PARTE 1: A presunção de veracidade de depoimentos dos agentes de segurança pública.
4.2 A legitimidade e a credibilidade do testemunho policial
Para além da impossibilidade de aplicação da presunção da veracidade advinda do direito administrativo ao processo penal, em razão do princípio da presunção da não
culpabilidade, é preciso salientar outros fundamentos que, de igual sorte, não permitem a
valoração probatória conferida atualmente à palavra dos agentes de segurança pública.
Inicialmente, cumpre destacar que, na seara criminal, é possível verificar ser comum nos processos penais iniciados por autuação em flagrante o cenário em que as principais, senão as únicas, testemunhas do crime são os próprios policiais que prenderam o acusado. No cotidiano penal, há, então, uma situação curiosa: na audiência instrutória, os agentes que realizaram a abordagem e a condução do suspeito à delegacia afirmam categoricamente ter sido ele o autor do delito, enquanto o acusado, indignado, insiste em alegar a sua inocência.
Conforme visto anteriormente, a jurisprudência pátria é quase uníssona em atribuir alto valor probatório aos relatos dos policiais, sendo afastada qualquer possibilidade de suspeição ou impedimento desses agentes apenas pela função que exercem. É atribuída, então,
256
CASARA, Rubens R R. Op. cit., p. 218. 257
Ibidem.
258
ANDRADE, André Lozano. A inidoneidade do testemunho policial. Disponível em: http://www.justificando.com/2016/01/26/a-inidoneidade-do-testemunho-policial/. Acesso em: 04 out. 2019.
ampla credibilidade acrítica – a utilização desse termo justifica-se a partir da observação dos julgados transcritos no tópico 3.2 – aos policiais, que passam a, processualmente falando, serem dignos de maior confiabilidade, em detrimento da palavra do acusado.
Todavia, consoante exaustivamente exposto no capítulo 2, os agentes da segurança pública estão embebidos por uma política criminal que, por si só, já os coloca em uma sensível situação de descrença social. Como observado, inúmeros são os casos de violência e letalidade consentida policial, atuação junto ao narcotráfico, flagrante forjado, implantação criminosa, entre outros. Nesse sentido, como, então, o Judiciário, responsável pela resolução de conflitos, pode ignorar o mundo fático? Oportuno salientar que não é permitido ao intérprete do direito se distanciar dos fatos ao valorar qualquer prova em juízo, bem como asseverar que o mundo não está nos autos.
Isto é, o juiz não pode julgar baseando-se em um plano hipotético e ideal que em nada se assemelha à realidade do fato. Assim, a credibilidade conferida às declarações dos policiais não encontra harmonia com o próprio sentido democrático que o processo penal se propõe a ter. Nesse sentido, o capítulo 3 demonstrou a controversa realidade fática que permeia a formação, a estrutura e a atuação real da polícia nas ruas. Desse modo, é pensando nessa realidade que o Judiciário deve se pautar, ainda que ela seja desagradável e difícil de lidar. O judiciário precisa considerar, pois, as falhas e as problemáticas da instituição policial, a fim de se aproximar de fato do caso concreto e não ficar alheio e distante ao mundo que o cerca. Dessa maneira, acreditar invariavelmente em policiais não parece coerente com a realidade.
