4. O PAPEL DO PODER JUDICIÁRIO E SUAS CONTRIBUIÇÕES
4.3. OS EFEITOS DAS DECISÕES JUDICIAIS
4.3.1.5. Fornecimento de serviços defeituosos ou nocivos
Sobressai a proteção ao consumidor diante de algumas espécies de serviços defeituosos.
- Telefonia
O STJ já decidiu no sentido de que a empresa de telefonia, que integra, como parceira, a cadeia de fornecimento de serviços é responsável solidária pelos danos causados por defeitos na prestação de serviços:
Direito do consumidor. Ação de indenização. Danos morais. Inscrição indevida no serviço de proteção ao crédito. Empresa de telefonia de longa distância. Parceria empresarial. Defeito na prestação do serviço. Processual Civil. Recurso Especial. Alegação de ofensa à regulamento da Anatel. I – A alegação de ofensa à Regulamento da Anatel não se enquadra na hipótese de cabimento de recurso especial prevista na alínea a do permissivo constitucional. II – A empresa que integra, como parceira, a cadeia de fornecimento de serviços é responsável solidária pelos danos causados ao consumidor por defeitos no serviço prestado. III – a exclusão da responsabilidade do fornecedor por ato de terceiro pressupõe a inexistência de defeito no serviço prestado. Agravo Regimental a que se nega provimento” (AgRg no AgIn nº 1.153.848/SC, 3ª Turma, j. 12.04.2011, rel.
Min. Sidnei Beneti, DJe 27.04.2011).
- Serviços médicos (cirurgias)
O STJ firmou entendimento no sentido de que a responsabilidade civil do médico é subjetiva, mesmo em se tratando de obrigação de resultado, como a cirurgia estética, mas o ônus da prova compete ao prestador de serviço médico e não ao consumidor paciente. Nesse sentido: REsp nº 1.180.815/MG, 3ª Turma, j. 19.08.2010, rel. Min. Nancy Andrighi, DJe
26.08.2010; AgRg no AgIn nº 1.269.116/RJ, 2ª Turma, j. 06.04.2010, rel. Min.
Castro Meira, DJe 14.04.2010; REsp nº 236.708/MG, 4ª Turma, j. 10.02.2009, rel. Min. Carlos Fernando Mathias (juiz federal convocado do TRF-1ª Reg.), DJe 18.05.2009; REsp nº 1.051.674/RS, 3ª Turma, j. 03.02.2009, rel. Min.
Massami Uyeda, DJe 24.04.2009; REsp nº 908.359/SC, 2ª Seção, j.
27.08.2008, rel. Min. Nancy Andrighi, rel. p/ acórdão Min. João Otávio de Noronha, DJe 17.12.2008.
- Serviços hospitalares
Quanto à responsabilidade civil do hospital, a jurisprudência do STJ é pacífica no sentido de que a responsabilidade do hospital é objetiva, nos termos do art. 14 do CDC, de modo que dispensada demonstração da culpa relativamente a atos lesivos suportados pelos pacientes. Nesse sentido: REsp nº 1.184.128/MS, 3ª Turma, j. 08.06.2010, rel. Min. Sidnei Beneti, DJe 01.07.2010; AgRg no AgIn nº 1.092.134/SC, 3ª Turma, 17.02.2009, rel. Min.
Sidnei Beneti, DJe 06.03.2009.
- Ensino
O Tribunal tem entendimento no sentido de que a instituição de ensino responde pelos prejuízos experimentados pelo aluno, de ordem material e imaterial, em conformidade com a regra insculpida no art. 14 do CDC. Vejam-se os Vejam-seguintes precedentes: REsp nº 1.034.289/SP, 3ª Turma, j. 17.05.2011, rel. Min. Sidnei Beneti, DJe 06.06.2011; AgRg no AgIn nº 1.120.188/PR, 3ª Turma, j. 08.02.2011, rel. Min. Vasco Della Giustina (Desembargador convocado do TJ/RS), DJe 16.02.2011.
- Publicidade e propaganda
A responsabilidade no tocante à prestação de serviços defeituosos de publicidade e propaganda dependerá das peculiaridades do caso concreto. É o que se vê dos precedentes do Tribunal a seguir transcritos:
Responsabilidade civil. Dano moral. ‘Cartão megabônus’. Inexistência de crédito. Serviço defeituoso que não enseja dano moral. 1. Segundo as premissas fáticas dos autos, houve má prestação de serviço ao consumidor, porquanto lhe foi enviado uma espécie de cartão pré-pago (‘cartão megabônus’), com informações e propaganda que induziam a supor que se tratava de cartão de crédito. 2. Contudo, tal defeito não se afigura capaz de, por si só, ensejar reparação por dano moral, pois, muito embora possa causar incômodo à parte contratante, não repercute de forma significativa na esfera subjetiva do consumidor. 3. Por outro lado, também a tentativa de utilização do cartão como modalidade ‘a crédito’, não acarreta, em regra, vulneração à dignidade do consumidor, configurando mero dissabor a que se sujeita qualquer pessoa detentora de genuíno cartão de crédito.
