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1.2. Retórica Presidencial

1.2.4. A Jeremíada Presidencial

Tal como foi acima desenvolvido, a adaptabilidade da jeremíada americana proporcionou a sua contínua reinvenção ao longo dos séculos, desde as suas primeiras expressões pela segunda e terceira gerações de Puritanos em Nova Inglaterra até à sua utilização em discursos presidenciais contemporâneos. O impacto da jeremíada na cultura política dos Estados Unidos pode ser observado, por exemplo, na utilização recorrente da expressão bully pulpit para definir a retórica presidencial americana do século XX. Theodore Roosevelt emprega pela primeira vez esta expressão para caracterizar a forma como cada presidente deveria utilizar a sua posição privilegiada para chamar a atenção da população dos Estados Unidos para determinados problemas nacionais e suas possíveis soluções. Desta forma, Roosevelt pretendia evidenciar a capacidade de cada presidência para influenciar a opinião pública através da palavra falada, enfatizando a centralidade não só da oratória na vida política americana, mas também, pela analogia escolhida, da figura do pregador em particular:

Roosevelt’s metaphor was inspired by the Jeremiad preacher, the religious analogue of the presidential preacher, who was the wise and anointed seer of things to come. The preacher stood apart from his church both physically

and spiritually, because of his special anointment. His job was to articulate a message from God, often harsh and unpalatable, as a warning or plan for things to come. (Lim, anti-intellectual 46)

É, então, estabelecido um paralelismo entre a figura do presidente e a do pregador que utiliza a fórmula da jeremíada para divulgar a vontade de Deus, prevenir a contínua degeneração da sociedade americana e instigar a sua população a agir. De acordo com esta analogia, uma das funções do presidente seria a de assumir um papel de liderança, tomando, por vezes, posições políticas que, apesar de pouco populares, seriam no melhor interesse do país. Apesar da imagem do bully pulpit continuar, por vezes, a ser utilizada para caracterizar a presidência retórica, Lim defende que esta já não descreve a realidade contemporânea uma vez que o desenvolvimento dos meios de comunicação veio diminuir o distanciamento entre a figura do presidente e a sua assistência que estaria implícito na ideia de bully pulpit (46).

Contudo, esta aproximação veio contribuir para a consolidação da capacidade de cada presidente de deter a atenção da população a nível nacional aquando da identificação dos problemas enfrentados pelo país, suas causas, consequências e soluções, utilizando a sua posição privilegiada e combinando-a com a jeremíada americana como forma de gerar acção e direcionar os esforços dos cidadãos: “The jeremiad’s need for prophetic leadership and the bully pulpit of the American presidency were made for one another. There is no comparable political pulpit from which to summon the chosen people, to warn them of their peril, or to direct their behavior” (Smith and Smith 138). Assim, a fórmula da jeremíada continua a ser utilizada como um veículo retórico com o objectivo de gerar coesão social49 e de incitar a população à acção. De modo a criarem um consenso identitário a nível nacional entre os cidadãos, cada presidente recorre a rituais retóricos para reafirmar e reinterpretar um determinado conjunto de normas culturais e constituir o povo americano através dos membros da sua assistência: “At some level presidential discourse teaches American culture to its listeners, consistently reminding them how they ought to know or believe” (Beasley

49 Atente-se ao facto de já ter sido criticada a utilização da jeremíada como instrumento promotor de coesão

social por encorajar uma incoerência entre os valores defendidos e a experiência individual de cada cidadão americano contemporâneo, assim como por colocar os Estados Unidos numa posição distanciada relativamente às disputas de outras nações, necessitando da existência desses conflitos para argumentar a favor e validar a sua própria superioridade. Ademais, a criação desta uniformidade social gera uma atitude antagónica relativamente à diversidade cultural, chegando mesmo a considerá-la como antipatriótica (Beasley 181). Deste modo, se por um lado a jeremíada americana é utilizada como um veículo retórico incitador da tomada de acção por parte da assistência, por outro, a sua lógica baseada em antigos princípios fundamentais da nação pode inibir a aceitação da diferença e a introdução de alterações na sociedade americana: “Because jeremiads establish one interpretation and application of a particular ancient truth as pre-eminent, they undermine other interpretations and applications of ancient truths. By undermining competing analyses of the nation’s problems presidential jeremiads inhibit legitimate public discussion and dissent” (Smith and Smith 161).