Nessa linha de intelecção, um exemplo prático e interessante vem de uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro259, em que o Ministério Público interpôs um Recurso em
259
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO – PROCESSUAL PENAL – TRÁFICO DE ENTORPECENTES E ASSOCIAÇÃO PARA A PRÁTICA DE TAL DESIDERATO, AMBOS CIRCUNSTANCIADOS PELA PRESENÇA DE ADOLESCENTE – EPISÓDIO OCORRIDO NO BAIRRO DO GALO BRANCO, COMARCA DE SÃO GONÇALO – DECISÃO DO JUÍZO DE PISO QUE REJEITOU A DENÚNCIA, SOB O FUNDAMENTO DE AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA À PROPOSITURA DA AÇÃO PENAL, ALINHANDO O MAGISTRADO, EM SÍNTESE, QUE “O CONTEÚDO DOS DEPOIMENTOS NÃO INDICIA A AUTORIA DE DIEGO EM RELAÇÃO A QUAISQUER DOS CRIMES NARRADOS, DEFICIENTEMENTE, NA DENÚNCIA” – INSURREIÇÃO MINISTERIAL, PRETENDENDO O RECEBIMENTO DA EXORDIAL, AO ARGUMENTO DE QUE AQUELA PEÇA PROCESSUAL PREENCHE “TODOS OS REQUISITOS LEGAIS FORMAIS PARA SUA FORMAÇÃO”, ESTANDO INDICIADA A MATERIALIDADE DO DELITO DE TRÁFICO DE ENTORPECENTES, MERCÊ DA CONCLUSÃO CONTIDA NO LAUDO PRÉVIO DE EXAME DE ENTORPECENTES, RESTANDO BALIZADOS AINDA OS INDÍCIOS DA AUTORIA A PARTIR DAS DECLARAÇÕES PRESTADAS PELOS MILICIANOS QUE EFETUARAM A APREENSÃO DO MATERIAL ESTUPEFACIENTE E DE RÁDIOS TRANSMISSORES NA
RESIDÊNCIA DO ADOLESCENTE, BEM COMO NO TEOR DA OITIVA PRESTADA POR ESTE JUNTO À PROMOTORIA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE DAQUELA COMARCA, O QUE SERIA SUFICIENTE A INDICAR QUE O RECORRIDO ATUA COMO “GERENTE” DA ILÍCITA MERCANCIA LOCAL E, NESTA CONDIÇÃO, TERIA DETERMINADO AO ADOLESCENTE QUE ARMAZENASSE EM SUA PRÓPRIA RESIDÊNCIA O MATERIAL
ILÍCITO APREENDIDO – IMPROCEDÊNCIA DA PRETENSÃO RECURSAL –
CONSTATAÇÃO DE QUE A DECISÃO ATACADA FOI PROLATADA APÓS A REALIZAÇÃO DE UMA MINUCIOSA ANÁLISE PELO JUÍZO DE PISO QUANTO A TODOS OS ELEMENTOS TRAZIDOS AOS AUTOS, CONCLUINDO PELA AUSÊNCIA DAQUELES MÍNIMOS NECESSÁRIOS A SUSTENTAREM A COMPROVAÇÃO DA MATERIALIDADE E DOS INDÍCIOS DE AUTORIA QUANTO À ILÍCITA MERCANCIA, BEM COMO QUANTO AO LIAME NECESSÁRIO, E SUPOSTAMENTE EXISTENTE, ENTRE O RECORRIDO E OS DEMAIS INDIVÍDUOS MENCIONADOS NA INICIAL, DE MODO QUE SE PUDESSE TER COMO IMPLEMENTADA A JUSTA CAUSA AO OFERECIMENTO DA EXORDIAL – AO CONTRÁRIO DO QUE PRETENDE FAZER CRER O ÓRGÃO MINISTERIAL, OS RELATOS APRESENTADOS EM SEDE POLICIAL PELOS MILICIANOS QUE EFETUARAM A APREENSÃO DO MATERIAL ILÍCITO, BEM COMO PELO ADOLESCENTE, ASSIM COMO A MANIFESTAÇÃO DESTE JUNTO À PROMOTORIA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE ATUANTE NAQUELA COMARCA, TRAZEM MÚLTIPLAS E DIFERENCIADAS VERSÕES PARA UM MESMO FATO, DE MOLDE A CONDUZIR À CONFIGURAÇÃO DE UM CONFLITUOSO PANORAMA, O QUAL, DE MODO