3. A CONCRETIZAÇÃO DO MICROSSISTEMA CONSUMERISTA NO PLANO
3.2. O DIÁLOGO COM OUTRAS NORMAS
3.2.4. A Lei Geral da Copa
Em 05.06.2012, foi sancionada a Lei nº 12.663/12, mais conhecida como a “Lei Geral da Copa”, que dispõe sobre as medidas a serem adotadas em razão da realização da Copa das Confederações FIFA 2013 e Copa do Mundo FIFA 2014 no Brasil, cuja novel legislação também reverberou no Código de Defesa do Consumidor.
Além das críticas feitas durante o processo legislativo – em especial pelo excessivo número de prerrogativas conferidas à FIFA – há um receio de que a Lei Geral da Copa suprima direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor. É que apesar de se propalar a ideia de que a Lei Geral da Copa seria uma lei especial, direcionada a instituir regras específicas para a realização do evento Copa do Mundo no Brasil, e que, portanto, não colidiria com a regra geral aplicável às relações de consumo, não parece ser esta a melhor percepção acerca da legislação recém aprovada. Tanto é assim que o
questionamento sobre a constitucionalidade da norma parece questão de tempo, motivo pelo qual se mostra necessária a análise sobre seu reflexo nas relações contratuais regidas pelo Código de Defesa do Consumidor.
Quanto às críticas surgidas durante o processo legislativo, podemos afirmar que as reações sociais contrárias às exigências da FIFA não são uma exclusividade brasileira. Já foi assim na Alemanha em 2006 e na África do Sul em 2010. Exemplo disso é a questão afeta à venda de bebidas alcoólicas nos estádios, também objeto de divergência nos dois países antes mencionado e que não recebeu solução adequada por parte da Lei Geral da Copa. Apesar da comercialização de cerveja nos estádios ser permitida nesses dois países, a disputa entre eles e a FIFA se deu por conta das restrições de comercialização impostas pela entidade.
A preferência dos alemães pela cerveja nacional levou o governo a bater de frente com a FIFA e, ao final, as partes chegaram a um acordo em que definiram que 40% das cervejas vendidas nos estádios da Copa poderiam ser alemãs, desde que servidas em copos transparentes (sem a marca do produto). Já na África do Sul a divergência se deu com relação aos patrocinadores locais. Parte dos estádios sul-africanos traz em seu nome a marca dos titulares dos respectivos naming rights, o que durante a Copa do Mundo forçou-os a mudarem de nome.
Contextualizando a problemática para a nossa realidade, os pontos críticos da lei estão situados no âmbito do Direito do Consumidor. O artigo 11 é exemplo disso, pois estabelece que nos locais de competição, em suas imediações e nas principais vias de acesso aos estádios, poderão ser instituídas “áreas de restrição comercial”, com o limite máximo de dois quilômetros ao redor dos locais oficiais de competição, em que a FIFA e seus parceiros, em regime de exclusividade, poderão divulgar suas marcas, distribuir, vender, dar publicidade e realizar propaganda de produtos e serviços.
Tal mecanismo, além de infirmar a liberdade comercial e afrontar a livre iniciativa, subtrai do consumidor um dos direitos que lhe é assegurado por lei:
o de escolher o produto que quer adquirir. Sim, porque de acordo com o texto aprovado os consumidores seriam compelidos a comprar apenas os produtos ou serviços oferecidos pelos parceiros FIFA fora dos estádios de futebol.
A lei não deixa claro se os estabelecimentos poderão comercializar produtos ou prestar serviços concorrentes àqueles fornecidos ou prestados pelos parceiros comerciais da FIFA, favorecendo a imposição de restrições arbitrárias aos comerciantes locais.
Não bastasse isso, o art. 16 da lei arrola como ilícito civil uma série de condutas comerciais que venham a ser realizadas nas áreas de exclusividade previstas no art. 11 ou, ainda, “em lugares que sejam claramente visíveis a partir daqueles”.
Outra afronta ao Código de Defesa do Consumidor pode ser encontrada no art. 23 da lei.
Ao organizar e promover os eventos relativos à Copa do Mundo, não há dúvida de que a FIFA é fornecedora de serviços e, como tal, deveria responder independentemente de culpa por quaisquer danos causados aos espectadores do evento decorrentes de defeito na prestação do serviço (art.
14, CDC). E, nesse contexto, o serviço é tido por defeituoso quando não oferece a segurança esperada pelo consumidor (§ 1º). Essa garantia legal de adequação independe de ajuste expresso entre as partes, sendo vedada a exoneração contratual do fornecedor (art. 24).
