5 OS LUGARES E OS MEIOS
5.2. Os meios
5.2.2. A lavoura e a vulnerabilidade das famílias
Quando se toma como perspectiva de análise os elementos que encontram disponíveis no próprio sítio para a reprodução familiar, percebe-se que é pela
combinação de dois fatores ligados às estações do ano, os efeitos de um período prolongado de seca e o recomeço das atividades na lavoura, que faz do início do período das águas uma das épocas em que a família se encontra mais vulnerável. É neste intervalo de tempo, que se estende por aproximadamente sessenta dias, até por volta de dezembro para aquelas famílias que plantaram nas primeiras águas, e janeiro para as que começaram a cultivar em novembro, que os agricultores encontram limitadas possibilidades de reprodução a partir da produção própria.
Neste período o que os lavradores tinham à disposição para colher durante a
seca geralmente já foi consumido e os cultivos típicos das águas, que inauguram
um momento de fartura, estão sendo cultivados ou encontram-se em desenvolvimento, para ficar disponível no final de dezembro. Como afirma o agricultor J.I. “quando chega ali na entrada da chuva, também tem pouca
produção por que a gente vem de um período de seca e a lavoura nossa entra na fase de crescer, de desenvolver!”.
As hortaliças, que começam a colher em junho ou julho, e que representam a possibilidade de consumo e ao mesmo tempo de geração de renda para a maioria das famílias que podem cultivá-las, geralmente foi consumida até o final de agosto ou início de setembro. Após este período, e precipitando as primeiras chuvas, a temperatura tende a se elevar, marcando um dos períodos mais quentes do ano, ao passo que as fontes de água ainda estão escassas, fatores que tornam pouco compensador a realização de um novo cultivo.
Para as famílias que plantam maiores áreas em função das características de seu terreno, como os baixios, ou por contarem com sistemas de irrigação que asseguram uma escala maior de produção, o período em que possuem hortaliças pode ser maior, chegando até o mês de outubro. Porém, a partir deste mês, frente a tecnologia disponível e a vulnerabilidade das hortaliças folhosas frente as
chuvas, seu cultivo torna-se inviável. O retorno da horta, sem a presença de produtos folhosos, se dará novamente a partir de janeiro.
Segundo o técnico J.A., é na horticultura que as famílias encontram melhores condições para comercialização e geração de renda. Já os demais produtos geralmente tendem a ser consumidos internamente devido a quantidade que podem cultivar, ou seja, voltam-se quase que exclusivamente “para o gasto
da casa, é para despesa”, como dizem os agricultores. E no início das águas
representa justamente o intervalo no qual o que tinham de produção da seca já foi consumido enquanto as hortaliças para as águas começaram a ser plantadas, para completarem seu ciclo em janeiro.
Este é também o intervalo em que as famílias, na maioria dos casos, não têm mais disponível feijão oriundo da própria produção. As variedades verdes são consumidas por um período curto: são colhidas , entre março e abril e não podem ficar armazenadas por muito tempo. Já o feijão rasteiro, menos perecível, não pode ser cultivado por todas as famílias pelos seguintes motivos: nem todas as famílias possuem terras úmidas e, segundo os agricultores, são raras as que as possuem e, quando isto ocorre, geralmente são em beiras de córrego que possuem tamanho reduzido pois tendem a ser divididas entre várias famílias. Além destes fatores, frente a quantidade produzida a prioridade se torna o autoconsumo que reduz a possibilidade de venda visto que pode comprometer o abastecimento da família ou deixá-lo dependente do mercado, como afirma a agricultora N. “feijão colhe pouco, pra despesa, pra consumo!”.
Mas durante a pesquisa constatou-se a existência de famílias que conseguiram obter produção que avaliaram que seria o suficiente até as águas por dois motivos: as chuvas de feijão foram consideradas suficientes para garantir maior produção durante a seca. O segundo caso era o dos produtores da comunidade de Retiro, que dispunham de áreas maiores para o cultivo do feijão da seca, além de tecnologia e água disponível para irrigar (Foto 10).
Quanto à cana e mandioca, podem permanecer na terra por um período superior a um ano, o seu consumo ou venda durante o início das águas apresenta restrições. A cana cultivada no período das águas anterior, doze meses após o plantio ainda se encontra em formação pois seu ciclo se completa a partir de um ano e meio, ficando disponível para a colheita a partir do mês de abril, no início da seca, quando passa a ser consumida. Já aquelas que completaram o seu ciclo e que permanecem na terra (podem ser mantidas no solo por até três anos), com as chuvas deixa de apresentar as condições necessárias para ser colhida e beneficiada pois o teor de umidade se eleva, reduzindo o seu rendimento e dificultando a sua transformação, seu beneficiamento.
Com a mandioca ocorre situação semelhante. Nas águas ela não está no melhor momento para ser beneficiada e comercializada por causa da umidade que dificulta a sua transformação em farinha. Mesmo in natura, a mandioca colhida após as chuvas já não é mais tão apreciada para ser cozida, pois
desmancha com maior facilidade. Assim, as possibilidades de sua venda para atender as necessidades é mais restrita, como descreve a agricultora sobre as condições que encontra no seu sítio no início das águas:
“Mesmo quem tem ali um mandiocal, que pode vender na feira, a mandioca não fica de boa qualidade, então é uma época que é difícil!
(M. B., agricultora aposentada)