ISNARDIS, A. Entre as Pedras - As ocupações pré-históricas recentes e os grafismos rupestres da região de Diamantina, Minas Gerais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 10, 2009.
tuído de areia e grande quantidade de esterco bovi
no, um segundo pacote - coiTespondendo a quase todo o depósito com material arqueológico - are
noso de cor escura e um terceiro pacote arenoso de cor branca arqueológicamente pobre. A esca
vação, diante da indistinção estratigráfica (devida à umidade?) se fez por níveis artificiais de 10 cm.
Embora, aparentemente, as flutuações de umidade tenham criado condições desfavo
ráveis para a conservação dos demais vestígios, o material lítico mostrou-se rico e abundante.
Infelizmente, não foram identificadas estrutu
ras de combustão e não disponho de datas para uma organização cronológica absoluta dos níveis escavados. O material de superfície coletado no sítio forneceu uma quantidade bastante signi
ficativa de artefatos retocados, alguns núcleos e percutores fraturados, que se distribuíam pela área diante do abrigo. Este é o material que será tomado inicialmente para discussão, ficando para um segundo momento a análise do material das escavações.
O material lítico de superfície da Lapa do Boi
O material lítico de superfície da Lapa do Boi é aqui examinado considerando-se os processos naturais e os processos culturais de form ação do registro arqueológico daquele sítio, nos termos de Schiffer (1991). Entre os primeiros destaca-se a sedimentação do abrigo e entre os últimos, os aspectos de elaboração e descarte das ferram entas líticas. Tais processos são aqui discutidos num percurso que segue em direção à construção de uma interpretação para as ocupações pré-históricas finais do sítio.
O material lítico recolhido em abril de 2006 na superfície da Lapa do Boi, na área abri
gada e a céu aberto diante do abrigo, apresenta atributos instigantes. Foi recolhido (e mapeado) um total de 42 instrumentos retocados e alguns
zeram através de uma classificação das matérias- primas em classes, distinguindo os quartzos dos quartzitos e, entre os últimos, fazendo uma subdivisão mais específica a partir das cores e granulometria. As lascas sem retoque foram descritas segundo atributos tecnológicos, visan
do uma identificação da etapa da(s) cadeia(s) operatória(s) a que poderiam corresponder. Os instrumentos retocados foram descritos confor
me a ficha de descrição de artefatos apresenta
da anteriormente. Os núcleos foram descritos inicialmente conforme o número de negativos e extensão destes, assim como conforme o núme
ro de planos de percussão e relação entre eles.
Para os instrumentos que incluem façonagem, a análise diacrítica dos negativos foi realizada, objetivando uma reconstituição mais detalhada do processo de fabricação e gestão (com even
tuais modificações no volume) dos artefatos, atenta às questões que Fogaça (2004) e Bueno (2005, 2007) têm destacado, para um contexto cronológico bem distinto, sobre a importância da curadoria de artefatos plano-convexos na cons
tituição de suas formas finais. Procurei analisar as coleções de Diamantina à luz das discussões que têm sido feitas para os instrumentos plano- convexos do Brasil Central, pois, mesmo que elas se refiram aos artefatos dos milênios iniciais da ocupação humana no continente, a semelhan
ça que alguns artefatos de Diamantina guardam com as famosas “lesmas” do início do Holoceno nos permite considerar a seu respeito as mesmas questões quanto à tecnologia e funcionalidade desses artefatos, sem pretender com isso pos
tular qualquer continuidade entre contextos tão distantes. A própria existência da semelhança será aqui objeto de reflexão.
Os artefatos em quartzo são mais nu
merosos no Boi do que em qualquer outro sítio em que interviemos na região de Diamantina.
Os artefatos de quartzito, contudo, serão trata
dos primeiramente, para que, após as considera
ções a seu respeito, o material em quartzo seja examinado, combinando as peças de superfície e dos níveis de imediata sub-superfície.
