1.4 A LEGITIMIDADE DA AFABGF E OUTRAS REPRESENTAÇÕES
Voltando ao episódio em São Paulo trazido ao estudo na seção anterior, a tensão vivenciada pelos “mauaenses” acerca de suas referências identitárias também contribuiu para pensar os caminhos da pesquisa. Esses se disseram em dado momento não se sentir representados pela AFABGF por reconhecerem, em primeiro plano, sua linhagem paterna.
Na reflexão sobre a seleção e escuta dos incomensuráveis colaboradores, procurei dirigir atenção aos membros do grupo que mais se destacavam nas tarefas de mobilização e execução dos Encontros anuais da rede familiar Bernardo-Glória-Faustino, desenvolvidos desde 2007, com vistas a acompanhar os esforços, de toda ordem, empreendidos para dar legitimidade ao empreendimento.
Tinha em mente entender o que e como se constroem as lideranças do movimento, considerando, por exemplo, que a genealogia dos três troncos demonstra que há indivíduos com elevada consanguinidade, mas que nunca participaram de situações relacionadas aos objetivos do grupo, enquanto outros, que “nem pertencem à família”, empreendem o projeto da AFABGF com extrema dedicação. Em outros termos, coube indagar as seguintes questões que são elucidadas ao longo dos próximos capítulos: quais foram os elementos motivadores iniciais que acenderam no grupo o desejo de olhar para o passado? Como foi montado e o que sustenta o discurso étnico-identitário e da culturalização diferencial que associa o grupo a sua ascendência africana e não a outra? Quais e como são feitos os acordos entre cônjuges, quando um não partilha a descendência de nenhuma das ramificações do grupo familiar, inclusive nos casamentos multirraciais? Quais as motivações que levam as pessoas a se ocuparem com atividades que, em geral, criam-lhes novas agendas permanentes, muitas vezes comprimindo outras, específicas dos arranjos sociais e familiares do lar? Que papéis são destinados, pelos seus idealizadores e executores das ações, aos jovens e aos mais velhos? Em que medida a institucionalização do grupo familiar e as relações institucionais mantidas com o poder público interferem nas práticas de transmissão de valores tradicionais e outros valores?
Paralelamente, passei a mapear as localidades onde residem os integrantes do grupo.
Inicialmente, durante os dois primeiros anos, dos quatro efetivamente dedicados à pesquisa, me voltei para o reconhecimento dos distritos e bairros da cidade de Rio Claro. Mais tarde, fiz o mesmo nas demais cidades onde vivem descendentes da rede familiar em estudo.
Ir até o lugar da morada, tomar do café feito na casa, participar da organização de aniversários, casamentos, ou partilhar os ritos fúnebres, mesmo sem me dar conta inicialmente, iam fazendo de mim um personagem diferenciado no âmbito de toda a rede. Ao mesmo tempo em que eu era recebido como membro da família que esteve distante por muitos anos, e agora voltava “à casa”, era também objeto de especulação acerca da organização das “festas da família” – como ainda diz boa parte das pessoas, porque, para essas, diferentemente do jargão politicamente correto utilizado pelos criadores da AFABGF, os Encontros são festas.
As sucessivas idas e vindas a Rio Claro, bem como as visitas a parentes nas outras cidades, me permitiram a constante experimentação de novas formas de cumprir um mesmo ritual, em destaque as “rodas de memória”. Estas eram evidentemente formadas com o propósito de “lembrar”. Boa parte, portanto, do trabalho, consumi visitando e estimulando as
“rodas de conversa” nas quais procurava me ater, principalmente, aos falantes que, volta e meia, referiam-se às trajetórias dos integrantes das suas unidades familiares.
O outro foco perseguido consistia em ouvir das pessoas as interpretações acerca das finalidades da AFABGF.
Nos lares (também nos espaços de realização dos encontros anuais e algumas vezes nas Igrejas, católicas e protestantes) as conversas com o “primo que estuda a família” tinham em comum o fato de começar com um convite para tomar assento e se tornarem descontraídas e animadas, nos quintais ou nas cozinhas, depois de se consolidar o sentimento de pertença, próprio de “iguais”. Para o trabalho etnográfico, as trajetórias que se avolumam no pensamento são aquelas que se estendem até onde firmam lembranças dos acontecimentos vividos. Mas, tais trajetórias e acontecimentos não se comunicam, necessariamente. É preciso que os colaboradores do etnógrafo, por esse estimulados, restituam-lhes as cenas originais, encadeando-as ao seu modo.
Retornando a todos aqueles lugares por onde andei na infância, torrentes de lembranças inflavam minhas reflexões sobre os procedimentos técnicos no campo da pesquisa.
Questionava-me, sempre, quanto a manter ou não fora do alcance das cismas de pesquisador as memórias de determinados eventos, coroados de significados simbólicos, mas de caráter imensamente pessoal, alguns até então legados ao esquecimento.
Outra reflexão costumeira era sobre a passagem do tempo, a me insinuar que a pesquisa que mergulha no passado contando com o oxigênio das lembranças está comprometida com a durabilidade da vida justamente onde ela é mais frágil. Os principais porta-vozes dessas lembranças podem, repentinamente, se transformar, eles mesmos, em lembranças.
