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- Sepultamentos III e IV da Lapa do Caboclo

No documento R e v ist a d o M u s e u n c (páginas 170-173)

A Lapa do Caboclo demonstrou-se espa­

ço funerário efetivo para as populações respon­

sáveis pelo nível arqueológico datado entre 640 e 1290 BP, na área correspondente à escavação principal. O sítio desempenhou papel ainda sem recorrência na região, exibindo, inclusive, condi­

ções de preservação excepcionais. Considerando sua morfologia peculiar, podemos aventar a pos­

sibilidade de haver um uso específico do abrigo em função de suas características físicas, que o distinguem dos demais abrigos com tanta nitidez quanto os próprios vestígios e estruturas.

Caça e coleta e horticultura

Os sítios analisados nesta pesquisa não têm atributos coerentes com sítios de ha­

bitação. Além do espaço funerário da Lapa do Caboclo, temos abrigos que parecem ter fun­

cionado como acam pam entos temporários, dada a sua variabilidade artefatual e a baixa freqüência geral de peças, somadas à ausência de estruturas de combustão compatíveis com uma ocupação mais intensa.

Alguns vegetais recuperados nas esca­

vações na Lapa do Caboclo atestam a prática da horticultura por populações pré-históricas tardias na região. Embora o conjunto do material vegetal da Lapa do Caboclo ainda aguarde uma análise especializada, capaz de identificar com seguran­

ça as famílias e gêneros, aparentemente variados, presentes nas amostras, foram identificadas espi­

gas de milho {Zea mais) e palhas desse mesmo vegetal. Amostras deste material foram coletadas pelo Dr. Fábio Freitas, que está conduzindo aná­

lises genéticas, com o objetivo de compará-las às linhagens conhecidas de variedades de milho in­

dígenas contemporâneas e arqueológicas.

A presença de milho é atestado da pre­

sença de horticultura ao alcance daqueles que fizeram da Lapa do Caboclo espaço funerário.

Diante de tal evidência, é lícito considerar o con­

junto das ocupações como produtos de povos en­

volvidos com um modo de vida horticultor. Tal envolvimento pode se dar em diferentes níveis,

desde um contato irregular de um grupo cuja eco­

nomia se baseia em caça e coleta com vizinhos horticultores, até se tratar de uma população cuja economia está centrada na horticultura.

Outros sítios habitualm ente associados a horticultores, em especial sítios a céu aberto com material cerâmico, que corresponderiam às aldeias, não são conhecidos na região. Essa caçadores-coletores foram discutidos. Essa co­

existência, se não em nível local, ao menos em nível regional, pode gerar um padrão de sítios que é produto de uma rede de relações que implicaria numa combinação sofisticada de estruturas. Os padrões de sítios de ocupação por horticultores são mais amplamente conhecidos e explorados arqueológicamente, mas os elementos que se têm hoje disponíveis em Diamantina se distanciam desses padrões. Também a respeito de ocupações de horticultores, creio que há uma certa simpli­

ficação dos sistemas de assentamento. Quanto à análises de contextos de caçadores-coletores, no Brasil esses têm sido objeto de investigações mais sistemáticas e consistentes, contudo majori- tariamente referentes aos horizontes de ocupação mais antigos, da transição Pleistoceno/Holoceno e do Holoceno inicial (BUENO, 2005; FOGA­

ÇA, 2001; DIAS, 2003; KIPNIS et al„ 1998;

SCHMITZ et al, 2004).

No conjunto da região, tem-se uma qua­

se ausência de cerâmica indígena, com poucos fragmentos identificados, provenientes da Lapa de M oisés e da Lapa Pintada de Datas. Esses fragmentos apresentam-se sem decoração, todos com menos de cinco centímetros, com anti-plás­

ticos minerais. Os fragmentos da Lapa Pintada de Datas têm cor de superfície clara, com nú­

cleo bastante oxidado, mas não inteiramente. Os fragmentos da Lapa de Moisés apresentam cor de superfície avermelhada e núcleo reduzido, assemelhando-se vagamente à cerâm ica Aratu- Sapucaí. Não localizamos nenhum caso, nem obtivemos qualquer relato oral da ocorrência de sítios cerâmicos a céu aberto.

