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Já nas jeremíadas americanas de meados do século XVII, é possível encontrar uma exposição da conduta virtuosa de gerações passadas:24 “American Jeremiahs argue that our

virtuous ancestors had it right; departure from their ways is the beginning of error” (Murphy 8). Por conseguinte, o recordar de figuras fundadoras da nação – por exemplo, das primeiras gerações de Puritanos a chegar ao continente americano e, mais tarde, de personalidades como George Washington, John Adams (1735-1826), Thomas Jefferson ou Abraham Lincoln

24 Como nota Bercovitch, a caracterização do passado de Nova Inglaterra como uma época dourada e da

primeira geração de Puritanos como figuras de profunda reverência desempenhou um papel particularmente relevante nas discussões sobre o baptismo geradas pelo Halfway Covenant – “The children were obliged to

demand grace by virtue of their parents’ mission. And to sustain their case, they proceeded to elevate the

emigrants into myhtic tribal heroes” (American 67) –, constituindo-se como uma forma de argumentar a legitimidade e unidade da comunidade de eleitos e, consequentemente, como um ponto de viragem na expressão americana da jeremíada (62-63). Assim, no início do século XVIII, a idealização das figuras fundadoras de Nova Inglaterra já se tinha tornado num lugar-comum da jeremíada, assim como o contraste entre estas e a conduta dos presentes (Miller, New 184-185).

– constitui um elemento fundamental da jeremíada americana, sendo no contraste estabelecido entre a conduta destas personalidades e o momento histórico em que viveram com a contemporaneidade que reside parte do poder retórico da jeremíada (9), a qual exige um acrescido comprometimento: “the New England Puritan jeremiad evokes the mythic past not merely to elicit imitation but above all to demand progress” (Bercovitch, American 24). Logo, em conjunto com o restante discurso catastrofista da jeremíada americana, o contraste estabelecido entre o passado e o presente geram uma ansiedade na assistência que, tal como acima desenvolvido, o autor da jeremíada redireciona para que esta possa traduzir-se numa tomada de acção e contribuir para o progresso da sociedade.

Deste modo, através de narrativas políticas do passado histórico da nação, o autor da jeremíada procura estimular a imaginação do seu público alvo, persuadi-lo e levá-lo à acção, de forma a que cada indivíduo procure participar activamente na vida social e política da sua comunidade, influenciando o futuro desta com base numa determinada visão do seu passado: “By its very nature, the jeremiad is under obligation to look simultaneously backward and forward – back to the purity from which the people have degenerated, ahead to the ultimate vengeance” (Miller, New 184). Segundo Murphy, a visão apresentada por cada jeremíada relativamente ao futuro dos Estados Unidos é, em grande parte, influenciada pela narrativa que é construída do seu passado, pelo que é possível fazermos a distinção entre dois tipos de jeremíadas americanas, a tradicionalista e a progressista (109-110).

De acordo com este autor, a jeremíada tradicionalista enfatiza o valor encontrado nas instituições, tradições e práticas sociais do passado da comunidade – “the traditionalist jeremiad makes a powerful claim that the value of the American past lies, in some key way, in what people did in the past” (110) –, tendo como objectivo reintroduzir aspectos concretos dessa realidade social no presente. Por outro lado, apesar de reconhecer mérito nessas práticas, a jeremíada progressista enfatiza o valor encontrado nos princípios basilares da nação – “the progressive jeremiad looks to the American past, most particularly to the founding period, as the source of emancipatory ideals and fundamental principles” (114) –, procurando reintroduzi-los e adaptá-los a uma nova realidade: “The ‘interpreting citizen’ does not merely seek to re-create past ways of doing things, but to live in a new and radically different social context in which the ideas of liberty and equality, to name just two, might take quite different forms than those envisioned by the American founders, and yet remain legitimate expressions of those ideals” (116). Portanto, como consequência das suas relações díspares com a História, enquanto, na jeremíada tradicionalista, detalhes do passado da nação são apresentados como um modelo para o futuro, na jeremíada progressista, tais aspectos

específicos são menos importantes, sendo que o poder da História se encontra na sua promessa. Ou seja, na capacidade da narrativa construída de apresentar os ideais fundadores da nação e sua promissão como instrumentos eficazes na resolução de crises contemporâneas (128).

Por último, torna-se necessário mencionar que a narrativa construída e transmitida por qualquer jeremíada americana sobre o passado da nação, assim como os elementos que dela são omitidos, fornece mais informação sobre o seu estado presente e as motivações do autor do que sobre as figuras e o passado evocados (120): “In a sense, we can never get beyond narrative, and all stories of the American past are moralized tales seeking to advance political agendas in the present. Decisions about the adequacy of various jeremiads as historical accounts ultimately reflect political as much as empirical judgments” (124). Desta forma, parte do poder político da jeremíada reside ou no seu carácter nostálgico, quando o passado evocado é recente, ou na sua capacidade de construir uma retórica de anseio por uma época de ouro distante (131-133) – “an even purer and in part mythic past” (134). Pelo que cada jeremíada apresenta um passado moldado de acordo com os problemas identificados na sociedade contemporânea e com a visão que possui para o futuro da nação. Assim, ao lembrar um passado mais próximo ou distante – ambos intimamente ligados a narrativas identitárias e à capacidade de criar unidade e coesão numa comunidade –, o autor da jeremíada é capaz de evocar sentimentos de desejo por um retorno – literal ou simbólico – ao passado, utilizando- os na arena política como forma de impulsionar e dirigir os esforços interventivos da população (131-135).