A Lei Geral da Copa simplesmente atribui à União toda a responsabilidade civil decorrente de qualquer incidente ou acidente de segurança ocorrido durante os eventos esportivos. A FIFA será responsável somente se e na medida em que tiver concorrido para a ocorrência do dano.
Outro aspecto polêmico diz respeito à obrigatoriedade imposta à União de ser intimada em todos os casos em que a FIFA ou seus agentes forem demandados judicialmente.
Com isso, a FIFA se esquiva da responsabilidade objetiva decorrente da relação contratual que mantém com os espectadores do evento (consumidores), que, por sua vez, deverão reclamar da União a reparação dos danos sofridos.
No que se refere à venda de ingressos, a lei estabelece que o preço será ajustado pela FIFA e que, ao fixá-lo, a entidade deverá personalizar os ingressos em quatro categorias, numeradas de um a quatro, sendo os ingressos da categoria quatro os mais baratos. Ademais, a lei prevê que quem fixará o número mínimo de ingressos a ser colocado em cada uma das categorias criadas é a própria FIFA, cuja conduta limitará o acesso dos demais consumidores aos ingressos mais baratos, obrigando-os a adquirirem os ingressos das demais categorias, mais caros e sem nenhum tipo de benefício.
Os confrontos entre ambas as legislações não se limita a isso. Outro aspecto polêmico reside na possibilidade conferida à FIFA de estabelecer os critérios para cancelamento, devolução e reembolso de ingressos. A FIFA poderá, inclusive, modificar a qualquer momento as datas, os horários e os locais do evento, bastando que, para isso, conceda ao consumidor o direito ao reembolso do valor do ingresso ou o direito de comparecer ao evento reagendado; no entanto, a lei não estabelece prazo nem condições para o reembolso.
Ainda neste aspecto, pelo texto de lei constata-se que a FIFA não responde por nenhum prejuízo adicional sofrido pelo consumidor que, por conta de eventual mudança, não possa comparecer ao evento ou, ainda, pelos custos adicionais que o consumidor venha a arcar por conta disso. Pior, se o consumidor desistir da aquisição do ingresso, a FIFA poderá estabelecer cláusula penal a ser deduzida do preço, independentemente da forma ou do
local da compra, quando sabemos que o artigo 49 da Lei nº 8.078/90 cria um mecanismo específico para a hipótese de compra à distância, como, por exemplo, a internet – certamente o meio mais comum para a venda de ingressos – permitindo ao consumidor exercer seu direito de reflexão, o qual, se praticado, jamais poderá implicar em algum prejuízo econômico ou financeiro a ele, justamente o que aconteceria se admitíssemos uma cláusula penal em desfavor do consumidor que simplesmente resolveu exercitar uma prerrogativa que está prevista em lei.
Não bastasse isso, a FIFA poderá dispor sobre a possibilidade de venda dos ingressos em conjunto com pacotes turísticos ou de hospitalidade, de modo direto ou por meio de suas parceiras comerciais, o que configura
“venda casada”, vedada no art. 39, inciso I, do CDC.
Embora não tenha afastado expressamente a eficácia do CDC76, a Lei Geral da Copa pretende, na verdade, tornar sem efeito uma série de garantias contratuais conferidas ao cidadão que consumirá os produtos e serviços que foram prestados pela FIFA em 2013 (Copa das Confederações) e o serão em 2014 (Copa do Mundo).
O argumento mais corriqueiro é o de que a lei tem caráter especial, destinada a regulamentar as situações jurídicas relativas aos eventos organizados por aquela entidade. Por esta razão, não haveria conflito direto com as normas protetivas dispostas no CDC, considerado como regra geral, aplicável aos demais contratos envolvendo relações de consumo. Todavia, é certo que a proteção aos direitos do consumidor não pode ser afastada, independentemente da grandiosidade dos eventos e dos possíveis benefícios à economia e à infraestrutura do país, pois não se pode perder de vista que os direitos e garantias previstos no CDC não podem ser restringidos ou mesmo abolidos em favor de uma entidade de Direito Privado, tal como é a FIFA.
76 Mesmo porque uma disposição neste sentido violaria frontalmente o art. 5º, inciso XXXII, da CF.
Por tais razões, é certo que as normas que restringem os direitos do consumidor, por estarem em confronto com os princípios constitucionais (que são verdadeiros mandamentos de otimização), deverão ser afastadas das relações contratuais que serão travadas entre os consumidores e a FIFA, suas subsidiárias ou empresas patrocinadoras.