Precedentes. 4. Recurso especial não provido” (REsp nº 1.151.688/RJ, 4ª Turma, j. 17.02.2011, rel. Min. Luis Felipe Salomão, DJe 22.02.2011).
Processual Civil. Civil. Recurso Especial. Prequestionamento. Publicidade enganosa por omissão. Aquisição de refrigerantes com tampinhas premiáveis. Defeitos de impressão. Informação não divulgada. Aplicação do Código de Defesa do Consumidor. Dissídio jurisprudencial. Comprovação.
Omissão. Inexistência. Embargos de declaração. Responsabilidade solidária por publicidade enganosa. Reexame fático-probatório. – O Recurso Especial carece do necessário prequestionamento quando o aresto recorrido não versa sobre a questão federal suscitada. – Há relação de consumo entre o adquirente de refrigerante cujas tampinhas contém impressões gráficas que dão direito a concorrer a prêmios e o fornecedor do produto. A ausência de informação sobre a existência de tampinhas com defeitos na impressão, capaz de retirar o direito ao prêmio, configura-se como publicidade enganosa por omissão, regida pelo Código de Defesa do Consumidor. – A comprovação do dissídio jurisprudencial exige o cotejo analítico entre os julgados tidos como divergentes e a similitude fática entre os casos confrontados. – Inexiste omissão a ser suprida por meio de embargos de declaração quando o órgão julgador pronuncia-se sobre toda a questão posta à desate, de maneira fundamentada. – É solidária a responsabilidade entre aqueles que veiculam publicidade enganosa e os que dela se aproveitam, na comercialização de seu produto. – É inviável o reexame fático-probatório em sede de Recurso especial. Recursos especiais conhecidos parcialmente e não providos” (REsp nº 327.257/SP, 3ª Turma, j.
22.06.2004, rel. Min. Nancy Andrighi, DJ 16.11.2004).
- Mensalidades escolares
O Tribunal deixou firmado, sobre a matéria, as seguintes orientações:
(a) a cobrança por serviços educacionais contratados e disponibilizados ao educando mesmo que ele não frequente as aulas é devida, não havendo que se falar em onerosidade ou abusividade e, por conseguinte, em violação do art. 51, IV e XV, do CDC; (b) o prazo prescricional para o ajuizamento da ação de cobrança de mensalidades escolares é de um ano, contado do vencimento de cada uma; (c) a Lei 9.870/99, que dispõe sobre o valor das mensalidades escolares, garante à instituição de ensino o direito de não contratar com aluno inadimplente. Todavia, se o crédito foi atingido pela prescrição, desaparece a condição de inadimplência do aluno. Desta forma, não há empecilho à renovação da matrícula em instituição de ensino superior; (d) não se permite a suspensão de provas escolares, a retenção de documentos escolares ou a aplicação de quaisquer outras penalidades pedagógicas em caso de inadimplemento. Todavia, se a situação de inadimplência perdurar por mais de 90 dias, o contratante sujeitar-se-á, no que couber, às sanções legais e administrativas, compatíveis com o Código de Defesa do Consumidor, e com os arts. 177 e 1092, ambos do Código Civil (art. 6º da Lei 9.870/99). Não obstante tais proibições, visando impedir abusos e preservar a viabilidade financeira das instituições de ensino, o legislador excluiu do direito à renovação da matrícula ou rematrícula os alunos inadimplentes; (e) é abusiva a cláusula contratual que prevê o pagamento integral da semestralidade, independentemente do número de disciplinas que o aluno irá cursar no período, devendo ser respeitada a equivalência entre a prestação cobrada do aluno e a contraprestação oferecida pela escola.
Estas conclusões foram extraídas da análise dos seguintes acórdãos:
REsp nº 726.417/RJ, 4ª Turma, j. 05.11.2009, rel. Min. João Otávio de Noronha, DJe 16.11.2009; AgRg no AgIn nº 1.049.678/SP, 3ª Turma, j.
19.03.2009, rel. Min. Sidnei Beneti, DJe 06.04.2009; REsp nº 868.253/RS, 2ª Turma, j. 14.10.2008, rel. Min. Eliana Calmon, DJe 06.11.2008; REsp nº 837.580/MG, 1ª Turma, j. 15.05.2007, rel. Min. Luiz Fux, DJ 31.05.2007; AgRg no AgIn nº 930.156/MG, 4ª Turma, j. 23.03.2010, rel. Min. Luis Felipe Salomão, DJe 12.04.2010).