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Fotografia 20: O boneco falante desperta o desejo

3 A LEITURA E SEUS SENTIDOS: FIOS ENTRETECIDOS

Iniciemos nossa reflexão a partir da importância da linguagem para a atribuição de sentidos para a realidade. Yunes (2005) ressalta que os sujeitos estão inseridos na linguagem desde sua chegada ao mundo. Esta condição de introdução na linguagem cria uma sujeição dos indivíduos à ela, aos seus modos de produção e diferentes interpretações, às intencionalidades dos discursos vinculadas às diferentes lugares sociais das quais ele é proferido, e os valores e discursos anteriores aos quais ele se vincula. Esta percepção da linguagem e de seus sentidos é condição para a reflexão sobre a leitura, interpretação e sentido.

Sigamos: cada uma e toda forma de linguagem consiste em sistema de correspondências definidas na cultura de um povo, entre as representações que ele faz do mundo e seu uso nas relações de tempo/espaço: em outras palavras, é a linguagem que cria o mundo. (YUNES, 2005, p. 16, grifo da autora)

Neste segmento, a autora demonstra a função da linguagem na racionalização da realidade que nos cerca, o que possibilita o nosso entendimento de mundo. A linguagem não é natural, intrínseco da fisiologia humana. Ela decorre da vida em sociedade, e da necessidade de interação que ela produz. Por isso a linguagem é uma construção social, coletiva, exercida culturalmente e historicamente por cada povo, a partir de suas tradições e convenções. É por meio da linguagem que o mundo nos é apresentado, nominado, explicado. Também é pela linguagem que os valores, as crenças as tradições, as memórias e experiências de cada coletividade são transmitidas e compartilhadas. Esta construção simbólica da linguagem se dá tanto pela oralidade, quanto pela escrita, pela filosofia, etc. (YUNES, 2005). Sendo assim, as referências simbólicas e semânticas do leitor estão mergulhadas nas linguagens de sua cultura e tempo histórico.

Falantes e leitores, somos “forçados” a enxergar através das configurações das línguas. Isto não significa que o mundo material não exista ou não subsista sem nossa presença. Apenas, o que ele é, aquilo a que chamamos realidade, em verdade, corresponde ao sentido que lhe atribuímos: quer dizer, o mundo assim é, se nos parece. (YUNES, 2005, p. 17, grifo da autora).

Porém, somos participantes de uma cultura grafocêntrica. Nela, a escrita geralmente é entendida como uma evolução qualitativa dos modos de comunicação e memorização humanas, tendo uma influência fundamental na produção do

conhecimento e do pensamento racional, superando, assim, as práticas e superstições das transmissões de conhecimento da tradição oral.

Os valores atribuídos à tecnologia da escrita também refletem sobre o juízo que se faz da leitura pelo senso comum. As justificativas para a importância desta comumente estão relacionadas àquela. A leitura seria a forma de apropriar-se dos conhecimentos contidos nos registros da língua (HOURELLOU-LAFARGE; SEGRÉ, 2010): o legado humano para a sua posteridade, necessário para a contínua construção do conhecimento. De modo bem amplo, para o senso comum e dentro de alguns discursos acadêmicos que percebem a leitura como meio de promover a alfabetização e, consequentemente, a educação, podemos perceber que a relação entre leitura e escrita é entendida como consequência e causa, respectivamente, não tendo como dissociá-las ou prescindir de uma pela outra.

Mas qual seria, então, a relação mantida entre os conceitos de leitura e escrita?

Yunes (2005) nomeia como ilusão a ideia da escrita anteceder à leitura. Esta já estava presente nas interações do homem com o mundo desde a pré-história, onde os desenhos das cavernas demonstram a narratividade do olhar desses homens para o seu ambiente, sua vida e os seus desafios cotidianos, indicando uma leitura anterior do seu meio ambiente e de cada um desses momentos.

Yunes (2005) relata que, antes do registro pela escrita, as experiências e conhecimentos eram conservados na oralidade, onde a interpretação do mundo se dava através da simultaneidade entre gesto e palavra, a partir dos significados construídos para o que era visto e vivido. A introdução de uma nova forma de registro, com a escrita, não a extinguiu, estando a oralidade em coexistência com a escrita mesmo dentro das culturas grafocêntricas.

A partir da escrita, e apesar do salto qualitativo que ela proporcionou à humanidade, a autora aponta que “a leitura de mundo distanciou-se mais ainda do homem e alterou duplamente a linguagem” (YUNES, 2005, p. 14, grifo da autora), pois, a ausência do autor gerou a necessidade da interpretação do leitor, que fará a sua interpretação da interpretação do autor. Esta segunda observação transforma

cada vez mais o significado do enunciado, promovendo o seu afastamento da possibilidade de ser a representação do real, com um sentido fixo e invariável.

Transferindo-se para a escrita, a leitura do mundo distanciou-se mais ainda do homem e alterou duplamente a linguagem, como se aquela ocorresse agora, através de uma lupa interposta entre o homem e o universo, capaz de modificar as “formas” e, com elas, os “objetos”. A língua que já traduzia o mundo pelo que o olho “via”, e não pelo que existia, passa a depender de uma segunda modalização – a do relato escrito – para apresentar/representar o mundo “lido”. (YUNES, 2005, p. 14)

Outra questão que envolve a escrita está em sua compreensão enquanto tecnologia do saber, da comunicação e da memória. Platão apresenta a opinião de Sócrates sobre esta função dada à escrita, demonstrando que ela pode provocar o esquecimento ao invés da lembrança, a partir da liberação da memória orgânica de lembrar-se, demandando grande confiança (e pouca crítica) sobre o escrito. (PLATÃO, 1950 apud HOURELLOU-LAFARGE; SEGRÉ, 2010).

Não há, com isso, uma preponderância da oralidade sobre a escrita (ou vice- versa). Cada uma traz consigo suas contribuições para a comunicação humana. Mas, sendo a informação registrada na escrita a matéria-prima do trabalho do bibliotecário, é necessário examinar a capacidade de comunicação destes documentos e as variáveis implicadas em seu uso para podermos pensar epistemológica e empiricamente a sua representação, recuperação e principalmente o seu uso através da ação da biblioteca escolar.

Partindo então da leitura como um conceito distinto e independente do conceito de escrita, cabe-nos perguntar: o que é leitura?

Um fator complicador no estudo da leitura é a pluralidade de acepções atribuídas a este conceito e, consequentemente, a pluralidade de discursos que se formam em torno de cada uma delas. Orlandi (1988) nos apresenta diversos sentidos para definir leitura, desde uma concepção mais ampla sobre o conceito – à qual define como “atribuição de sentidos” (1988, p. 7) – até entendimentos mais restritos, como o atribuído no contexto escolar, que vincula leitura à alfabetização (aprendizado da codificação e decodificação da língua). Esquematizamos abaixo as acepções para leitura apontadas pela autora.

Esquema 1: Diferentes acepções para leitura

Esquema 1: Esquema baseado nas diversas acepções de leitura, apresentados no livro de E.