• Nenhum resultado encontrado

A relação com o comércio

No documento DISSERTAÇÃO_Torrão de origem (páginas 157-162)

5 OS LUGARES E OS MEIOS

5.2. Os meios

5.2.8. A relação com o comércio

Se os recursos da migração não são repassados às famílias na medida em que são recebidos pelo migrante, ou se quando remetidos nem sempre são suficientes para arcar com toda a dívida contraída junto aos comerciantes, o consumo da família, principalmente de víveres, não pode ficar submetido a estas oscilações. Assim, se há um período no ano em que o dinheiro e a produção começam a ficar cada vez mais escassos, por outro este mesmo momento não pode ameaçar o atendimento dos níveis subjetivamente avaliados como mínimos para a subsistência da família. O que indica que nem sempre a liquidez é condição fundamental para o consumo via mercado.

Para que isto ocorra à família agricultora cria mecanismos para desvincular liquidez monetária e acesso a bens no mercado. Para que este distanciamento ocorra estabelecem com o comércio local uma relação de proximidade e de confiança o que é fundamental para que a sua família possa

manter seu abastecimento, mesmo que este se dê concentrado quase que exclusivamente no que é considerado como essencial, sem gastos que extrapolem o patamar considerado básico, sem envolver itens supérfluos.

A minimização do impacto da falta de liquidez se dá mediante a mobilização do fiado, que é um recurso cuja base é o nome da pessoa e da família que é mobilizado com um ativo que garante o acesso.

A primeira característica destas relações é que são construídas historicamente e no caso dos pontos comerciais mais tradicionais, estas podem representar laços intergeracionais pois envolvem e comprometem tanto as gerações da família do comerciante quanto dos agricultores. A confiança representa assim um recurso que as famílias rurais encontram à disposição, que pode até mesmo antecedê-las e que, quando atualizada, é repassada entre gerações como um patrimônio, como afirmou um comerciante do segmento farmacêutico:

“quando conhece a família, nem precisa conhecer a pessoa, sabe que é bom pagador, compra fiado sem problema, já tem confiança!”

O fiado tende a ficar restrito a determinados pontos comerciais. Nestes estabelecimentos criaram relações mais sólidas baseadas em contratos informais que têm como resultados benefícios mútuos: se para o agricultor garante a regularidade e segurança no abastecimento em situações em que a sua família se encontra desprovida de numerário, o comerciante também se beneficia da fidelidade do agricultor, que é uma das exigências.

Nesta relação o migrante obtém do comerciante dois recursos fundamentais: a garantia da manutenção do abastecimento regular, mesmo sem dinheiro, e geralmente se restringe a bens alimentares básicos, como afirma o comerciante P.:

“a gente dá o tempo, eles mesmo pagam de acordo com o que eles ganham! Geralmente quando vão para São Paulo já deixa uma despesa

pra mulher. Se precisar de mais alguma coisa a gente manda e depois paga!”

O outro recurso é a flexibilidade, expressa na possibilidade de renegociar a dívida em função das necessidades da família com expresso no discurso do comerciante B., do segmento de eletrodomésticos

“muitas vezes eles chegam, pagam a dívida velha e faz outra, porque senão não paga os outros comerciantes! Então eles têm que dividir! E as outras coisas que eles tem que comprar?”

Para as agricultores, pagar uma parte do que devem é uma estratégia que pode ter duas interpretações: social, pois mostra para o comerciante que a família está comprometida e empenhada em arcar com as despesas, pois como definiu o agricultor E. “a barriga dele também dói como a nossa!”, e também uma interpretação econômica pois o reforço dos laços sociais através destas

“entradas”, tal com se referiram a estas somas, é também uma forma de manter

o crédito aberto, pois assim podem continuar comprando. Tal iniciativa dos agricultores, de sempre pagar uma parcela mesmo que pequena, tende a ser simbolizada ou interpretada como um sacrifício da família rural, a sua preocupação com o comerciante, o que reforça ainda mais a relação

E em situações mais extremas, principalmente em caso de emergência, os comerciantes também agem como um emprestadores de dinheiro. Nestes casos mesmo estando em dívida com o comerciante, por conhecer a família e a situação em que se encontra, não nega o pedido, que geralmente está associado a alguma emergência. Portanto as trocas no mercado extrapolam o contexto puramente econômico, envolvem relações de reciprocidade e laços sociais de longa duração, como afirmou o comerciante B. “ as vezes ele (o migrante) liga

pra nós pra saber como a família dele está, pra marcar o telefone do lugar que eles estão”.

