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Conforme se analisou, as informações dos bancos de dados sempre se referiam a informações denominadas negativas, isto é, informações de dívidas vencidas e não pagas pelo consumidor. Contudo, nos últimos anos os arquivos de consumo já buscam um novo tipo de informação, buscando armazenar dados dos consumidores em situação de adimplemento. A estas informações deu-se o nome de positivas, e os arquivos de consumo que as armazena denominados de cadastros positivos. Foi assim que surgiu a Lei 12414, de 09 de junho de 2011, que regulamenta estas informações positivas, e que será analisada neste tópico.

Antes de realizar a análise desta nova legislação, é necessário realizar uma reflexão sobre os conceitos de informações positivas e negativas. Isto porque nem sempre denegação de crédito, decorrente de informação em bancos de dados, pode ser considerada negativa. Em algumas situações, como um consumidor superendividado, por exemplo, a informação que impede o acesso ao crédito é positiva, tendo em vista que evita com que o consumidor aumente sua dívida.

Entretanto, Leonardo Roscoe Bessa, que propôs esta importante reflexão, recomenda que:

O melhor é pressupor que o consumidor, maior e capaz – e, destaque-se, num ambiente de plena informação sobre as características dos produtos e serviços (boa-fé objetiva), como desejam a Lei 8.078/90 e Lei 12.414/2011 –, possui autonomia, autodeterminação, liberdade, plenas condições de avaliar a importância e todos os efeitos da assunção de um empréstimo. Desse modo, a denegação de crédito é, sim, um efeito negativo, pois significa recusa a uma pretensão do consumidor. (BESSA, 2011, p.36).

Para reforçar a tese de que a denegação de crédito ao consumidor tem

efeitos negativos, o art. 43, §5º, do CDC, já analisado anteriormente, destaca que ocorrendo a prescrição da cobrança de débitos do consumidor, não serão fornecidas informações que impossibilitem ou dificultem novo acesso ao crédito junto aos fornecedores.

Em sentido contrário, as informações positivas demonstram uma situação de adimplemento de contratos e dívidas junto aos fornecedores, gerando facilidade no acesso ao crédito e até mesmo diminuição nas taxas de juros cobradas no mercado, sendo que a justificativa para o armazenamento destas informações é que a ausência destes cadastros ocasiona a impossibilidade de distinguir o bom pagador daquele que falha com suas obrigações, o que força a distribuição entre todos os consumidores o custo da inadimplência.

No entanto, a principal justificativa, apresentada por Leonardo Roscoe Bessa (2011), para a criação dos chamados cadastros positivos, é a tendência de promover um aumento generalizado de dados para analisar o risco na concessão de crédito. Como se sabe, nos dias atuais a economia brasileira sofre com a estagnação, o que torna a concessão de crédito mais difícil.

De posse destas anotações, passa-se à análise da Lei 12414/2011, que já em seu art. 1º destaca que o principal objetivo da lei é disciplinar a formação e consulta a bancos de dados com informações de adimplemento, isto é, as informações positivas, sem prejuízo do que dispõe o CDC, o que leva à interpretação de que há o que a doutrina chama de “diálogo das fontes”, isto é, análise e interpretação conjunta das legislações.

Como o art. 1º da Lei 12414/2011 considera como banco de dados de informações de adimplemento, e considerando que o principal objetivo destes bancos de dados é armazenar informações para análise de riscos de concessão de crédito, Leonardo Roscoe Bessa (2011) critica o nome atribuído destes como

“cadastros positivos”, defendendo a utilização da denominação “bancos de dados de proteção ao crédito e tratamento de informações positivas”. Contudo, a prática impede a utilização deste conceito, que pode até considerado grande.

Em seguida, o art. 2º da Lei traz importantes conceitos, tanto para os bancos de dados de informações positivas, quanto para os de informações negativas. O principal deles, previsto no inciso I, considera banco de dados o conjunto de dados relativos à pessoa, natural ou jurídica, com a finalidade de subsidiar a concessão de crédito.

O art. 3º impõe a qualidade das informações a serem fornecidas: devem ser claras, assim consideradas aquelas que possibilitem o imediato entendimento por parte do consumidor, independentemente da utilização de remissão a anexos, siglas, símbolos, termos técnicos ou nomenclatura específica; objetivas, assim consideradas aquelas que não envolvam juízo de valor; verdadeiras, que são aquelas exatas e completas; e de fácil compreensão, que possibilita ao consumidor o pleno conhecimento do conteúdo.

Por outro lado, o referido artigo veda informações consideradas excessivas, que são aquelas que não estão relacionadas à análise de risco de crédito; e as informações sensíveis, pertinentes à origem social e étnica, à saúde, à informação genética, à orientação sexual e às convicções políticas, religiosas e filosóficas.

O art. 4º destaca a forma de anotação das informações do consumidor nos bancos de dados: deverá ser de forma escrita em instrumento específico ou cláusula apartada, em que o consumidor manifesta o seu consentimento.

Tal dispositivo decorre da potencialidade lesiva que qualquer anotação decorre, uma vez que pode violar o direito fundamental à privacidade. Leonardo Roscoe Bessa ensina que “não se cuida de impor obrigatoriamente uma proteção de privacidade, mas de oferecer todos os instrumentos necessários para determinar, a partir de escolhas individuais, a medida e sob quais circunstâncias dados pessoais podem ser objeto de tratamento” (BESSA, 2011, p. 98).

Assim como depende de consentimento do consumidor para a inscrição no cadastro positivo, também é seu direito solicitar seu cancelamento, ter acesso às informações e até mesmo impugnar as informações nele contidas, conforme dispõe o art. 5º, inciso I e III, respectivamente. Tais direitos decorrem dos já mencionados direitos ao acesso, à exclusão, à correção e retificação das informações, previstas no CDC, tanto que o prazo para a impugnação, no último caso, é o mesmo (sete dias ou cinco dias úteis).

Vale destacar que os demais dispositivos da Lei 12414/2011 se assemelham com as disposições do CDC, em virtude dos direitos básicos do consumidor previstos neste (art. 6º), e também no que tange à responsabilidade objetiva por eventuais danos causados ao consumidor. Contudo, a única diferença existente entre os bancos de dados para informações negativas e para informações positivas consiste no prazo de manutenção: enquanto que as informações negativas podem ser fornecidas por no máximo cinco anos, as informações positivas poderão ser

mantidas por 15 (quinze) anos, prazo este que pode ser considerado longo, uma vez que o razoável seria equiparação com o prazo do CDC, assim como foi feito com o prazo para retificação ou impugnação das informações.

Apesar de todo o exposto, verifica-se que na prática os fornecedores ainda não se adaptaram à nova tendência (informações positivas), uma vez que, de acordo com Leonardo Roscoe Bessa, “basta que qualquer registro em banco de dados, não importando o valor da dívida, nem o tempo de seu vencimento, para que o fornecedor negue o crédito pretendido” (BESSA, 2011, p. 88). É importante ressaltar aqui que não é o SPC, Serasa e outros que denegam o crédito, mas sim os fornecedores que, ao verificar a presença de informações da pessoa nestes arquivos de consumo, automaticamente não concede.

Conclui-se, portanto, que muito embora os chamados “cadastros positivos”

tenham a finalidade de ajudar o consumidor a acessar o crédito com redução de juros e outros benefícios, ainda é necessário realizar uma campanha para fazer com que os fornecedores se adaptem à nova realidade, com a diferenciação rápida e clara dos cadastros de informações positivas e dos cadastros de informações negativas.

5 SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES DE DEFESA DO CONSUMIDOR