ALGUM, CREDENCIA-SE A LEGITIMAR A IMPUTAÇÃO MINISTERIAL DEDUZIDA, SENDO CERTO QUE OS AGENTES DA LEI OPTARAM POR APRESENTAR UMA INUSITADA E INACREDITÁVEL ESTÓRIA DE QUE O RECORRIDO TERIA CONFESSADO SER ATUANTE NA ILÍCITA MERCANCIA, MUITO EMBORA NÃO SE TENHA ENCONTRADO COM ELE, OU MESMO NA RESIDÊNCIA DELE, QUALQUER MATERIAL ESTUPEFACIENTE, ENQUANTO QUE O ADOLESCENTE ASSEGURA QUE O MATERIAL ARRECADADO ESTARIA COM DIEGO, QUEM CHEGOU À RESIDÊNCIA DA AVÓ DAQUELE DENTRO DA VIATURA POLICIAL, MAS SENDO CERTO QUE O DOMINUS LITIS OPTOU POR APRESENTAR UMA INOVADORA E DESABRIGADA HIPÓTESE, AFIRMANDO QUE DIEGO DETERMINOU A GUARDA DO ESTUPEFACIENTE APREENDIDO NA CASA DA AVÓ DO ADOLESCENTE, O QUE DEMONSTRA QUE NÃO SE ESTÁ A ANALISAR EXTEMPORANEAMENTE O MÉRITO DA CAUSA, MAS SIM A SE VISLUMBRAR A AUSÊNCIA DE ELEMENTOS QUE BASEIEM A IMAGINÁRIA NARRATIVA MINISTERIAL – MESMO PANORAMA DE INCONSISTÊNCIA SE FIRMA QUANTO À IMPUTAÇÃO DO DELITO DE ASSOCIAÇÃO PARA A PRÁTICA DO TRÁFICO DE ENTORPECENTES, PORQUANTO BUSCA O DOMINUS LITIS SE EQUILIBRAR SOBRE AS IMPRESTÁVEIS BASES TRAZIDAS PELAS DECLARAÇÕES DO ADOLESCENTE, NÃO SE TENDO UM ÚNICO ELEMENTO FÁTICO A VALIDAR TAIS ACUSAÇÕES, AVENTADAS POR UM INDIVÍDUO, QUEM FOI APREENDIDO NA POSSE DE MATERIAL ESTUPEFACIENTE, E DE FORMA REINCIDENTE, ASSEGURANDO SER O OUTRO, COM QUEM NADA DE ILÍCITO FOI LOCALIZADO, UM CRIMINOSO E AO QUE FOI DADO CRÉDITO, MAS SEM QUE SE REALIZASSE UMA MÍNIMA AVERIGUAÇÃO DA VERACIDADE DE TAIS FATOS – INTERPRETAÇÃO MINISTERIAL QUE CONSOLIDA UMA VERDADEIRA DETURPAÇÃO DE VALORES, ASSEMELHANDOSE À CONDUTA DESENVOLVIDA PELOS TRIBUNAIS ECLESIÁSTICOS, OS QUAIS FORMULAVAM SUAS “VERDADES” SOBRE MERAS ACUSAÇÕES EM FACE DE UM INDIVÍDUO, O QUAL SERIA REPUTADO COMO HEREGE, MAS SENDO CERTO QUE TAL CONDUTA NÃO PODE SER ACOLHIDA NO ÂMBITO DE UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, EM QUE O PROCESSO PENAL SE CONSTITUI COMO UMA GARANTIA ÀQUELE QUEM É ACUSADO DA PRÁTICA DE UM DELITO, NÃO SE PODENDO PERDER DE VISTA QUE, AINDA ASSIM TRAZ AO IMPLICADO UM INDISFARÇÁVEL CONSTRANGIMENTO MORAL E SOCIAL, O QUAL DEVE SE MOSTRAR EFETIVAMENTE NECESSÁRIO E CABÍVEL, TENDO SIDO TAIS CIRCUNSTÂNCIAS
Sentido Estrito em face de uma decisão de não recebimento de uma denúncia que imputava os crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico para um acusado. O magistrado a quo pontuou que a inicial acusatória sequer passou perto de apresentar indícios de autoria delitiva do denunciado. Sucede que, de acordo com a narrativa policial, no momento da abordagem, o denunciado teria, mesmo sem ter sido encontrado nenhum material ilícito com ele, informado atuar no tráfico e indicado o local onde a droga estaria com um comparsa.