A relações de troca ganham assim contornos imperfeitos e incompletos pois seus movimentos não dependem apenas da atuação das forças de mercado, está imersa em uma estrutura social regulada por normas sociais86 e que garantem estabilidade nas relações.

Trocas baseadas em relações sociais ratificam a proposição de Polanyi (1980) de que a economia não existe como uma esfera autônoma da vida social pois nestes mercados a proximidade forma uma sociedade de interconhecimento que coloca frente a frente indivíduos que se conhecem e que estabelecem contatos que vão além do círculo econômico, imputando nestas trocas também pressupostos morais87. Interconhecimento, segundo Mendras (1978), quer dizer que estas relações não são parciais, não é apenas o papel de comerciante e de consumidor, de cliente. O agricultor conhece mais, tem informações sobre a pessoa, sobre a vida, conhece a família do comerciante com quem está se relacionando. Da mesma forma que o negociante geralmente conhece a família dos agricultores, seus pais e filhos, em muitos casos visitaram a sua casa e lá realizaram refeições, o que representaria o selamento de um contrato.

Este conhecimento mútuo e totalizante é sintetizado na fala do comerciante P. “a gente conhece o povo aqui desde pequeno, né? Todo mundo

aqui sabe quem é bom e quem é ruim, né?” ou “se o cara demorar para pagar a gente não importa não, a gente sabe o que está acontecendo”.

Dois aspectos chamam a atenção nesta relação. A primeira é a aproximação que procuram realizar entre o conhecido e o amigo, como afirmou um comerciante: “se um cara é conhecido meu, manda um recado pra mim e eu

mando o que ele precisa! Se é conhecido, ué, é amigo!” e “se é conhecido tem que ter confiança”. Outro aspecto é que como são relações que envolvem

86 Para mais informações sobre mercados imperfeitos ou incompletos consultar

Abramovay (1998).

valores em tempos diferentes, o montante devido tem seu valor atualizado em função do preço do dia em que vai pagar, o que nem para comerciante e nem para agricultores tem o sentido de juros, de usura ou exploração. Quando argüidos sobre a existência dos juros, informaram que não havia, só pagavam o preço do dia.

Mas não só dos comerciantes são exigidas concessões, cabe ao agricultor cumprir algumas regras, entre elas a fidelidade ou prioridade nos gastos. E isto ocorre porque o comerciante só tem condições de oferecer crédito para um número determinado de famílias rurais, e assim quando precisam comprar fiado só podem recorrer a um comércio, àquele em que tem relações de confiança estabelecidas, ficando condicionado aos seus preços. Mas o comprometimento vale também para as situações em que dispõe de recursos monetários, principalmente quando retorna da migração, período em que as compras tendem a se realizar à vista. Neste caso o que o comerciante exige é prioridade ou fidelidade, e não que a família faça busca pelo melhor preço. Assim é paga com a sua fidelidade a estabilidade proporcionada ao longo do ano.

Outro compromisso é com a renegociação ou remontagem das dívidas. Antes de migraram, geralmente os agricultores chefes de família vão até os comerciantes e com eles reforçam oralmente o contrato de abastecimento da família. Nesta conversa procura expor para qual cidade irão se deslocar, o tempo que lá permanecerão e firmarão as condições em que serão feitos os pagamentos. É sobre este contrato baseado na palavra, mas que se sustenta por laços sociais de longa data, que se comprometem mutuamente a pagar e fornecer. Mas uma das condições de cumprimento destes contratos é que a família, todo o mês, faça um abate no montante que valor devido, no acerto, mesmo que este não represente a totalidade da dívida. Mas caso isto não ocorra, a família tem a possibilidade de remontar a dívida, renegociá-la ou simplesmente informar ao

comerciante que não terá as condições de efetuar o pagamento naquele momento, pois a falta de informação pode significar o descomprometimento. Como o comerciante, neste caso, tem todas as informações sobre a família, não é socialmente inaceitável que se mostrasse inflexível, rígido, em um campo marcado por relações personalizadas.

No documento DISSERTAÇÃO_Torrão de origem (páginas 157-162)