No limite leste da área de pesquisa, em São Gonçalo do Rio das Pedras registramos uma

ISNARDIS, A. Entre as Pedras - As ocupações pré-históricas recentes e os grafismos rupestres da região de Diamantina, Minas Gerais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 10, 2009.

ocorrência de cerâmica Tupiguarani2 - veja fotos dos fragmentos na Prancha 33, na página seguin­

te. O material foi evidenciado por um morador local que abria a fossa sanitária para sua nova casa. Entrevistas com os vizinhos não encontra­

ram nenhum outro relato de cerâmica indígena no local, que foi literalmente esburacado por vá­

rias fossas, valas para encanamentos de água e alicerces para residências - a área está na zona de “expansão urbana” de São Gonçalo, com diversas novas moradias erguidas nos últimos quinze anos. Parece que se tratava de um sítio de dimensões muito reduzidas ou mesmo de uma ocorrência; com base no que foi possível ouvir e observar, certamente não havia ali uma aldeia Tupiguarani. O morador, descobridor dos cacos e de adornos de pedra polida, não nos autorizou sondagens em seu terreno. Os fragmentos de São Gonçalo são bem típicos de peças da Tradição Tupiguarani, com decoração geometrizada pinta­

da em linhas e pontos pretos sobre fundo branco.

De todo modo, sabemos agora da presença de ceramistas tupiguarani na região, num local bas­

tante sugestivo: São Gonçalo está bem próximo do Serro (pertence a seu município), a poucos quilômetros da vertente oriental do Espinhaço, drenada pelos afluentes do Rio Doce e coberta de vegetação de mata. Teriam os ceramistas Tupi­

guarani chegado ali subindo os cursos d’água da bacia do Doce, limitando-se, quase inteiramente, às áreas de ocorrência de mata, ou seja, às áreas de maior profundidade de solo, mais propensas a suas atividades de horticultura? A ausência quase total de cerâmica tupiguarani no restante da área de pesquisa e a ausência do conhecimento de sí­

tios cerâmicos entre a população dos altos da Ser­

ra em tomo de Diamantina aponta nesse sentido.

Ausência “quase total”, pois fragmentos de uma vasilha com decoração plástica ungulada foram encontrados na Lapa da Bandalheira - e apenas ali. São Gonçalo poderia ser um local nos limi­

tes da área de implantação dos ceramistas dessa tradição. De todo modo, ceramistas Tupiguarani são, agora, elementos a serem considerados para 2 A informação nos chegou através de Alex Mendes, da ONG Caminhos da Serra, no segundo semestre de 2006. Ângelo Pessoa e Adriano Carvalho registraram a informação em campo, primeiramente. A seguir, em fevereiro de 2007, fui a campo colher informações mais detalhadas e avaliar a área.

futuras pesquisas que expandam a área de inves­

tigação em relação a esta.

Frente a essa presença Tupiguarani na região, os sepultamentos da Lapa do Caboclo ganham ainda mais expressão, uma vez que em nada se assemelham a qualquer dos sepultamen­

tos Tupiguarani conhecidos na bibliografia. Se gentes tupiguarani estiveram por ali - e só pode­

riam ter estado por ali em períodos correspon­

dentes ou muito próximos ao dos sepultamentos da Lapa do Caboclo - sua presença pode ter sido contemporânea ou seguiu muito de perto outras populações, aquelas que sepultaram alguns de seus mortos na Lapa do Caboclo.

A raridade de vestígios cerâmicos no interior da área de pesquisa representada, excetu­

ando-se os potes pintados de São Gonçalo, pelo tímido acervo recuperado de menos de 10 frag­

mentos, poderia ser explicada de diversas ma­

neiras: em primeiro lugar, pode-se pensar numa real ausência de ceramistas na área, possibilidade a princípio inconsistente com os escassos mas presentes cacos cerâmicos; em segundo lugar, podemos pensar numa ocupação por ceramistas que teria deixado raros vestígios em função de um uso dos sítios pesquisados que não envolvia os artefatos cerâmicos; em terceiro, podemos pensar numa ocupação por não ceramistas que mantiveram eventuais contatos com ceramistas;

em quarto lugar, podemos considerar a quase ausência de cerâmica em função da escassez de matéria-prima, embora populações interessadas na produção de cerâmica tenham ocupado a área.

A última possibilidade pode ser descar­

tada, pois, embora a princípio os quartzitos não sejam pródigos em depósitos argilosos, a geo­

logia da Serra é bastante complexa e há de fato depósitos de argila, conforme pudemos verifi­

car em campo, conforme consta da bibliografia (FOGAÇA, 1997) e como atesta a extração de caulim próxima à região da Bandeirinha3, a pou­

cos quilômetros dos sítios escavados.

Entre os ocupantes da região poderia ter havido comunidades que efetivamente produ­

ziam cerâmica, mas essa pode ter sido produzida em pequena escala nos altos da Serra. Pode haver

3 Esta extração parece acompanhar um veio de rochas metabásicas, veios que não são nada incomuns entremeando as formações quartzíticas (FOGAÇA, 1997).

No documento R e v ist a d o M u s e u n c (páginas 170-173)