Os agentes informaram versão idêntica, afirmando que o acusado teria comunicado a sua atuação no tráfico e, ainda, informado onde as substâncias entorpecentes estariam, dando o endereço da casa do suposto comparsa, que era adolescente, ocasião na qual os policiais teriam ido até lá e encontrado certa quantidade de drogas, tendo o colega do acusado assumido a propriedade. No entanto, ao ser ouvido em sede policial, o acusado negou todas as afirmações, aduzindo não atuar no tráfico e negando ter indicado o endereço do adolescente, alegando não manter qualquer relação com este. Posteriormente, em um termo de oitiva do Ministério Público, o mesmo adolescente que antes nada disse sobre a traficância do denunciado, argumentou que o material era deste, que era gerente do pó.
Nesse sentido, o magistrado a quo estranhou as declarações retificadas e controversas. Assim, sustentou que a versão apresentada pelos agentes policiais exige muita ingenuidade para se tornar crível. O juiz propõe a reflexão: imaginar que um sujeito revistado, inclusive no interior da sua residência, com nada tendo sido encontrado com ele ou na casa, “mas que em um passe de mágica, talvez por encontrar a luz divina, resolve confessar que é traficante e, inclusive, que sua carga estaria em uma carga diversa, com outro sujeito, se dispondo a conduzir a polícia até o local”, não parece nada razoável.
“Inacreditável” é o adjetivo utilizado pelo magistrado, o qual analisou criteriosamente o caso, realizando um exame inicial substancial sobre a credibilidade do depoimento dos policiais, percebendo desde logo a escassez probatória e os indícios de irregularidades da acusação. Nesse sentido, o TJ/RJ manteve a decisão do juízo de primeiro grau e a denúncia não foi aceita.
O referido exemplo se presta a demonstrar que quando há uma análise criteriosa e adequada por parte do juiz acerca da credibilidade dos depoimentos dos policiais, com uma valoração que foge do teor generalizante e abstrato, bem assim se mostra próxima ao mundo fático do sistema processual penal, o resultado é o melhor possível. Nesse caso, verificou-se a
ACERTADAMENTE POR REJEITAR AQUELA DESPROPOSITADA DENÚNCIA – MANUTENÇÃO DO COMBATIDO DECISUM – DESPROVIMENTO DO RECURSO MINISTERIAL. (TJ/RJ – Recurso em Sentido Estrito nº 0057489-73.2012.8.19.0000, Data de Julgamento: 23 de janeiro de 2014)
impossibilidade de se tomar como críveis os relatos dos policiais e, inibindo a instauração de uma ação penal, evitou-se, desse modo, um “indisfarçável constrangimento moral e social”260 que uma persecução penal provoca por si só.
Valois assevera acertadamente que o mito de que os agentes da polícia não mentem e são presumidamente idôneos por exercerem função pública e de relevante interesse social tem sido descontruído pela realidade e pelo clima hostil da atuação policial no combate ao crime, especialmente os crimes relacionados a Lei de Drogas, que, conforme visto, representam a maior parte dos delitos em que o depoimento do policial é o único ou principal elemento probatório do processo.261
Com isso, todavia, não se busca argumentar que a palavra do policial deve ser valorada com reservas unicamente por causa dos casos de abuso observados, mas que tais situações apenas reforçam a necessidade de se repensar o tratamento dado ao relato do agente – até porque há, de fato, amparo jurídico para tanto. O capítulo anterior serviu, portanto, para contextualizar e expor as feridas da instituição policial no Brasil, a fim de possibilitar uma melhor discussão, para que se alcance o resultado mais efetivo para o presente imbróglio.
A princípio, é necessário rememorar que a testemunha é um terceiro imparcial no processo, que prestará depoimento perante um juiz sobre fatos juridicamente relevantes que tenha percebido. Por se tratar de uma prova penal que não é produzida a partir de uma certeza matemática, e sim do ser humano e das suas falibilidades e cargas psicológicas imprevisíveis, é preciso tomar a prova testemunhal, por si só, com razoável cautela. Assim, é impossível se ter plena certeza da veracidade das afirmações aduzidas, pois não há como haver confirmação plena.