175). De acordo com Vanessa B. Beasley, esta função da retórica presidencial é particularmente manifesta nos discursos inaugurais, durante os quais cada novo chefe do poder executivo necessita de recriar um sentimento de união entre os elementos de uma população fragmentada durante o período de campanha eleitoral, promovendo não só uma concepção do povo e nação americanos que transcenda preferências partidárias ou agendas pessoais (175), mas também a renovação do acordo democrático estabelecido entre cada cidadão e o seu presidente (Smith and Smith 139).

Por sua vez, a coesão identitária e social gerada em cada discurso inaugural é criada recorrendo a uma lógica puritana que pode ser expressa através da jeremíada americana, pois, no contexto secular da política nacional, esta fórmula retórica tornou-se numa expressão da religião civil americana. Esta preserva a noção da população dos Estados Unidos como Povo

Eleito,50 ao mesmo tempo que substitui a doutrina religiosa à qual se encontrava inicialmente associada pela procura da obtenção do sonho americano,51 sendo capaz de conciliar com uma só narrativa identitária uma população tão heterógena como a americana: “Three centuries after the Puritan landing, American jeremiads continue to feature a special people chosen by God who can grow from their adversity and attain a better future simply by conducting themselves in accordance with the covenant and the dream” (134). Desta forma, um discurso inaugural, ao utilizar a fórmula da jeremíada americana, procura não só manter as palavras da Declaração da Independência e Constituição relevantes à medida que as circunstâncias políticas, económicas e sociais mudam, mas também reavivar a noção do povo americano como comunidade eleita e renovar o acordo estabelecido entre cada cidadão e o seu

50 Apesar da conservação no discurso da jeremíada secular contemporânea da noção da existência de uma

relação privilegiada entre o povo americano e uma entidade divina, a importância dada à renovação do acordo inicial estabelecido entre ambos nas primeiras expressões da jeremíada americana é, no discurso inaugural, superada pela relevância atribuída à renovação do acordo entre cada cidadão e o seu novo presidente.

51 A substituição da doutrina religiosa puritana pelo ideal do sonho americano como base para a constituição da

religião civil americana e sua expressão através da jeremíada contemporânea é defendida por Richard L. Johannesen: “Indeed the legacy of Puritanism constitutes one of the two or three major tributaries significant in formation of the American Dream. (...) Modern jeremiads depict Americans as unique or ‘chosen’ people and envision America as a promised land with a special destiny, even as humanity’s ‘last, best hope’” (80). Portanto, segundo este autor, ao fazerem parte da religião civil americana, os princípios nos quais a jeremíada contemporânea baseia a sua lógica são partilhados pelo ideal do sonho americano (80). Este, por sua vez, é caracterizado por Walter R. Fisher como possuindo uma vertente material e uma vertente moral baseadas em valores religiosos e partilhados, em certa medida, pela grande maioria da população dos Estados Unidos. A primeira vertente valoriza uma ética de trabalho puritana baseada no esforço, na persistência, na iniciativa, na competição, na auto-suficiência e na procura do sucesso. Enquanto a vertente moral se encontra relacionada com valores como a tolerância e respeito pelo mérito e individualidade de cada cidadão, podendo ser sumariada pelo conteúdo da Declaração da Independência e a sua ênfase na igualdade de direitos (“Narrativity” 148-149, “Reaffirmation” 160-163), em suma: “The materialistic myth fosters a concept of freedom to do as one pleases; the moralistic myth stresses freedom to be as one conceives oneself” (“Narrativity” 149). Para um maior aprofundamento desta questão cf. Fisher, Walter R. “Reaffirmation and subversion of the American Dream”

