CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.2. OS DIREITOS DA CRIANÇA
1.2.7 A legislação brasileira e os direitos das crianças e adolescentes
Segundo Rosemberg & Mariano (2010) a Convenção sobre os Direitos da Criança foi fonte de inspiração para a elaboração do artigo 227 da Constituição Federal Brasileira de 1988 e posteriormente do Estatuto da Criança e do Adolescente, lei promulgada em 1990.
No Brasil, a Constituição da República de 1988 representou um marco político de transição social, passando de um processo ditatorial que perdurou de 1964 a 1985 para a implantação de um sistema democrático. Esta lei no seu capítulo VII, denominado: Da família, da criança, do adolescente e do idoso, no seu artigo 227 determinou:
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar á criança e ao adolescente, com absoluta prioridade o direito á vida, á saúde, á alimentação, á educação, ao lazer, á profissionalização, á cultura, á dignidade, ao respeito, á liberdade e á convivência familiar e comunitária, além de colocá- los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão2
(BRASIL, 1988).
No dia 13 de Julho de 1990 foi promulgada a Lei 8.069 denominada Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que dispõe da proteção integral à criança e ao adolescente. De acordo com esta legislação em seu artigo 2º “considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade” (BRASIL, 1990).
40 Miceli (2010) chama atenção para a questão da definição etária proposta pelo ECA, salientando que há controvérsias no que tange aos limites, pois, ela foi convencionada juridicamente de maneira rígida visando facilitar a operacionalização dos instrumentos de ordem legal, porém, é importante se ater ao fato de que a transição de uma fase a outra da vida, não ocorre com tamanha rigidez, mas, sim de maneira peculiar e individual.
De acordo com artigo 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente:
A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade (BRASIL, 1990).
Em seu artigo 4º esta lei determina que:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (BRASIL, 1990).
O Estatuto da Criança e do Adolescente aborda a questão da participação em dois artigos, no 15º, explicita que: “a criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis” (BRASIL, 1990).
E, em seu artigo 16 preconiza o direito à liberdade e compreende os seguintes aspectos:
I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; II – opinião e expressão,III - crença e culto religioso; IV - brincar, praticar esportes e divertir-se; V - participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação; VI - participar da vida política, na forma da lei; VII - buscar refúgio, auxílio e orientação (BRASIL, 1990).
Souza (2008) coloca que embora o Brasil possua uma das mais “avançadas” legislações no que diz respeito aos direitos das crianças e adolescentes quando comparado aos demais países, pois foi o primeiro a adequar a sua legislação às normas propostas pela Convenção sobre os Direitos da Criança, a sua aplicabilidade ainda deixa a desejar, ainda há muito a ser feito para que as crianças e adolescentes possam realmente gozar os seus direitos.
41 Nota-se que a elaboração do ECA foi baseada na CDC, sendo assim, para além dos direitos referente à proteção das crianças e adolescentes, foram contemplados os direitos a provisão e participação.
De acordo com Verhellen (2000, citado por Souza 2008, p.14)
Estão contemplados no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) os três princípios centrais estabelecidos pela Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC): provisão – direito ao cuidado, à alimentação, e a educação por exemplo; proteção - contra negligências, abusos, maus-tratos e exploração e participação - direitos de crianças e adolescentes fazerem parte das decisões que afetarão as suas vidas.
Rosemberg & Mariano (2010) ressaltam que a Convenção sobre os Direitos da Criança foi ratificada pelo Brasil no ano de 1990, porém somente em 2003 foi apresentado na ONU o primeiro relatório ao Comitê de Direitos da Criança, ou seja, este documento foi apresentado com onze anos de atraso em relação ao cronograma de monitoramento estabelecido pela Convenção. A Associação Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (ANCED) e o Fórum Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente, na ocasião apresentaram um relatório de caráter alternativo da sociedade civil, referente aos direitos das crianças no Brasil; o Comitê de Direitos da Criança fez 76 recomendações, dentre elas que o Brasil entregasse o próximo relatório até o mês de Outubro do ano de 2007, porém não há informações oficiais sobre a entrega do mesmo; as autoras salientaram que no mês de Março de 2009, em caráter preliminar a Anced elaborou o 2º relatório alternativo dos Direitos das Crianças.
Segundo o relatório sobre a situação dos direitos da criança e do adolescente no Brasil, elaborado pela Anced (2004, p.11) “Apesar dos avanços legais, estes não têm sido suficientes para garantir os direitos dessa população infanto-adolescente e juvenil. Tentativas de mudar este quadro se mostram tímidas, muitas vezes mais beneficiando a classe média do que os mais pobres”.