Considerando a exigência de a testemunha ser sujeito desinteressado na causa, como conferir ao policial tal tratamento? Se ele, naturalmente, tem inegável interesse em demonstrar a legalidade da sua atuação, pois, ao depor, está dando conta do seu trabalho realizado anteriormente? Isto é, o seu relato é viciado pela sua tendência natural de legitimar a ação e, portanto, quase invariavelmente – optou-se pela não generalização apenas para não ficar apelativo – endossar a tese acusatória.
Pior ainda, há que se considerar que, por exemplo, quando se trata de flagrante com invasão de domicílio por tráfico de drogas, por exemplo, caso não reste provado que o agente estava com o material entorpecente, o policial deverá ser acusado da prática do crime de invasão de domicílio (artigo 150, do Código Penal). Ou seja, o agente não estará apenas
260
Ibidem. 261
motivado a legitimar a sua ação pura e simplesmente, mas também para não ser acusado de um crime eventualmente. É preciso considerar: como o depoimento de uma pessoa é isento de interesse se, a depender do que ela revelar, poderá ser acusada de um crime?
E mais, considerando os numerosos e rotineiros casos de abusos, arbitrariedades e violência policial apresentados no capítulo anterior, como se pode crer em um relato livre de qualquer tendência incriminatória? Como dito anteriormente, essa atuação truculenta da Polícia Militar não é representada por casos isolados, mas do resultado de uma estrutura militarizada e uma formação autoritária e violenta que prepara o policial para combater um
inimigo a quase qualquer custo.
Pouco provável, para não dizer quimérico, que o delegado, policial militar ou outro agente da polícia que participou da abordagem e da investigação policial deponha em juízo para desqualificar a sua própria atuação e o trabalho exercido. Até porque, em sendo verificada alguma irregularidade, ele pode posteriormente ser punido por abuso de autoridade, por exemplo. Sobre isso, Luís Carlos Valois assevera:
Em um ambiente desse tipo quem está na linha de frente da batalha dificilmente terá a isenção necessária para ser a testemunha que a jurisprudência tem exaltado. Formado, treinado e agindo em constante tensão, tendo o tráfico de drogas como bode expiatório de diversos males sociais, o policial não tem a imparcialidade pretendida pela racionalização da interpretação do STF, seguida pelo resto do país.262
A bem da verdade, pertinente trazer à discussão a ótica do defensor público Ricardo André de Souza, o qual enxerga que uma consequência dessa ampla carga probatória conferida ao relato dos policiais acaba por colocá-los como “juízes da sua própria atividade”263 , porquanto são eles mesmos que fornecerão ao juiz as declarações que o
julgador tomará como base para condenar ou não o acusado, inviabilizando o reconhecimento de eventual abuso cometido pelo próprio agente de segurança pública.
Assim, o depoimento prestado por esse aplicador da lei deverá ser observado e analisado caso a caso, levando-se em conta o valor relativo da sua palavra, uma vez que possuem total interesse em legitimar e concretizar os trabalhos desenvolvidos em meio a sua atuação como policial. Aliado a isso, o receio desses profissionais de que um possível erro
262
VALOIS, Luís Carlos. Op. cit., p. 497. 263
RODAS, Sérgio. Palavra de policiais é o que mais influencia juízes em casos de tráfico, diz
pesquisa. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2018-fev-23/palavra-pm-influencia-casos-
nesse agir possa culminar em alguma responsabilização, por exemplo, aumenta mais ainda o seu desejo de legitimar a sua versão inicialmente dita.264
De outra banda, é preciso ter em mente outros fatores que indicam a insegurança do conteúdo dos testemunhos dos agentes, como o fato de que do dia da prisão em flagrante até o dia da audiência para a oitiva das testemunhas, geralmente decorre considerável lapso temporal, o que favorece a ocorrência de erros nos depoimentos prestados. Assim, além da vontade de legitimar as declarações inicialmente prestadas para não sofrer penalidades, há ainda o problema da automatização dos depoimentos.
