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PARTE 1: A presunção de veracidade de depoimentos dos agentes de segurança pública.

4.3 A mera (re)produção dos elementos informativos do inquérito na fase judicial

Além do que já foi exposto, urge a necessidade de trazer à discussão outro tópico que também põe em xeque a legitimidade da utilização exclusiva da prova testemunhal para embasar uma condenação. Consoante é sabido, o artigo 155 do Código de Processo Penal impede que o juiz fundamente a sua decisão exclusivamente nos elementos de informação colhidos na fase inquisitória. Há assim, a garantia de que o acusado será julgado somente a partir da prova judicializada, isto é, produzida sob o crivo do contraditório judicial e da ampla defesa.

O depoimento, então, na qualidade de meio de prova, deverá ser prestado em juízo, possibilitando a verificação da consonância com as alegações ditas no decorrer do inquérito policial. Segundo Aury Lopes Júnior, apenas as provas colhidas após a instrução probatória, salvo aquelas irrepetíveis, é que poderão ser utilizadas como meio de prova apto a embasar uma sentença condenatória. Nesse sentido, o autor sustenta:

273

VALOIS, Luís Carlos. Op. cit., p. 495 274

Em síntese, o CPP não atribui nenhuma presunção de veracidade aos atos do IP. Todo o contrário, atendendo sua natureza jurídica e estrutura, esses atos praticados e os elementos obtidos na fase pré-processual devem acompanhar a ação penal apenas para justificar o recebimento ou não da acusação. (...) Na sentença só podem ser valorados os atos praticados no curso do processo penal, com plena observância de todas as garantias.275

Lopes Júnior assevera que é comum ao Ministério Público a ação de arrolar como testemunhas apenas os policiais que participaram da operação e da elaboração do inquérito. Com isso, se busca judicializar a palavra dos agentes para driblar a vedação de condenação “exclusivamente” (artigo 155, do CPP) com fundamento nos elementos informativos colhidos na fase inquisitorial.276

Nesse sentido, tem-se que os casos de judicialização do depoimento policial tentam camuflar o testemunho, disfarçando-o de meio de prova produzido em juízo com a devida observância das garantias constitucionais e processuais, como o contraditório e a ampla defesa, uma vez que, na fase inquisitorial não há o respeito ao contraditório. Todavia, trata-se de um mero disfarce, já que consiste na mesma testemunha, no caso o policial condutor, expondo o caso ao seu modo, e com base nos seus interesses.277

Segundo o autor, trata-se de um golpe de cena, pois a condenação terá se dado, exclusivamente, com base nos atos da fase pré-processual e no depoimento contaminado de seus agentes, os quais são profissionalmente comprometidos com o resultado por eles apontado, o que acaba por violar o referido dispositivo jurídico.278

Em verdade, é preciso salientar que a busca por conferir contraditório a tais

declarações é problemática, na medida em que o contraditório se perfaz tendo como insumo os depoimentos das mesmas pessoas, no caso, policiais, que permitiram a produção da denúncia. Nesse contexto, é imperativo ao julgador o dever de cuidar para que o processo não se converta numa reprodução – quase teatral – do que se colheu na fase do inquérito. É necessário, então, que a produção probatória não se restrinja à mera repetição dos elementos indiciários produzidos em fase policial.

Nessa vereda, oportuno destacar a lição trazida por Aury Lopes Júnior, que adjetiva como fraude o ato de trazer ao processo os elementos de informação colhidos na fase inquisitorial, e, ao final, “basta o belo discurso do julgador para imunizar a decisão”279. Tal

275

LOPES JR., Aury. Op. cit. 276

Ibidem. 277

NASCIMENTO, Jenyffer Félix Santana do. Op. cit., p. 25. 278

LOPES JR., Aury. Op. cit. 279

discurso, continua o autor, vem mascarado com as mais várias fórmulas, como a prova do inquéritos estar corroborada pela prova judicializada; e assim todo um exercício imunizatório, ou como ele define, uma fraude de etiquetas, se delineia para justificar uma condenação, que, na realidade, está fundamentada nos elementos colhidos no segredo da investigação. O processo, portanto, acaba tornando-se como uma mera encenação da primeira fase.280

O autor argumenta, ainda, que enquanto não se tiver, na prática, um processo verdadeiramente acusatório, em toda a sua extensão, as pessoas continuarão a ser condenadas com base na prova inquisitorial, disfarçada no discurso de cotejando, corrobora, e outras fórmulas que camuflam a realidade: a condenação está fundamentada nos atos investigativos, naquilo feito na pura inquisição.281

Conclui-se, nesse sentido, que, em caso de a prova fundamentar-se exclusivamente em declarações cujo conteúdo é substancialmente idêntico ao que se extrai do inquérito, o juízo não está autorizado a tomar o conjunto probatório como hígido, mediante o disposto no artigo 155, do CPP. Em caso de aceitação como prova dos depoimentos de policiais que participaram da investigação, sem mais provas produzidas em juízo no mesmo sentido, uma condenação significaria dar total credibilidade à palavra dos policiais, tornando-a absoluta, inquestionável e suficiente para fundamentar qualquer édito condenatório, além de retirar do denunciado qualquer possibilidade real de defesa282.