Um desses antepassados, Bernardo Manoel da Silva, foi quem me revelou os nomes dos seus avós, Bernardo da Silva e Serafina Maria da Conceição, ambos possivelmente escravos porque nascidos antes da Lei nº 2040 de 28.09.1871 – “Lei do Ventre Livre”, ou “Lei Rio Branco” –, provavelmente migrantes do litoral paulista para terras do interior do Rio de Janeiro, estabelecidos nas cercanias da cidade de Rio Claro, distante cerca de 120 km da capital. A última vez em que conversamos, antes ainda do início do trabalho de pesquisa, foi em abril de 2006. Seu maior encanto eram as lembranças retidas da infância na “Usina”, nome que singulariza um “lugar de memória” constantemente presente nas narrativas com que integrantes da rede familiar Bernardo-Glória-Faustino sublinham o passado comum.
Poucos meses depois, precisamente em vinte e quatro de agosto, eu me despediria dele no cemitério Parque da Saudade, bairro de São Francisco, na cidade de Barra Mansa. O irmão João Manoel (BERNARDO, terceira geração) assim retratou o sepultamento: “[...] são vários acontecimentos, eu não guardo nada, parece que foi tirado da memória, abriu um espaço na nuvem como se ele tivesse sendo aprovado por Deus. E dizem que veio uma pomba branca e pousou em cima do túmulo. Tudo só mostra que ele levava uma vida correta. Era ali a sua confirmação espiritual”.
Também a filha Vera Lúcia (BERNARDO, quarta geração) se refere àquela tarde do sepultamento como um momento especialmente arquitetado por forças divinas:
Eu até hoje me arrepio quando lembro a imagem perfeita, na nuvem, da Virgem Maria abrindo os braços [...] Era como se tivesse dizendo: vem meu filho. O funeral dele foi como o de um político importante, ou de um artista famoso. Mas é que todo mundo gostava muito dele. Ele foi um homem muito bom, que ajudava todo mundo. E ele tinha um jeito de ser que todo mundo admirava ele. Um homem que voltou a estudar depois de adulto, que foi só até a 4ª série, mas que só teve um emprego na vida toda: foi na Rede [Rede Ferroviária Federal]. Mamãe conta que vovô [refere-se ao sogro do pai] era racista e depois virou subordinado a ele, ao mestre de linha. Mestre de linha era um cargo alto, que ele tinha carro à disposição, e tudo o que acontecia era ele que resolvia. Quando vinham os chefões da Rede Ferroviária era ele que eles iam buscar. Ele fez cursos, vários cursos, inclusive em outros estados, muitos em Minas. Tinha muito prestígio porque ele ajudava as pessoas em tudo, e só tinha até a quarta série. Eu posso dizer que eu tive um paizão (Diário de campo, abr. de 2010).
Estimo que esta narrativa provavelmente será reproduzida para além dos descendentes diretos de Bernardo Manoel da Silva, em razão do projeto atualmente desencadeado pela AFABGF. Sua construção faz refletir sobre outras narrativas nas quais pessoas geralmente ascendentes à condição de individualização social expoente referem-se aos parentes mais distantes com “profundidade temporal do reconhecimento personalizado da descendência”
(DUARTE & GOMES, 2008, p. 162). Nessas não são incomuns as frequentes lembranças de nomes de lugares, profissões, ambientes artísticos e culturais, conquistas, viagens e outros atributos e características marcantes de gerações anteriores – às vezes centenárias – ao guardião dessas memórias.
Afro-brasileiros não ouvem as histórias sobre os feitos dos antigos, e não aprendem a sobrelevar seu passado familiar? A tomar as narrativas extraídas dos Bernardo-Glória-Faustino, a resposta é sim. Mas os encaixes da descendência são frágeis ou obscuros, e, além disso, os que narram o passado não o fazem se não se sentem acolhidos por aqueles que encontram paralelos com as mesmas reminiscências. Foi nessas condições que retornei várias vezes aos lares, especialmente àqueles de Rio Claro, onde “começou” o passado cuja AFABGF deseja ancorar à África.
Nesses quadrantes, ainda outro aspecto relevante veio a orientar o levantamento de dados junto aos colaboradores. Procurei identificar que referências de África possuem, ou possuíam, os “antigos”, e que referências possuem, hoje, os idealizadores da institucionalização da rede familiar, ao postularem “dar sequência na elaboração da genealogia e história da família Bernardo-Glória-Faustino, com os objetivos de conhecer as suas origens no Brasil e no continente Africano” (AFABGF, Estatuto, 2009).
Para efeito metodológico, foram arbitrados três tipos estruturantes de redes familiares afro-brasileiras. Primeiramente estão as redes familiares constituídas onde foram a elas doadas terras dos senhores dos seus antepassados, portanto na mesma propriedade, passando a viver de uma economia agropecuária de subsistência; em segundo estão as redes familiares oriundas de arranchamentos ou aquilombamentos precedentes ao “treze de maio”, possivelmente voltadas também para uma relação visceral, embora não tão somente, com a terra ocupada; em terceiro estão as redes familiares estruturadas a partir do lugar de convergência migratória dos indivíduos ou grupos que, no período imediatamente posterior à entrada em vigência da Lei Áurea, permaneceram nas grandes propriedades, porém na condição de colonos, até a consolidação das leis trabalhistas impor novas relações de trabalho no campo. Esse último tipo é destacadamente aquele para o qual voltei a pesquisa, por caracterizar mais proximamente a história social dos Bernardo-Glória-Faustino.
1.5 A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES E O LUGAR DO PESQUISADOR
Muito se tem refletido acerca da posição conscientemente escolhida pelo antropólogo durante o trabalho de campo e na sua continuidade, na elaboração textual, em revelar ou não a