Leitura Em sua ascepção mais
5 EDUCAÇÃO INFANTIL E BIBLIOTECA ESCOLAR: UMA RELAÇÃO EM CONSTRUÇÃO
5.2 A CRIANÇA DA CRECHE UFF E SUA RELAÇÃO COM A BFP
Uma das primeiras preocupações que tive quando comecei a trabalhar na BFP foi com relação ao interesse das crianças por este espaço. Na verdade me preocupava em como fazer para manter o interesse das crianças no uso da biblioteca.
Com o tempo, pelas observações e pelas reflexões realizadas em equipe, na BFP, foi possível identificar que a frequência das crianças à biblioteca dependia de diversos fatores, entre os quais: se haviam combinado com as educadoras de sala, se tinham conseguido fazer novas amizades em seu grupo, da descoberta de novas atividades que despertavam o seu interesse, dos usos que conseguiam fazer do espaço da biblioteca para a realização de atividades de seus interesses. Este último fator é de especial importância porque, além de ser mais diretamente relacionado à biblioteca, demonstra, também, uma dinâmica: mudança.
Sim, pudemos perceber que os interesses das crianças mudam e muito. E esta mudança de interesse acompanha a mudança dos usos que as crianças fazem das leituras em suas vidas. A observação desta relação tem indicado uma abertura para
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A recomendação sobre a não antecipação de conteúdos do ensino fundamental para a Educação Infantil consta na apresentação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, p. 7.
a manutenção do gosto e do interesse por ler nas crianças, tendo como consequência a deflagração do processo de apropriação da língua escrita.
Uma criança que sempre visitava as princesas dos contos de fadas na biblioteca, deixou de visitá-las. Queria estar na biblioteca para desenhar. Para cada desenho que fazia queria o seu nome escrito, e solicitava que um adulto o fizesse. Com o dedinho em riste, ia identificando cada letrinha de seu nome, com a ajuda do adulto. Passou a buscar pelos livros de letras, formas, números, palavras.
Então passou a nos procurar porque desejava escrever. Oferecemos papel e lápis de cor e ela pediu também o lápis de grafite. Começou por escrever o próprio nome. Depois tentou escrever outras palavras. Parava para pensar (em voz alta) nos sons das palavras e tentava reproduzi-los em sua escrita, pois já conhecia o alfabeto. Deixávamos que ela escrevesse como julgasse correto, sem tentar corrigi- la, pois não queríamos incorrer em uma atitude de antecipação dos conteúdos do ensino fundamental. Mas quando perguntava para alguém da equipe como se escrevia uma palavra, apresentávamos a grafia à criança. Desde então, seu primeiro interesse na biblioteca não era mais ler, apesar de, por vezes, parar para ouvir uma história que estava sendo lida para outra criança, e de levar livros para a casa frequentemente. Mas a biblioteca passou a ser, para ela, lugar de escrever. E escreveu tanto que produziu alguns livros, aos quais, no final, pedia para alguém da equipe grampear as folhas, colocar a bolinha, da mesma forma que nos outros livros da biblioteca (pois nossa classificação é por cores), e doou alguns desses livros para a BFP. Em um deles, intitulado “Ô que eu faso” [sic] (O que eu faço), em uma das páginas, ela menciona o que faz na biblioteca.
Figura 1: Capa de livro escrito por criança na BFP
Figura 1: Texto da capa do livro: (O que eu faço. Cecília Paz) (Fonte: Biblioteca Flor de Papel)
Figura 2: Livro escrito por criança na BFP
Figura 2: Texto da página: (Eu tomo um copo de leite e vou para Creche UFF).
Figura 3: Livro escrito por criança na BFP
Figura 3: Texto da página: (Depois da Creche UFF - é claro vou para casa e tomo banho depois brinco e depois durmo)
Figura 4: Livro escrito por criança na BFP
Figura 4: Texto da página: (Nos finais de semana brinco na minha prima de dois anos). (Fonte: Biblioteca Flor de Papel)
Figura 5: Livro escrito por criança na BFP
Figura 5: Texto da página: (e brinco com meu tio de sete anos). (Fonte: Biblioteca Flor de Papel).
Figura 6: Livro escrito por criança na BFP
Figura 7: Livro escrito por criança na BFP
Figura 7: texto da página: (Vou à biblioteca na Creche UFF para fazer livros). (Fonte: Biblioteca Flor de Papel).
Figura 8: Livro escrito por criança na BFP
Figura 9: Livro escrito por criança na BFP
Figura 10: Livro escrito por criança na BFP
As crianças também procuram a biblioteca como lugar de brincar. Brincam com os livros-brinquedo, brincam com os que não são livros-brinquedo. Adoram usar os livros de capa dura, abertos, sobre uma cadeira e fingir que estão escrevendo, trabalhando, estudando. Empilham os livros ou os espalham por cima da mesa, no chão ou pelos bancos, e fingem que estão em uma livraria, na escola, na banca de jornal.
A brincadeira na biblioteca tem sido observada com bastante cuidado, visto ser a linguagem, por excelência, das crianças e o eixo norteador da proposta educativa da Creche UFF. A observação das brincadeiras tem ajudado a entender como as crianças têm apreendido e interpretado o mundo, e também a identificar os seus interesses. Mas tem levantado questões a respeito da legitimidade de tais comportamentos e de sua tolerância no espaço da biblioteca. Estas questões emergem tanto por parte dos educadores quanto da equipe da biblioteca.
Certamente estas não são as únicas práticas de brincadeira que as crianças tentam desenvolver na biblioteca, mas tem sido as que têm gerado reflexões sobre sua relação com a percepção da biblioteca, da leitura e da escrita que as crianças estão construindo e manifestando em suas brincadeiras, motivo pelo qual justificaria que acontecessem em seu espaço.
Fotografia 28: Brincadeira na biblioteca
Figura 28: As crianças preparam sua brincadeira preferida com os livros de capa dura. Neste momento eles servem de lap top. (Fonte: Biblioteca Flor de Papel).
Fotografia 29: Crianças brincam na BFP
Figura 29: As crianças fingindo escrever no teclado de um computador. (Fonte: Biblioteca Flor de Papel).
Na próxima seção, apresentaremos o papel do bibliotecário enquanto mediador de leituras e a importância desta função.