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Autoridade e Legitimação

CAPÍTULO 3 - “TODA ESSA FESTA JÁ NÃO PERTENCE A NÓS": OS

3.3 MOMENTO SOLENE

3.3.1 Autoridade e Legitimação

Figura 52 - VIII Encontro da família BGF - Palestra com o médico cubano Dr. Carlos Barrios, Seropédica, RJ

Fonte: Coleção do autor, 2014.

Alguns se dirigem para salas de aula onde foram acomodadas as coleções, em exposição, e as oficinas, outros saem da escola e caminham em direção aos lugares onde a confraternização já pode se completar com brindes.

3.3.1 Autoridade e Legitimação

Uma reflexão é então suscitada, não há nada escrito, pelo menos por enquanto, semelhante a um regulamento interno descrevendo as atribuições, os procedimentos e outros elementos de operacionalidade característicos da formalização das ações necessárias à execução dos Encontros. Toda mobilização para a sua consecução vai sendo desenhada nas reuniões que os intercalam. Integram a Comissão Executiva do Encontro, em maior número, os parentes residentes na cidade que eventualmente os sediam (até o oitavo Encontro, as cidades de Rio Claro e Seropédica).

Nota-se uma forte predisposição das pessoas em equalizar os arranjos locais, de modo a garantir uma avaliação positiva de seus esforços para corresponder às expectativas do conjunto da parentela. O grupo, no interior da rede familiar, que assume as responsabilidades

85 Até o oitavo Encontro, as palestras versaram sobre prevenção de doenças hereditárias, identidade étnico racial e juventude e sexualidade.

inerentes à execução do Encontro age sob frequente tensão como se estivesse desafiada a sua reputação. Nas conversas entre esses parentes é comum ouvir-se indagar, impositivamente, sobre “quem vai trabalhar para a festa”. Qualificar o que se faz como “trabalho” implica em geração de expectativas e cobranças de produtividade.

Os que avultam em atitudes compreendidas no âmbito da moralidade cultivada pelo grupo como inconvenientes e ameaçadoras, são desabilitados para contribuir com as diferentes fases de construção dos encontros. Nessa perspectiva, os encontros parecem elevados ao status de epicentro, também, das medições do maior ou menor enquadramento – ou não – dos propósitos individuais na malha do que é normalizado, referenciado e transmitido como valor pelo coletivo. Talvez seja por esta razão que pelo menos um, ao que se saiba, dos membros da família, um jovem, morador do “Morro”86, identificado como “bicha” e “maconheiro”, fulano de “vida boa”87, é silenciosamente alijado de participar seja das reuniões, seja dos encontros.

Outra situação soma para exemplificar como essas tensões são tratadas no cerne da família, em um espaço simbólico de disputas de subjetividades, onde latejam elementos de refundação de uma ética trazida de um tempo, no passado distante, representado nos ideários da AFABGF como instrumental para uma desejada unidade da rede familiar. São dois casos em que são levantadas suspeitas, primeiro, de adultério de uma mulher que teria transgredido o

“código de honra de mulheres”, relativamente comum na “cultura popular”; segundo, de um homem também identificado como adúltero, mas que teria exercido a sua virilidade, confirmando o “código de honra dos homens”. 91

São situações que se assemelham à pesquisa de Fonseca (2003) realizada na Vila do Cachorro Sentado, “um reduto social e economicamente discriminado pelos grupos dominantes”88, e na Vila São João, de condições socioeconômicas e culturais similares, ambas na cidade de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul. A autora discute, entre outros aspectos que correlacionam as realidades das camadas populares, a construção da honra. A honra familiar entre as mulheres e os homens casados se consubstancia em diferentes símbolos. “O homem de família dispõe de uma maior variedade de símbolos com que expressar seu prestígio pessoal”, um deles o controle da sexualidade da mulher.89 Já em relação às mulheres casadas,

86 O Morro do Estado, na parte Oeste do bairro Vila Velha, em Rio Claro, e em geral como se referem os parentes à localidade onde se encontra historicamente assentado o maior núcleo de parentes, mesmo se comparado esse núcleo com os dois outros igualmente populosos, nas cidades de Seropédica e Mauá, em São Paulo.

87 Cf. Fonseca (2003, p.7) 91 Ibidem, p.10

88 Ibidem, p.12.

89 Ibidem, p.14.

a honra “gira quase exclusivamente em torno de suas tarefas domésticas na divisão do trabalho:

ela deve ser uma mãe devotada e uma dona de casa eficiente”. 90

Certa manhã, passa a circular no Morro, a partir dos comentários de um primo, o suposto adultério feminino. Ter repelido com veemência a notícia, inclusive afastando-se da convivência com boa parte dos parentes e recolhendo-se ao espaço doméstico não foi bastante para aplanar a situação. Tendo em vista que nessa tipificação de papéis culturalmente instituídos cabe ao homem, em primeiro plano, além do sustento material e proteção da família, o controle da sexualidade da mulher91, a boataria atingiu o marido, afetando gravemente o relacionamento do casal.

Mas, se entre paredes corria solta a fofoca, em público adotou-se, como de praxe, inclusive por parte da direção da AFABGF, a condenação pelo silenciamento. Diferentemente, no caso do homem sob a mesma acusação, pesou, para o sucesso na reconciliação do casal, a intervenção direta e indireta, de parentes homens e mulheres, e inclusive de líderes da Associação, especialmente no julgamento de valor da mulher que sofrera a agressão, possivelmente por ter faltado com as suas “obrigações” de leito92.

Por outro lado, aqueles que, ao contrário de portar ameaças à moralidade cultivada coletivamente, demonstram capacidade para produzir as ações geradoras dos resultados que agradarão aos parentes que virão, são elevados à condição de líderes. Percebe-se que suas opiniões passam a ser respeitadas no ambiente em que se planeja e executa os encontros, como em outros momentos, cujas situações exigem uma tomada de decisões acerca dos assuntos que dizem respeito ao controle dos comportamentos individuais ou aos interesses coletivos, no interior da rede como um todo. Quando um parente desenvolve práticas do que se entende como desvio de comportamento – exacerbar no uso de bebida alcoólica, por exemplo, ou outras drogas para as quais em princípio não há tolerância – outros parentes se dirigem também aos

“novos líderes”, para os devidos aconselhamentos.

Assim, a criação da Associação dos familiares tem aberto um novo caminho para a projeção de líderes que, com o tempo, passam a exercer certo domínio entre os parentes, no campo das ideias e das ações. É presumível que o exercício da liderança junto ao conjunto da parentela já não esteja fixado tão somente entre os mais antigos, que detêm autoridade, em

90 Ibidem, p.17.

91 FONSECA, Op. Cit. p.8

92 Ibidem, p.10

função da “tradição e carisma”93. É sensível um progressivo compartilhar com as gerações mais recentes.

A institucionalização da AFABGF parece conduzir ao surgimento de líderes que, além de contar com o poder da autoridade que emana dos tipos reconhecidos no quadro relacional da rede familiar, estão afeitos ao exercício de uma liderança que passa a ter igualmente legitimação numa razoável burocratização, tanto decorrente como causa da sofisticação organizativa, incontestável nos Encontros94. Uma demonstração dessa sofisticação pode ser notada na configuração da solenidade de abertura, na qual sobressaem formalidades, desde a audição do hino nacional à hierarquização das intervenções95.