• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 VIVÊNCIAS E SUBJETIVIDADES: A PRECARIEDADE OBJETIVA

1.3 A Juventude e o primeiro emprego precarizado

Fábio Almeida dos Santos, 19 anos, acabou de se formar no ensino médio em uma escola pública da cidade de Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Como boa parte da juventude brasileira que conclui o ensino médio, geralmente entre os dezessete e vinte anos, Fábio não vai cursar, pelo menos imediatamente após se formar no antigo segundo grau, uma universidade. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) 16, apenas 15,29% da população brasileira entre 25 e 64 anos possui pelo menos um diploma de curso superior. De acordo com a mesma pesquisa, em outros países também em desenvolvimento, como Turquia (22,45%), México (25,14%) e Chile (22,48%), esses números passam da casa dos 20%. Na vizinha Colômbia, por exemplo, a taxa de portadores de diploma de ensino superior na mesma faixa etária

16 (OCDE, 2013). Dados disponibilizados em http://data.oecd.org/fr/eduatt/diplomes-de-l-

é de 26,02%.

Fábio parece aceitar o destino que lhe é imposto pela estrutura educacional brasileira e não sonha em concluir o terceiro grau. “Eu nunca pensei muito em um curso superior que gostaria de fazer; talvez engenharia civil, mas não sei, não tenho muita vontade no momento”. Ele diz que nunca gostou muito de estudar e que prefere falar sobre as suas experiências de trabalho de quando ainda era menor de idade. “Eu trabalhei como estagiário na prefeitura da minha cidade e também trabalhei dos dezesseis aos dezessete anos em uma empresa de telemarketing vendendo assinaturas de internet banda larga”, (Fábio Santos, 19). Após completar 18 anos, o jovem ficou por algum tempo desempregado e, depois de muita procura, fazer cursos de capacitação profissional, enviar currículos para diversas agências de emprego, lojas de comércio e indústrias, ele acabou conseguindo uma vaga de leiturista em uma empreiteira terceirizada da Cemig. Ele realiza o serviço de manutenção e leitura de relógios (padrões) de luz em residências.

Na empresa há oito meses, o eletricitário admite que este trabalho não era bem o que ele esperava para o seu primeiro emprego como adulto. Sem ter direito aos mesmos benefícios que os trabalhadores contratados diretamente pela Cemig – tais como vale alimentação, participação nos lucros e remuneração (PLR), convênio médico, maior estabilidade e garantia do emprego, dentre outros –, o jovem já é capaz de elaborar reflexões interessantes sobre a diferenciação entre trabalhadores que exercem a mesma função, trabalhando para a mesma empresa, mas que não têm os mesmos direitos. Fábio critica essa discriminação e fragmentação que a terceirização provoca entre os trabalhadores a partir da realidade em que se encontra:

Estamos reivindicando equiparação com o salário dos funcionários da Cemig. Somos contratados como terceirizados, mas tratados como quinterizados. Só o ticket alimentação deles é quase o nosso salário líquido, é uma diferença muito grande. E a gente leva o nome da Cemig no peito, o consumidor abre a porta para a gente, vendo que é a Cemig. Não temos plano de carreira. Isso é um desabafo. (Fábio Santos, leiturista, 19).

Trabalhando de segunda a sexta, algumas vezes sendo obrigado a fazer hora extra, o leiturista trabalha em média 9 horas por dia. Fábio tem que percorrer vários

domicílios por dia realizando as leituras e manutenção, tudo isso dirigindo uma moto que a empresa fornece. Ele diz que já sofreu dois acidentes leves ao longo desses oito meses, ambos por consequência de ter que andar muito rápido no trânsito para dar conta de todo o trabalho do dia. De acordo com o trabalhador, após os acidentes ele está mais cauteloso e não “vai ser matar” para deixar o patrão ainda mais rico. Questionado se existem metas diárias ou mensais para o serviço, o jovem denunciou: “eles falam que não tem metas, mas eu já vi muita gente “rodando” (perdendo o emprego) porque estava visitando poucas casas por dia”. Além disso, o jovem eletricitário diz que é muito comum os funcionários da empreiteira onde ele trabalha perderem o emprego com menos de um ano de casa, muitas vezes sem nenhuma motivação aparente.

