio reflexivo, considerando como para ela o valor epistemológico do método depende da sua capacidade de garantir a aceitação de crenças morais que são epistemicamente justificadas. Em contraste, uma

121 "If some method is in fact the best method for investigating some domain, and one employs the method because one recognizes that this is so, then the views at which one arrives by impeccably executing it would not be unreasonable. Thus, if one could arrive at unreasonable views by impeccably executing the method of reflective equilibrium, it follows that it is not the best method” (KELLY; MCGRATH, 2010, p. 326-327).

abordagem intuicionista não procura rejeitar a conclusão de que o impecável emprego do equilíbrio reflexivo por parte de S poderia levá-lo a aceitar crenças morais que são irrazoáveis para ele. A estratégia da abordagem intuicionista consiste em rejeitar o pressuposto por trás da premissa (i): que o valor epistemológico do método do equilíbrio reflexivo dependeria da sua capacidade de levar à aceitação apenas de crenças morais que são razoáveis para o indivíduo que impecavelmente segue o método. A resposta é que embora a reflexão de acordo com o equilíbrio reflexivo não garanta a aceitação de crenças morais razoáveis, ela é um passo necessário na aceitação dessas crenças, pois possibilita que o indivíduo baseie as suas crenças morais nas proposições morais intuídas que funcionam como as evidências ou razões que ele tem para acreditar em assuntos morais. Em suma, a abordagem intuicionista propõe a seguinte inversão: embora nem toda a aplicação do método do equilíbrio reflexivo leve à aceitação de crenças morais razoáveis, toda a aceitação razoável de proposições morais (que não são justificadas por intuição) pressupõe o tipo de reflexão que é modelada pelo equilíbrio reflexivo.

Essa alegação não é desafiada pela crítica de Greene à confiabilidade das intuições morais caracteristicamente deontológicas, pois essa crítica é direcionada para o que certas pessoas acreditam. Elas acreditam, quando elas não deveriam acreditar, que as suas intuições morais caracteristicamente deontológicas são normativamente relevantes e aptas a servir como evidência para aceitar ou rejeitar certas teorias e princípios morais. Trata-se de uma crítica que identifica um problema no que certos filósofos acreditam, e não no modo como eles refletem em favor dessas conclusões. Greene não oferece fundamentos para colocar em questão que quando uma teoria T qualquer avaliada por S explica as intuições das quais ele não tem razões para duvidar, o fato de que ela explica essas intuições conta em seu favor, fazendo com que ela seja algo que é razoável para S acreditar. Essa é alegação que motiva o método do equilíbrio reflexivo para a abordagem intuicionista. Nenhum ceticismo dirigido a uma classe particular de intuições morais representará um problema para essa alegação, pois o mérito dessa alegação não depende da confiabilidade de qualquer classe particular de intuições morais.

Resumindo, a teoria de Greene, se verdadeira, requer de S que ele ajuste o que ele acredita, mas não como ele reflete, isto é, ele não precisará deixar de procurar por uma relação de ajuste mútuo entre um princípio, ou um conjunto de princípios, de um lado, e algum conjunto de intuições morais que ele não tem razões para rejeitar, de outro.