Evidencia-se a ofensa, então, ao princípio da ampla defesa, uma vez que, conforme se vê, o acusado nada pode fazer diante de relatos a respeito de diligências e informações que já foram aceitas para justificar o oferecimento da denúncia ou da queixa. Roberta Lima assevera que tais elementos já são um fato, valorado no seu devido tempo, e a sua simples repetição em juízo não modifica nem lhe acrescenta.283

Nesse mesmo sentido, também não se pode entender pela observância do contraditório nesse contexto, uma vez que, ainda que o defensor do acusado contradiga a acusação, esta aqui representada pela reprodução de informações da fase inquisitorial, o que indica que a defesa está fadada ao fracasso, à medida em que o juízo já valorou tais elementos para viabilizar a peça inicial acusatória.

Nessa ótica, Valois defende a impossibilidade de se trazer apenas testemunhas policiais para o flagrante, formando integralmente o conteúdo probatório testemunhal da

280

LOPES JR., Aury. Direito Processual Penal e sua conformidade constitucional. – 9. ed. rev. e atual. – São Paulo: Saraiva, 2012, p. 130.

281

Idem, p. 131. 282

SILVA, Roberta de Lima e. Op. cit., p. 27. 283

futura ação, porquanto depois é praticamente impossível para a defesa encontrar outras pessoas envolvidas com a conduta que possam trazer aspectos favoráveis ao réu, constituindo obrigação da polícia encontrar testemunhas mais isentas possíveis no momento do fato, atitude que poderia vir a favor não apenas da defesa, mas da credibilidade do processo como um todo.284

A preocupação, desse modo, “é, então, não deixar que a atividade administrativa do inquérito, que tem uma finalidade específica – a de justificar a propositura da ação penal – converta-se em ato próprio da fase judicial”285, somente porque os agentes policiais confirmaram, judicialmente, a realidade daquela atividade já praticada e apreciada.

É preciso reconhecer, na realidade, que o depoimento policial repetido em juízo não se trata nem de prova, tendo em vista a armação forçada para lhe conferir o contraditório que, conforme visto, na verdade, não existe. Roberto Luiz Corcioli Filho286 aduz que esses relatos inevitavelmente representarão uma reprodução, em sede judicial, de fatos que já cumpriram a sua finalidade com o oferecimento da denúncia ou da queixa, então não podem ser valorados como provas e sim como elementos informativos que são, pois são oferecidos ao magistrado pelos próprios protagonistas da ação administrativa do Estado de fornecer dados para o titular da ação penal. Não importa, então, que sejam reproduzidos em juízo, porque o lugar ou a fase procedimental em que isso se dá não retira a sua qualidade de dados informativos.

Corcioli Filho complementa alegando que a admissibilidade pura e simples, como prova penal, da confirmação de seus relatos anteriores, realizada pelos agentes da persecução, em sede judicial, acaba por reconhecer a ineficiência de todo o processo criminal, pois se autoriza, na prática, que não apenas o acusado já esteja condenado desde o princípio, mas que sua condenação já esteja transitada em julgado diretamente da prisão em flagrante. Inequívoco destacar que tal conduta acaba por dispensar, por conseguinte, todo o custoso e desgastante aparato estatual e defensivo, o que não pode, indiscutivelmente, ser considerado compatível com um Estado Democrático de Direito.287

Do mesmo modo, verifica-se a desarmonia com o sistema acusatório do processo penal, porquanto tomar como prova exclusivamente o relatório das providências na fase inquisitorial representa elevar os agentes estatais à categoria de fonte de prova, e não de

284

Valois, Luís Carlos. Op. cit., p. 516. 285

SILVA, Roberta de Lima e. Op. cit., p. 27. 286

FILHO, Roberto Luiz Corcioli. Estatuto da Criança e do Adolescente. Ato infracional. Tráfico

de drogas / entorpecentes. Valor probante da prova testemunhal. Depoimento de policial.

Disponível em: https://www.ibccrim.org.br/boletim_artigo/5838-Tribunal-de-Justica-do-Estado-de- Sao-Paulo. Acesso em 02 nov. 2019.

287

produtor de prova. É digno de nota que se o Estado que pode condenar é o mesmo que também pode, com exclusividade, constituir-se na fonte da prova para tal condenação, estaria -se negando vigência aos postulados do modelo acusatório e do sistema processual penal democrático.288