CAPÍTULO 5: PROJETO O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA PARA OS DIREITOS
5.1 Os adolescentes e a importância de sonhar
Devido à demanda trazida pelos adolescentes, trabalhamos a temática sonhos, embora não estivesse diretamente relacionada a questão da participação, no momento configurava-se como algo importante para eles. Esta atividade permitiu uma maior aproximação, o fortalecimento de vínculos e a livre expressão das questões que os afetava.
Para O`Kane (2005, p.160)
(...) os investigadores necessitam encontrar formas de lidar com a criança ou com o jovem, de maneira a construir uma relação onde o respeito, a abertura e a intenção genuína de escutar sejam evidentes. Para fazer isto, podemos utilizar uma série de estratégias para quebrar o desequilíbrio de poder entre as crianças participantes e o investigador adulto.
No mesmo sentido, segundo Carvalho & Muller (2010, p.73) referem que uma investigação realizada com crianças “(...) exige um planejamento cuidadoso do tempo porque algumas delas precisam de um período maior para estabelecer laços de confiança e empatia com o pesquisador, e para se sentirem à vontade para responder as demandas da pesquisa”.
Num primeiro momento, assistimos um vídeo com a poesia “O Sonho” de Clarice Lispector com o auxílio do notebook (Diário de Campo nº 8).
Durante a exibição do vídeo, todos assistiram atentamente, tendo admitido que não conheciam o poema. Quisemos saber o que tinham achado e as reações foram as seguintes: Fran: Eu achei lindo! (Diário de Campo nº 8)
Ludimila: Me emocionei
Na sequência, questionamos o grupo referente ao que era sonhos. Os adolescentes começaram a se entre olhar, e passado algum tempo emitiram a opinião a respeito: Beatriz: Eu sei mas, não vou falar!
Fran: Sonho é algo que a gente quer. Beatriz: É algo que a gente luta pra ter. Júlia: É aquilo que a gente quer conquistar.
116 Durante esta conversa, os demais adolescentes se mantiveram em absoluto silêncio, então sugerimos:
- O que vocês acham de escrevermos os nossos sonhos? (Diário de Campo nº 8)
Inicialmente, os adolescentes ficaram receosos, percebemos que eles estranharam o convite, pois, não é habitual os adultos conversarem com eles de maneira aberta sobre os seus desejos e anseios. Então pontuámos que não era necessário se identificar e frente a nossa fala eles se posicionaram:
Maria Eduarda: Ah se for assim eu quero! (Diário de Campo nº 8) Beatriz estava entretida com os seus cadernos e falou:
-Ah eu não vou participar.
Neste momento dissemos a ela que poderia ficar à vontade para participar ou não da atividade, mas, reforçamos o convite e dissemos que talvez ela se sentiria a vontade em escrever sobre os seus sonhos. Sendo assim a adolescente indagou:
Beatriz: Posso escrever por outra pessoa?
Respondemos prontamente que sim. Diante desta fala de Beatriz, os demais integrantes do grupo também se empolgaram, então distribuímos folhas de papel branco e caneta e os deixámos à vontade.
Auxiliamos MC Guimê e MC Menor na realização desta atividade, pois eles apresentam dificuldade na linguagem escrita. Durante a atividade Beatriz questionou: - Você vai ler em voz alta? (Diário de Campo nº 8)
Logo, respondemos fazendo uma outra pergunta:
- Pessoal, vocês gostariam de partilhar os seus sonhos com o grupo?
Ludimila: Eu não! (Diário de Campo nº 8)
Maria Eduarda: Só vou escrever se não tiver que ler depois.
Então esclarecemos para o grupo que, por se tratar de uma decisão coletiva, somente a investigadora teria acesso ao conteúdo escrito e na sequência iniciamos a atividade. Ao término recolhemos os papéis e guardamos, como o combinado era que eles não se identificariam, nos papeis não continham o nome.
117 Após a finalização, lemos atentamente os sonhos mencionados pelos adolescentes, observamos que se trata de desejos muito comuns a idade, visto que, escreveram que sonham em ter “um carro”, “uma bicicleta”, “ganhar uma casa”, “andar de avião”, “ser um jogador de futebol”, “notebook”, “celular”, entre outros. (Diário de Campo nº 8)
De acordo com Gulassa (2010) todas as crianças e adolescentes projetam o seu futuro, eles alemjam crescer e se tornar um adulto, por vezes sonham de maneira audaciosa, querem ser vencedores, conquistar coisas. Eles “(...) compensam nos seus sonhos o sentimento escondido dentro deles: o de ser pequeno e de ter dificuldade no dia a dia, o sonho alivia, consola, empodera” (p.59).
