• Nenhum resultado encontrado

3.6 KANT E A “VIRADA COPERNICANA” DA MORAL

3.6.1 A lei moral e o dever

A compreensão do pensamento moral de Kant depende da identificação de duas rupturas importantes. Duas rupturas que fazem do seu pensamento um pensamento revolucionário. E essas duas rupturas correspondem ao que havia de mais importante até Kant, pois antes da moral Kantiana o mundo ocidental formou dois grandes modelos de pensamento moral, dois grandes paradigmas: a moral grega e a moral cristã. Não conseguiremos entender Kant se não entendermos contra quem ele está falando, contra quem ele aponta suas flechas.

Kant ao escrever, é a impressão de fundo que temos, se dirige à Aristóteles.

Por isso, a concepção de ruptura é importante quando falamos da ética e da moral de Kant. Resumidamente teríamos primeiro que apontar o principal traço da filosofia aristotélica, onde partiríamos de uma certeza que o universo é ordenado, cósmico e finito e nesse universo ordenado a ordem vem do pressuposto de que “cada coisa tem uma finalidade”, ou “a razão de ser das coisas está na sua finalidade”, e a sua finalidade os gregos chamavam de telos, como já vimos. Como exemplo, se queremos saber o porquê que existe vento no mundo, ele existe para refrescar, ou seja, a causa está na finalidade. Existe portanto uma explicação causal finalista. Nós enquanto

seres humanos somos parte desse Universo e portanto, somos explicados a partir da nossa finalidade. A partir dai fazemos a grande pergunta do pensamento aristotélico, que é a pergunta da ética no seu sentido mais amplo: o que a vida tem que ter para ser boa?, pois a ética é a avaliação do “pacote” da vida, para Aristóteles. A resposta será clara: a vida será boa quando o ser humano cumpriu plenamente a sua finalidade cósmica, ou seja, foi “vento que ventou”.

Obviamente surge a pergunta de todo ser humano: como eu posso saber qual é a minha finalidade? Aristóteles vai responder: dado que na natureza não tem nada inútil, porque tudo tem uma finalidade, nada melhor do que o ser humano se conhecer bem, porque se identificar os atributos, fica fácil saber para que eles servem, e se encontrará a finalidade, e assim encontra o lugar natural dentro do cosmos. Aqui entendemos a frase de Sócrates “conhece-te a ti mesmo”, que nada mais é que conhecer os atributos individuais. Mas, quais são os atributos que importam?

Aristóteles chamará de virtudes e basta você observar as suas virtudes e olhando elas se descobrirá qual a finalidade; e a resposta da minha finalidade está nas minhas virtudes. Então, como consequência, não se vive bem se não se identificar as virtudes;

não conseguirá viver bem se não colocar as virtudes a serviço da vida; não se viverá bem se não colocar as virtudes a serviço dos talentos. Então qual é a vida boa? É aquela que se consegue colocar as virtudes a serviço do vida. E se não conseguir identificar as virtudes? Então a vida terá sido fracassada, e não importa o que se faça, pois espera-se que se desenvolva a virtude conforme a finalidade. Pode ter matado a fome do mundo, mas não era isso que era para fazer, já que a finalidade seria ser um engenheiro; não cumpriu-se a finalidade.

Aqui convém lembrar que para o grego, a dignidade moral é viver bem. É preciso entender que há uma coincidência entre a dignidade moral e o pleno desenvolvimento das virtudes e isso significa que o fato de o ser humano não desenvolver as suas virtudes é um grave atentado contra a humanidade, um erro moral e uma indignidade moral. Para exemplificar imaginemos alguém que rouba um seu semelhante; isso do ponto de vista nosso é inaceitável, é imoral, então há uma avaliação negativa da conduta de quem roubou, em função do que se fez para outro.

Tente achar em Aristóteles a palavra “outro” e não se encontrará, pois não é essa a preocupação do Estagerita; para este você está cometendo uma imoralidade quando se erra contra o Cosmos, não com o outro; e isso acontece quando não se faz o que

era para ser feito. O que se tinha que fazer? Desenvolver os talentos. Então esse é o pacote grego, a dignidade moral coincide com o desenvolvimento das virtudes.

E por que isso nos parece estranho? Porque fomos formados num pensamento moderno e muitos são kantianos sem saber. Por quê? Porque o que é óbvio para nossos tempos, foi o que Kant propôs. A primeira ideia que destacamos de Kant é que não é a virtude e nem o talento natural, não é o desenvolvimento do talento natural que faz a dignidade moral de alguém.

Para Kant dá para viver de forma digna e moralmente, sem desenvolver os próprios talentos e sem buscar o pleno desenvolvimento desses talentos, pois esse não é um requisito importante para a dignidade moral do ser humano. Para o filósofo alemão o ser humano é permeado pelos desejos e apetites e a moral é justamente essa capacidade que a razão tem para se opor a esses desejos a apetites quando eles direcionam o ser humano para o lado que não é devido. É o que chamamos de

“virada copernicana” de Kant, quando parte da fixação da natureza, pelos gregos, para o sujeito humano na modernidade. Kant vai dizer que o que confere dignidade moral ao ser humano é a “boa vontade”. O que isso significa? Que todo talento natural poderá estar a serviço do bem e do mal, e não são intrinsicamente nem bons e nem maus, em outras palavras, se se quer discutir a dignidade moral de alguém, avaliando os seus talentos não é o melhor caminho. O caminho moderno para analisar a dignidade moral de alguém é analisar a ideia de boa vontade.

O que kant quer dizer? Ele afirma que a inteligência não é boa em si, a beleza não é boa em si, a capacidade de abstração não é boa em si, etc, e nada é bom em si mesmo. Por quê? Porque tudo isso pode ser usado para fabricar a bomba atômica, para a construção de armamentos, etc, com a finalidade de guerras. Para Kant o que vai importar é a maneira como vai se destinar os talentos, e isto vai depender da decisão humana. O coração da dignidade moral está numa decisão pessoal sobre o que fazer com os recursos naturais que cada um adquire e é esta decisão que configura a dignidade moral que se dá para a existência humana.