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- A Lapa do Boi e a Lapa do Caminho da Serra

No documento R e v ist a d o M u s e u n c (páginas 123-126)

ISNARDIS, A. Entre as Pedras - As ocupações pré-históricas recentes e os grafismos rupestres da região de Diamantina, Minas Gerais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 10, 2009.

tuído de areia e grande quantidade de esterco bovi­

no, um segundo pacote - coiTespondendo a quase todo o depósito com material arqueológico - are­

noso de cor escura e um terceiro pacote arenoso de cor branca arqueológicamente pobre. A esca­

vação, diante da indistinção estratigráfica (devida à umidade?) se fez por níveis artificiais de 10 cm.

Embora, aparentemente, as flutuações de umidade tenham criado condições desfavo­

ráveis para a conservação dos demais vestígios, o material lítico mostrou-se rico e abundante.

Infelizmente, não foram identificadas estrutu­

ras de combustão e não disponho de datas para uma organização cronológica absoluta dos níveis escavados. O material de superfície coletado no sítio forneceu uma quantidade bastante signi­

ficativa de artefatos retocados, alguns núcleos e percutores fraturados, que se distribuíam pela área diante do abrigo. Este é o material que será tomado inicialmente para discussão, ficando para um segundo momento a análise do material das escavações.

O material lítico de superfície da Lapa do Boi

O material lítico de superfície da Lapa do Boi é aqui examinado considerando-se os processos naturais e os processos culturais de form ação do registro arqueológico daquele sítio, nos termos de Schiffer (1991). Entre os primeiros destaca-se a sedimentação do abrigo e entre os últimos, os aspectos de elaboração e descarte das ferram entas líticas. Tais processos são aqui discutidos num percurso que segue em direção à construção de uma interpretação para as ocupações pré-históricas finais do sítio.

O material lítico recolhido em abril de 2006 na superfície da Lapa do Boi, na área abri­

gada e a céu aberto diante do abrigo, apresenta atributos instigantes. Foi recolhido (e mapeado) um total de 42 instrumentos retocados e alguns

zeram através de uma classificação das matérias- primas em classes, distinguindo os quartzos dos quartzitos e, entre os últimos, fazendo uma subdivisão mais específica a partir das cores e granulometria. As lascas sem retoque foram descritas segundo atributos tecnológicos, visan­

do uma identificação da etapa da(s) cadeia(s) operatória(s) a que poderiam corresponder. Os instrumentos retocados foram descritos confor­

me a ficha de descrição de artefatos apresenta­

da anteriormente. Os núcleos foram descritos inicialmente conforme o número de negativos e extensão destes, assim como conforme o núme­

ro de planos de percussão e relação entre eles.

Para os instrumentos que incluem façonagem, a análise diacrítica dos negativos foi realizada, objetivando uma reconstituição mais detalhada do processo de fabricação e gestão (com even­

tuais modificações no volume) dos artefatos, atenta às questões que Fogaça (2004) e Bueno (2005, 2007) têm destacado, para um contexto cronológico bem distinto, sobre a importância da curadoria de artefatos plano-convexos na cons­

tituição de suas formas finais. Procurei analisar as coleções de Diamantina à luz das discussões que têm sido feitas para os instrumentos plano- convexos do Brasil Central, pois, mesmo que elas se refiram aos artefatos dos milênios iniciais da ocupação humana no continente, a semelhan­

ça que alguns artefatos de Diamantina guardam com as famosas “lesmas” do início do Holoceno nos permite considerar a seu respeito as mesmas questões quanto à tecnologia e funcionalidade desses artefatos, sem pretender com isso pos­

tular qualquer continuidade entre contextos tão distantes. A própria existência da semelhança será aqui objeto de reflexão.

Os artefatos em quartzo são mais nu­

merosos no Boi do que em qualquer outro sítio em que interviemos na região de Diamantina.

Os artefatos de quartzito, contudo, serão trata­

dos primeiramente, para que, após as considera­

ções a seu respeito, o material em quartzo seja examinado, combinando as peças de superfície e dos níveis de imediata sub-superfície.