Os artefatos de superfície em quartzito podem ser a princípio classificados conforme duas variáveis: a matéria-prima (no caso, a va
riedade de quartzito em que foram produzidos)
e sofisticação tecnològica da transformação so
frida de suporte a artefato. Pode-se atribuir dois valores a cada uma dessas variáveis.
Quanto à matéria-prima, têm-se peças produzidas no quartzito branco de granulome
tria fina ou média, que é semelhante àquele dis
ponível no próprio afloramento rochoso da Lapa - nas paredes e em blocos e plaquetas caídos ao chão; e peças produzidas em variedades de quartzito outras, ainda que entre si diversas, dis
tintas daquela disponível no abrigo.
Quanto ao grau de sofisticação, têm-se artefatos complexos e simples. Os primeiros se
riam aqueles em que se operou uma mudança significativa no suporte para a transformação deste em artefato (seja através de façonagem ou de um número elevado de retoques em mais de um bordo), onde houve uma alteração de volu
me; e os simples, aqueles aos quais falta essa transformação, neles tendo sido feitos apenas retoques ou outras retiradas que delinearam o gume e não modificaram o volume do suporte.
Os simples têm uma única seqüência de gestos de retoques, enquanto os complexos têm duas ou mais etapas de lascamento, que alteram seu volume e a seguir alteram os gumes.
O que se vê quanto à distribuição das pe
ças? Conforme se pode observar no croquis do abrigo (vide Prancha 38, na página seguinte), as áreas de maior ocorrência de artefatos correspon
dem às margens do que se pode chamar de ‘entra
da’ do abrigo, ou seja, a área onde se acumulam blocos nas bordas do aclive suave e desimpedido que conduz à área abrigada. Os blocos delimitam um trapézio, dentro do qual o trânsito de pessoas é livre de obstáculos; nas áreas de concentração de blocos, é preciso saltá-los, galgá-los e desviar deles e da vegetação rupestre que os envolve par
cialmente. Grande parte desses blocos tem de 20 a 60 centímetros de altura, o que os faz se apre
sentarem como sugestivos ‘assentos’ ou ‘mesas’
Os artefatos complexos que ali recupera
mos têm como atributo recorrente o fato de apre
sentarem seus bordos com ângulo muito abrupto e seqüências de negativos que deixam claro um trabalho de reavivagem de gume. Há um intenso trabalho de retoques recursivos e progressiva
mente mais abruptos, que conduziu as peças à exaustão Esses instrumentos complexos foram todos produzidos sobre plaquetas de quartzito.
As matérias-primas utilizadas são quartzitos de granulometria fina e cores variadas,em geral, com metamorfismo acentuado3, que não corres
pondem ao quartzito do abrigo.
A outra classe de artefatos de quartzito, os simples, tem variada morfologia, diferentes ângulos nos gumes, que podem ser côncavos, retilíneos, denticulados ou convexos. O que permite agrupar os artefatos simples do ponto de vista analítico, além de sua simplicidade, é o fato de serem produzidos sobre plaquetas e las
cas de um quartzito semelhante ao do próprio recursivamente reavivados. Os núcleos que re
colhemos no sítio também são da matéria-prima de aparência local e apresentam poucos nega
tivos em suas faces; alguns se apresentam em dimensões reduzidas, em torno de 5 cm. Lascas compatíveis com esses negativos foram também encontradas, mas não em grande número.
Áreas de atividade ou áreas de deposição de refugo?
Seriam os artefatos complexos encon
trados em superfície na Lapa do Boi refugos qual(is) os artefatos formais são empregados)? De quais elementos dispomos para construir respostas a estas perguntas? caso dos artefatos complexos, o descarte seria
3 O que os toma compactos, homogêneos e, portanto, bastante adequados ao lascamento.
ISNARDIS, A. Entre as Pedras - As ocupações pré-históricas recentes e os grafismos rupestres da região de Diamantina, Minas Gerais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 10, 2009.