presidente. Cada novo chefe do poder executivo procura, então, criar um momento de reafirmação e adaptação de um conjunto de valores e objectivos partilhados, independentemente das raízes protestantes desses mesmos princípios ou da fórmula retórica empregue (Beasley 180-181). Portanto, a utilização da jeremíada torna-se particularmente relevante, visto que, tal como foi acima explorado, esta surge não só como instrumento retórico de persuasão e incitação à acção, mas também como ferramenta de reinvenção identitária, adaptando os objectivos e ideais das primeiras gerações de Puritanos a uma realidade em constante transformação.

Tal como se espera poder constatar através da análise do discurso inaugural de Trump, a jeremíada contemporânea pode distanciar-se da sua expressão inicial ao enumerar as dificuldades enfrentadas pela comunidade ao mesmo tempo que desresponsabiliza os seus elementos – incluindo o próprio presidente – pelas calamidades e degenerescência social presentes, identificando um conjunto de figuras ou instituições específicas como as verdadeiras causadoras desta degradação: “Nowadays jeremiads tell of chosen people led astray by false prophets who are to blame for our tribulations” (Smith and Smith 135). Assim, a jeremíada é capaz de sobreviver através do discurso presidencial, permitindo ao orador conservar um estatuto profético de intérprete do acordo nacional, ao mesmo tempo que se afasta da figura do pregador de tom acusatório e redirecciona a culpa dos problemas daquela sociedade de modo a não incluir todos os seus elementos. O estatuto especial da população americana é defendido e qualquer crise, seja ela social, económica, política ou cultural, continua a ser resolvida através do arrependimento e restauração dos princípios fundadores da nação imortalizados em documentos como a Declaração da Independência e a Constituição ou nas palavras dos pais fundadores (Johannesen 81; Smith and Smith 136, 159).52

A retórica da jeremíada americana sobrevive, então, como discurso persuasor que também permite a aceitação do sofrimento experimentado pelo Povo Eleito, a sua desresponsabilização pelas causas dos seus problemas e a utilização do passado como justificação para o desenvolvimento de um espírito optimista em relação ao futuro (Smith and

52 Veja-se que a utilização pela figura do presidente da jeremíada americana na abordagem de problemas

nacionais foi já criticada por desencorajar, por vezes, a resolução prática destes, pois, ao oferecer uma justificação mística para as problemáticas enfrentadas, a jeremíada acaba por distanciá-las de possíveis soluções adaptadas à realidade do país. Adicionalmente, Craig Allen Smith e Kathy B. Smith demonstram como também é possível criticar o modo como o foco na interpretação da Constituição feita pelas figuras políticas fundadoras da nação pode não ter em conta a flexibilidade do documento e a necessidade da sua adaptação à contemporaneidade, acabando por comprometer os próprios princípios dos pais fundadores que procura seguir (159-161).

Smith 137). De facto, as recorrentes referências feitas a eventos gloriosos do passado da nação como forma de procurar compreender as causas de eventos presentes e futura prosperidade do país possibilitam a criação de uma lógica e ordem entre fenómenos aparentemente distintos, assim como de um sentimento de segurança no público alvo ao fornecerem explicações para os problemas enfrentados: “Every jeremiad provides a source of order for a confused community, because its essential logic is that Americans’ problems result from a lack of commitment to their divine mission. Therefore, the greater the chaos and the more abundant the contradictions, the more powerful is the logic of jeremiadic order” (158). Tal lógica, como irá ser explorado mais adiante, permite ao orador transcender contradições na sua argumentação ao recorrer a princípios fundamentais da religião civil americana responsáveis pela criação de ordem e união entre a população (158).