2. AS DIMENSÕES DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO
2.1. A Dimensão Legal do Estágio Supervisionado
2.1.1. A LDB 9394/96 e a Formação de Professores
consagra o Título VI aos Profissionais da Educação. Em seus artigos 61 e 62 prescreve que a formação de profissionais da educação para os diferentes níveis e modalidades de ensino dar-se-á considerando-se a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço e o aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino e outras atividades em nível superior, licenciatura, graduação plena, admitida como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. (BRASIL, 2014, p. 35-36).
Assegura ainda a esses profissionais, no artigo 67, o aperfeiçoamento contínuo e se for o acaso um período de licença remunerada para essa formação. Da mesma forma prevê um “piso salarial profissional” e "progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do desempenho"; também um "período reservado a estudos, planejamento e avaliação” a ser incluído nas horas de trabalho; e as "condições adequadas de trabalho" (BRASIL, 2014, p. 37).
No texto legal é possível verificar uma valorização dos profissionais da educação, contudo, não são especificadas as condições para que tal propositura se estabeleça na prática, já que não apresenta dispositivos que garantam a valorização socioeconômica e cultural da profissão, ao mesmo tempo em que não especifica um projeto de melhoria da qualificação dos profissionais e a organização dos planos de carreira.
A LDB 9394/96 contempla no artigo 65 a previsão da prática de ensino considerando “no mínimo, trezentas horas” para esse fim, excetuando a formação para o nível superior; porém, as definições mais específicas sobre essa prática e algumas alterações importantes que se somaram a legislação sobre o Estágio Supervisionado são conteúdo de pareceres, diretrizes e
deliberações que alteraram as proposições do artigo 65 no tocante as horas de prática e desenvolvimento de programas e atividades que possibilitem a articulação da teoria com a prática educativa, nos cursos de formação de professores. Um deles, a Resolução CNE/CP 02/2002, contém entre outras as seguintes normativas:
Art. 1º A carga horária dos cursos de Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, será efetivada mediante a integralização de, no mínimo, 2800 (duas mil e oitocentas) horas, nas quais a articulação teoria-prática garanta, nos termos dos seus projetos pedagógicos, as seguintes dimensões dos componentes comuns:
I. 400 (quatrocentas) horas de prática como componente curricular, vivenciadas ao longo do curso;
II. 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda metade do curso;
III. 1800 (mil e oitocentas) horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural;
IV. 200 (duzentas) horas para outras formas de atividades acadêmico-científico-culturais. (BRASIL, 2002)
O § 4º do art. 87da LDB 9394/96, descreve a possibilidade dos profissionais serem formados em serviço com aproveitamento de experiências anteriores: “§ 4º Até o fim da Década da Educação somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço.”(BRASIL, 2014, p.44). A letra da lei é bastante genérica, possibilitando uma formação debilitada ou uma semiformação, na medida em que “treinamento em serviço” poderá conduzir a uma formação superficial e compartimentada, atendendo à lógica mercantilista (BANDEIRA; OLIVEIRA, 2012). Também estão ausentes dispositivos explícitos que tratem da identidade desses profissionais. Entendemos que é a partir dela [da identidade] que são definidas as demais atribuições desse profissional, o que em parte ocorre no art. 13 da LDB, que trata dessa matéria.
I. participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
II. elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
III. zelar pela aprendizagem dos alunos;
IV. estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento;
V. ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à a avaliação e ao desenvolvimento profissional. (BRASIL, 2014, p.15)
Logo em seguida à aprovação da LDB 9394/96 tornou-se evidente as várias lacunas apresentadas pelo documento, que já no ano seguinte começaram a ser preenchidas através de resoluções, decretos e demais mecanismos legais que se prestassem a essa necessidade. Um exemplo é a Resolução 3/97 que define quem são os profissionais que integram o Magistério:
Art. 2º Integram a carreira do Magistério dos Sistemas de Ensino Público os profissionais que exercem atividades de docência e os que oferecem suporte pedagógico direto a tais atividades, incluídas as de direção ou administração escolar, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional. (BRASIL, 1997).