Cabe ao adulto, escutar com atenção e apoiar os sonhos dos adolescentes, seja ele algo simples como adquirir um tênis, ou algo ambicioso como se tornar um famoso jogador de futebol, pois, os sonhos conferem a eles um sentido para a vida, bem como uma esperança de futuro (ibidem).
Para além de objetos materiais, muitos adolescentes escreveram sobre os seus sonhos relacionados a família, tal como podemos observar a seguir:
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Figura 17 - Os sonhos do adolescente 2
Esta primeira atividade sobre os sonhos possibilitou compreendermos quais são os anseios dos adolescentes e principalmente quais eram as questões que estavam em evidência naquele momento da vida deles, desta maneira, frente aos apontamentos iniciais feito pelos adolescentes sobre os seus sonhos, outra atividade foi proposta, como uma continuação da primeira, pois, talvez aquele fosse o primeiro e o único espaço que eles tivessem para pensar sobre os seus sonhos.
A proposta da segunda atividade (Diário de Campo nº 9), consistia na seleção e recorte de figuras que representassem os sonhos dos adolescentes, posteriormente eles colariam numa folha de papel, com esta finalidade foram disponibilizadas revistas dos mais variados gêneros. A maioria dos adolescentes selecionou figuras relacionadas a equipamentos eletrônicos, carros, coisas que podem ser adquiridas por meio do dinheiro, novamente, vários adolescentes selecionaram figuras que representam a família e o lar, como podemos ver a seguir:
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Figura 18 – Os Sonhos da adolescente Fran expresso por meio de figuras
Figura 19 - Os sonhos da adolescente Júlia expresso por meio de figuras
Durante a roda de conversa, alguns adolescentes sentiram à vontade para mostrar aos demais membros do grupo as figuras selecionadas, porém, os que haviam retratado de alguma maneira a família, não quiseram se posicionar, exceto Beatriz que abordou o assunto e Fran que não quis falar sobre, mas, pediu que apresentássemos as suas figuras. Referente a Beatriz, ela mostrou ao grupo três figuras, a primeira continha três modelos que foram coroadas no Concurso Miss Universo, e segundo ela:
Beatriz: Eu escolhi essa imagem porque já fiz balé e fui baliza na fanfarra. (Diário de Campo
nº 9)
A segunda figura era de dois médicos durante uma operação ela explicou:
120 Então perguntámos:
- Em qual cidade você gostaria de arrumar um emprego? E segundo a adolescente:
Beatriz: Eu não posso falar. (Diário de Campo nº 9)
Na sequência apresentou a sua última figura, era uma ampla e bela casa, e segundo ela:
Beatriz: Vou trabalhar muito pra ter uma casa igual a essa. (Diário de Campo nº 9) Fran selecionou oito figuras, foram elas:
1. Um jovem e belo rapaz; 2. Um bebê;
3. Um notebook;
4. Um moderno celular; 5. Uma casa;
6. Outro belo rapaz;
7. Uma família composta por um casal e dois filhos pequenos, um menino e uma menina e
8. Uma mulher
O tema família foi um assunto latente, apareceu direta e indiretamente na maioria dos encontros, mas, como os adolescentes deixaram bem claro desde o primeiro contato que não falariam sobre o motivo que os levou para a instituição de acolhimento, nem tão pouco sobre a vida pessoal fora de lá, respeitamos esta condição imposta por eles.
Referente a esta questão, Graue & Walsh (2003, p.81) destacam que numa investigação “(...) temos de respeitar a privacidade dos outros. Devemos tratar com cuidado questões como o anonimato e a confidencialidade. Se existem áreas em que não devemos entrar, então não o façamos”.
No entanto, não podemos deixar de assinalar que o sonho em ter uma família, em viver com a família, tal como a grande maioria dos adolescentes vivem, tem para este grupo uma importância enorme. Pelo facto de viverem numa instituição, sem compreenderem porquê, com uma quebra dos seus vínculos afetivos, sentem-se diferentes dos demais adolescentes e isso acentua a sua situação de vulnerabilidade social.
121 No que tange a questão familiar, segundo Bernardi (2010c), quando uma criança ou adolescente chega a uma instituição de acolhimento, por se tratar de um ambiente estranho, num primeiro momento ela pode se assustar, apesar de não demonstrar e se sentir aprisionada, mas, com o tempo, ela começa a se divertir com os passeios e passa a valorizar as coisas materias que tem acesso, assim como a atenção dos profissionais. Porém, mesmo que esteja adaptada, se for questionada se gostaria de voltar a morar com a família, a resposta será sim, apesar de viver em condições menos favoráveis quando comparada com a instituição e convivendo com uma mãe com uma “capacidade de maternagem frágil” (p.40).