Os artefatos de superfície em quartzito podem ser a princípio classificados conforme duas variáveis: a matéria-prima (no caso, a va­

riedade de quartzito em que foram produzidos)

e sofisticação tecnològica da transformação so­

frida de suporte a artefato. Pode-se atribuir dois valores a cada uma dessas variáveis.

Quanto à matéria-prima, têm-se peças produzidas no quartzito branco de granulome­

tria fina ou média, que é semelhante àquele dis­

ponível no próprio afloramento rochoso da Lapa - nas paredes e em blocos e plaquetas caídos ao chão; e peças produzidas em variedades de quartzito outras, ainda que entre si diversas, dis­

tintas daquela disponível no abrigo.

Quanto ao grau de sofisticação, têm-se artefatos complexos e simples. Os primeiros se­

riam aqueles em que se operou uma mudança significativa no suporte para a transformação deste em artefato (seja através de façonagem ou de um número elevado de retoques em mais de um bordo), onde houve uma alteração de volu­

me; e os simples, aqueles aos quais falta essa transformação, neles tendo sido feitos apenas retoques ou outras retiradas que delinearam o gume e não modificaram o volume do suporte.

Os simples têm uma única seqüência de gestos de retoques, enquanto os complexos têm duas ou mais etapas de lascamento, que alteram seu volume e a seguir alteram os gumes.

O que se vê quanto à distribuição das pe­

ças? Conforme se pode observar no croquis do abrigo (vide Prancha 38, na página seguinte), as áreas de maior ocorrência de artefatos correspon­

dem às margens do que se pode chamar de ‘entra­

da’ do abrigo, ou seja, a área onde se acumulam blocos nas bordas do aclive suave e desimpedido que conduz à área abrigada. Os blocos delimitam um trapézio, dentro do qual o trânsito de pessoas é livre de obstáculos; nas áreas de concentração de blocos, é preciso saltá-los, galgá-los e desviar deles e da vegetação rupestre que os envolve par­

cialmente. Grande parte desses blocos tem de 20 a 60 centímetros de altura, o que os faz se apre­

sentarem como sugestivos ‘assentos’ ou ‘mesas’

Os artefatos complexos que ali recupera­

mos têm como atributo recorrente o fato de apre­

sentarem seus bordos com ângulo muito abrupto e seqüências de negativos que deixam claro um trabalho de reavivagem de gume. Há um intenso trabalho de retoques recursivos e progressiva­

mente mais abruptos, que conduziu as peças à exaustão Esses instrumentos complexos foram todos produzidos sobre plaquetas de quartzito.

As matérias-primas utilizadas são quartzitos de granulometria fina e cores variadas,em geral, com metamorfismo acentuado3, que não corres­

pondem ao quartzito do abrigo.

A outra classe de artefatos de quartzito, os simples, tem variada morfologia, diferentes ângulos nos gumes, que podem ser côncavos, retilíneos, denticulados ou convexos. O que permite agrupar os artefatos simples do ponto de vista analítico, além de sua simplicidade, é o fato de serem produzidos sobre plaquetas e las­

cas de um quartzito semelhante ao do próprio recursivamente reavivados. Os núcleos que re­

colhemos no sítio também são da matéria-prima de aparência local e apresentam poucos nega­

tivos em suas faces; alguns se apresentam em dimensões reduzidas, em torno de 5 cm. Lascas compatíveis com esses negativos foram também encontradas, mas não em grande número.

Áreas de atividade ou áreas de deposição de refugo?

Seriam os artefatos complexos encon­

trados em superfície na Lapa do Boi refugos qual(is) os artefatos formais são empregados)? De quais elementos dispomos para construir respostas a estas perguntas? caso dos artefatos complexos, o descarte seria

3 O que os toma compactos, homogêneos e, portanto, bastante adequados ao lascamento.

ISNARDIS, A. Entre as Pedras - As ocupações pré-históricas recentes e os grafismos rupestres da região de Diamantina, Minas Gerais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 10, 2009.

No documento R e v ist a d o M u s e u n c (páginas 123-126)