No que tange à legislação voltada à criança e o adolescente a partir de uma perspectiva de proteção integral, Miceli (2010, p.279) adverte que trata-se de uma elaboração jurídica com várias limitações, sendo que é marcada por uma perspectiva histórica na qual a criança e o adolescente estavam sob o domínio dos adultos, principalmente as pertencentes a classes menos favorecidas economicamente, não
42 possibilitou que crianças e adolescentes participassem da sua elaboração, o que acaba tirando-lhe a legitimidade, pois, não é um direito da criança e do adolescente, mas, sim para eles pautada numa visão adultocêntrica. Por outro lado, embora tenha trazido regras que visam o bem-estar dos jovens, não prevê mecanismos que sejam eficazes para a sua operacionalização, pois, a sua teoria é de inspiração “eurocêntrica”, sendo assim, é descontextualizada da realidade que se almeja aplicá-la.
De acordo com Sarmento & Pinto (1997, p.18) “a inobservância dos aspectos fundamentais dos direitos das crianças repousa no cruzamento de variáveis económicas, sociais e culturais. O nível de desenvolvimento económico de um país, está, em geral, positivamente correlacionado com a satisfação dos direitos básicos”.
Se há dificuldade para assegurar os direitos previstos nas legislações internacionais e nacional referente a proteção e provisão, quem dirá os de participação.
De acordo com o CONANDA (2010) a participação política das crianças e adolescentes no Brasil é recente, sendo que durante o período da ditadura militar as suas vozes foram silenciadas, porém com a redemocratização emergiram novas perspetivas e o país tem vivenciado momentos significativos desde o final dos anos 80 do século passado. Na contemporaneidade, alguns desafios tem se colocado e acarretado uma “apatia cívica” tais como o apelo pelo consumo feito pela mídia e o isolamento social nas cidades diminui a convivência comunitária tanto inter quanto intra geracional.
A este respeito, Goulart (2013) refere que embora o Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes de 2011-2020, contenha inúmeras metas visando facilitar a livre expressão, elas estão direcionadas especificamente aos adolescentes brasileiros.
Para, além disto, segundo o CONANDA (2010) é preciso superar a visão adultocêntrica referente à participação das crianças e adolescentes, visto que comumente as escolas, projetos e entidades de prestação de serviços voltadas a este público não proporcionam experiências de autonomia e relacionam-se com as crianças como se elas fossem meros “usuários”; em outras situações elas são convocadas a legitimar formalmente o “protagonismo” em espaços lúdicos ou de segregação que demarcam uma distinção entre o universo infantil e o adulto.
43 Em 2016, o ECA completou 26 anos, infelizmente mesmo passado tanto tempo esta lei não alcançou plenamente os objetivos traçados inicialmente, pois inúmeras crianças e adolescentes ainda se encontram em situações de desrespeito total aos seus direitos, situação que pode ser observada a partir dos dados contidos no II Relatório Alternativo sobre a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (CDC), no período compreendido entre 2004 a 2012. Este relatório foi apresentado ao Comitê de Direitos da Organização das Nações Unidas (ONU), para análise na 70ª pré-sessão realizada no dia 3 de Fevereiro do ano de 2015 que acontece na cidade de Genebra na Suíça.
De acordo com este relatório, no período analisado houve a nível nacional um avanço significativo na criação de conselhos de direitos das crianças e adolescentes, porém o funcionamento dos mesmos é precário, isso dificulta e por vezes impossibilita a formulação, bem como a implantação e o monitoramento dos direitos previstos. No que tange ao artigo 12 da CDC referente ao direito à participação:
Prevalece uma cultura adultocêntrica, arraigada a ideias de dependência e ignorância como caracterizadoras da infância e da adolescência. A legislação no mais das vezes, senão atrasada, é, pelo menos, tímida, em relação à participação de crianças e adolescentes. Também, há poucos dados objetivos sobre este contexto ou sobre o desenvolvimento de metodologias adequadas e/ou efetivamente inclusivas (Anced, 2014, p.14).
Tanto a Anced quanto os seus parceiros estão trabalhando na criação de mecanismos que visem a implementação efetiva deste direito.
Na América Latina três tipos de participação marcaram a história, foram elas:
Simbólica – trata-se de um evento organizado pelos adultos, no qual eles escolhem um grupo de crianças e adolescentes que representarão os demais; Decorativa – um grupo de crianças e adolescentes se reúnem para realizar uma
apresentação artística (dança, música, etc) para os adultos, porém estão isentos das definições das prioridades, bem como das tomadas de decisões e
Manipulada – consiste num grupo de crianças e adolescentes memorizam e propagam um discurso elaborado pelos adultos, a partir de uma linguagem que não lhes é familiar.
Trata-se de formas de participação não autênticas, ilegítimas e não democráticas, pois consistem em formas passivas de participação que
44 tendência a privilegiar uns adolescentes em detrimento de outros a partir das suas habilidades, sendo que os líderes e os mais talentosos se destacariam. No entanto uma proposta de participação autêntica implicaria em propiciar aos adolescentes a oportunidade de falarem e serem ouvidos, bem como compreendidos (UNICEF, 2001).
Nota-se que há ainda um longo caminho a ser percorrido em prol da conquista efetiva do direito à participação das crianças e adolescentes brasileiros, iniciativas como esta apresentada neste trabalho tem como pretensão contribuir para modificar com esta triste realidade.
1.3. POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES BRASILEIROS – DE