Não raro os policiais são arrolados para figurar como testemunha em diversos processos criminais diferentes no mesmo dia ou em curto espaço de tempo, o que, juntamente ao longo período transcorrido desde a ocorrência do fato, potencializa a automação dos depoimentos e consequentemente do seu teor. Ainda, é preciso dizer que quem atua todos os dias no patrulhamento ostensivo se depara com diversos crimes muito parecidos, em circunstâncias quase idênticas, o que também acaba por comprometer a fidedignidade do conteúdo do depoimento.
Isto é, a direta e contínua exposição a situações criminosas muito similares todos os dias acaba por dificultar ao policial a lembrança individualizada do caso concreto sobre o qual deverá prestar depoimento meses ou até anos depois do fato delituoso. Tal circunstância também representa uma problemática inolvidável e indissociável do testemunho do agente de segurança pública que pode significar um grave vício às suas declarações.
Nesse sentido, em pesquisa realizada pelo NEV – Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo265, um dos policiais entrevistados reconheceu chegar ao local da tomada do testemunho pouco antes da audiência para ter tempo de ler o processo e recordar o ocorrido, reforçando a ideia de automação, porquanto o que se lembra nessa hipótese será aquilo que foi dito no depoimento anterior, para que apenas se repita e diminua as chances de erros e contradições entre as declarações, por exemplo.266
Luís Carlos Valois observa outra situação problemática, na qual o magistrado toma a atitude de ler os depoimentos para as testemunhas confirmarem o que foi dito, fazendo do auto de prisão em flagrante “já o início da prova que será legitimada pelo contraditório. O processo, que era para ser o momento de verificar a existência do fato, torna-se um momento
264
NASCIMENTO, Jenyffer Félix Santana do. Op. cit., p. 23. 265
JESUS, Maria Gorete Marques; et al. Prisão provisória e Lei de Drogas: Um estudo sobre os flagrantes de tráfico de drogas na cidade de São Paulo. Núcleo de Estudo da Violência, São Paulo, SP, Brasil, 2011. p. 77.
266
de se verificar a repetição do que foi escrito pela polícia, o que não é a mesma coisa”267.
Nesse sentido, também é possível enxergar um certo estímulo dessa repetição quando, cotidianamente, membros do Ministério Público, ao inquirir a testemunha, realizam a pergunta “essa assinatura aqui é sua?”, para obter, assim, a confirmação do que foi escrito no depoimento na sede policial, sem que haja, necessariamente, a memória do fato no dia da oitiva judicial. Ou seja, manifestamente há somente uma tentativa de confirmação ipsis litteris do que foi dito pelo depoente na fase inquisitorial.
Demais disso, o estresse que contorna a atividade policial também deve ser pontuado como um elemento capaz de macular a prova oral do agente de segurança pública, pois, submetido constantemente a situações que lhe causam cansaço, esgotamento, agitação e tensão, o policial pode acabar por não conseguir captar bem os fatos ou, ainda, colorir os relatos a partir de uma motivação baseada em um revide pessoal causado por aquela abordagem, situação delituosa que se apura em desfavor daquele acusado ou por um sentimento generalizante de desforra causado pelo cotidiano policial.
A cultura militarizada na qual o agente está inserido também pode influenciar significativamente seu testemunho. Isso porque, consoante se viu, tal política acaba por moldar a visão que o policial tem dos suspeitos e acusados – entendendo-os como inimigos a serem combatidos – a partir de uma ótica punitivista, o que pode representar em um relato totalmente inclinado para a confirmação da acusação.
Para além desses vícios específicos dos policiais, não se pode olvidar daqueles tratados no tópico 2.2, eis que inerentes e possíveis de acometer qualquer ser humano. Válido rememorar, nesse sentido, a possibilidade de influência por parte da iluminação do local, da imaginação do depoente, do estado emotivo, das falsas memórias, entre tantos outros elementos citados. Tais considerações demonstram, pois, que o policial está inserido em um