Neste mesmo documento fica especificada a qualificação mínima para o exercício da docência e a delimitação de prazo para que os profissionais já em exercício se enquadrem nessas exigências.
Art. 4º. O exercício da docência na carreira de magistério exige, como qualificação mínima:
I. ensino médio completo, na modalidade normal, para a docência na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental;
II. ensino superior em curso de licenciatura, de graduação plena, com habilitações específicas em área própria, para a docência nas séries finais do ensino fundamental e no ensino médio;
III. formação superior em área correspondente e complementação nos termos da legislação vigente, para a docência em áreas específicas das séries finais do ensino fundamental e do ensino médio.
§ 1º. O exercício das demais atividades de magistério de que trata o artigo 2º desta Resolução exige como qualificação mínima a graduação em Pedagogia ou pós- graduação, nos termos do artigo 64 da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996.
§ 2º. A União, os Estados e os Municípios colaborarão para que, no prazo de cinco anos, seja universalizada a observância das exigências mínimas de formação para os docentes já em exercício na carreira do magistério (BRASIL, 1997)
Na esteira da aprovação da nova LDB discutiram-se propostas para formação de professores. Também em 1997 o Conselho Nacional de Educação aprovou o Parecer 04/97 apresentando uma “proposta de resolução referente ao programa especial de formação de Professores para o 1º e 2º graus de ensino - Esquema I”, visando atender a uma grande carência de professores para as séries iniciais naquele momento. Nos chama atenção o destaque abaixo, pois percorridos 17 anos da elaboração do documento, as afirmações permanecem atuais.
Há uma história já longa em torno da formação de professores em nosso país, que não pode ser ignorada, ao nos voltarmos para a busca de soluções dos problemas atuais, sob pena de repetirmos erros já cometidos e não aproveitarmos lições já aprendidas. Sob este aspecto é bom lembrar os problemas desencadeados com a instalação da licenciatura curta nos anos 70, que procurava também atender à falta de professores, mas produziu, e produz ainda, efeitos negativos sobre sua formação, tanto no que se refere à preparação nos domínios específicos das disciplinas científicas, quanto no pedagógico. [...] Enfatizamos a importância da definição de uma política nacional ampla para a formação profissional de docentes, que trate integradamente a formação inicial, as condições de trabalho, as questões salariais e de carreira e a formação continuada (BRASIL, 1997, p. 2-3).
Na LDB 9394/96, Título IX (Disposições Transitórias), ficou instituída pelo Art. 87 a Década da Educação, com início, conforme Parecer homologado 151/98, em 20 de dezembro de 1997 e término em 19 de dezembro de 2007. Os números da pesquisa, acima citados, demonstram que os objetivos propostos não foram atingidos. No parágrafo 4º do Art. 87, está disposto que ao final da Década da Educação somente seriam admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço nas funções docentes e a ausência de clareza nas questões referentes à “formação por treinamento em serviço” gerou muitas discussões, sendo necessária a elaboração de vários Pareceres e Resoluções para tratar da matéria, entre eles o Parecer CNE/CES nº 151/98, Parecer CNE/CEB nº 1/2003, CNE/CEB nº 3/2003, Resolução CNE/CEB n.º 1 e Parecer CNE/CP nº 8/2009.
Periodicamente os processos relacionados à educação são envolvidos por novas ideias que se relacionam ao ensino e a aprendizagem, mas tudo que ocorre nesse sentido é resultado de longos processos históricos que emergem
de discussões, retrocessos, estranhamentos, avanços, experimentos que por fim dão origem a algumas mudanças. Por isso neste trabalho buscamos contribuir para o diálogo relativo às situações de formação inicial - neste caso o Estágio Supervisionado - buscando reafirmar nossa opinião sobre sua importância como momento de aproximação da prática profissional, que se dá em um tempo e lugar situado historicamente.