O que o jovem nos relata a partir da sua observância do dia a dia na empresa terceirizada não é algo raro. Essa situação de alta rotatividade do trabalhador terceirizado é um fenômeno muito comum e já foi tema de estudo para o pesquisador e professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Márcio Pochmann. De acordo com Pochmann (2012) 17, esta situação pode levar os trabalhadores terceirizados a só poderem se aposentar por volta dos oitenta anos.

Com mais 35 anos de contribuição [à Previdência], ele estará em condições de se aposentar a partir dos 51 anos de idade. Mas, no caso de um terceirizado, que não consegue contribuir por 12 meses, e, sim, por sete meses, será preciso 64 anos para poder contribuir 35 anos. Ou seja, ele só vai se aposentar aos 80 anos de idade”, (Pochmann, EBC, 2012).

Além disso, o professor do Instituto de Economia da Unicamp também se referiu a alta rotatividade da terceirização como um fator que prejudica o sistema previdenciário brasileiro, contribuindo para o déficit da Previdência Social. “O problema é que estamos em um regime previdenciário onde, para alçar a aposentadoria, é preciso ter 35 anos de contribuição”, (POCHMANN, EBC, 2102).

17 Pesquisa: “Sindeepres, Trajetórias da Terceirização. Pesquisa inédita”. Realizada por

Ainda de acordo com este estudo realizado por Pochman (2012) para o Sindicato dos Empregados em Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros, Colocação e Administração de Mão de Obra, Trabalho Temporário, Leitura de Medidores e Entrega de Avisos do Estado de São Paulo (Sindeepres), a terceirização fez fortalecer o movimento dos trabalhadores entre várias empresas do Estado de São Paulo. No ano de 2010, por exemplo, o estado mais rico do país teve uma taxa de rotatividade dos trabalhadores terceirizados de 76,2%, expressivamente muito maior do que a dos trabalhadores que possuem ocupações não terceirizadas. Ainda de acordo com o trabalho realizado por Pochmann, na série histórica compreendida entre 2004 e 2010, a taxa de rotatividade dos trabalhadores não terceirizados passou de 32,9% para 36,1%; já na força de trabalho terceirizada o número no estado passou de 60,4% em 2004 para 63,6% no ano de 2010.

De acordo com o estudo realizado a pedido do Sindeepres, 5,3% dos empregados formalmente terceirizados perdem seu posto de trabalho no estado de São Paulo todos os meses. Enquanto isso, no Brasil a taxa de demissão mensal dos empregados que são contratados de forma indireta por alguma empresa chega a 4,1% dos empregos formais.

Um caso que ilustra bem esses números é o do eletricista Roberto Gonçalves de Souza, 39 anos; atualmente contratado para prestar serviços em uma empreiteira sediada em Betim, Região Metropolitana de Belo Horizonte, ele trabalha para a Cemig de forma indireta há dezoito anos. Roberto fala que já passou por sete empresas diferentes, algumas ele soube que eram dos mesmos donos das anteriores em que trabalhou, mas que, por algum motivo, acabaram falindo e reabrindo depois, em outras cidades, com outro Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). “Foi o meu primeiro emprego como “de maior” (sic)”, conta Roberto que nunca mais deixou de trabalhar como eletricista de linhas e redes. A vida laboral do eletricitário ao longo desses dezoito anos se resume a demissões e readmissões em empresas muito parecidas umas com as outras, seja pelo ramo de atividade, função para a qual ele é contratado ou ainda pela forma em que se demitem os funcionários ou declaram falência: “sempre querendo roubar o trabalhador”, (Roberto Souza, eletricista, 39).