3 PESSOA E LIBERDADE
3.3 A LIBERDADE COMO PURO INÍCIO
A liberdade apresenta-se ao homem em duas faces, a saber, como puro início e como escolha. Por um lado, não se experimenta a liberdade senão com um ato da própria liberdade. “A liberdade nasce de si mesma, afirma a si mesma, realiza a si mesma. É uma criação de si através de si” (PAREYSON, 1995, p. 32). Por outro, a liberdade apenas é possível como escolha pela liberdade, visto que ela jamais pode ser imposta.
O acontecimento da liberdade encontra-se presente em todas as dimensões da vida do homem. Seja no nível ontológico, ou no âmbito da temporalidade e historicidade, ela é convocada a cada ato, a cada atitude; não há um ato sequer do homem que não seja precedido pela liberdade. Da decisão cotidiana mais prosaica à escolha fundamental de continuar sendo, não há como fugir de sua presença; a atuação da liberdade é imposta ao homem de modo peremptório.
No que se refere ao âmbito do revelativo, a questão da liberdade se insere na experiência daquilo que nos transcende no momento em que tal experiência se oferece como gratuidade, como possibilidade, mas necessita ser acolhida. Nesta aceitação do experienciar aquilo que nos ultrapassa há a atuação da liberdade, como escolha; deste modo, a abertura ao outro de si é possível, mas posso não me deixar tocar.
No pensamento de Pareyson, é importante ressaltar que, muito embora o ato da escolha esteja intimamente associado à questão da liberdade, esta escolha é já um segundo momento na atuação da liberdade, pois “a liberdade é início primeiro, puro começo. Ela se origina por si própria: o início da liberdade é a própria liberdade” (PAREYSON, 1996b, p. 82). Assim sendo, a liberdade antecede a tudo, de modo que a escolha é fruto da liberdade que a tudo antecede, até mesmo a si própria.
Deste modo, é determinante dizer que nada precede a liberdade que não ela mesma. Por conseguinte, a liberdade é anterior à não liberdade, e neste sentido somos livres até decidirmos não mais ser, e até mesmo esta escolha pela não liberdade é já um ato de liberdade. A liberdade, portanto, é anterior ao nada e ao não ser; tudo aquilo que é, o é devido à liberdade; assim, a liberdade é a escolha pelo ser, e o fato de ser já supõe a liberdade, por isto ser e liberdade coincidem.
Mas, se ela é seu próprio início, e justamente por isto, a liberdade é ao mesmo tempo início e escolha, como ela pode ser simultaneamente início e escolha se nada a precede? Ela é,
precisamente, escolha de ser liberdade através de um ato da própria liberdade, pois apenas ela a precede. Neste caso não há espaço entre início e escolha; se ela é, é porque decidiu ser, mas esta decisão decorre infinitamente do desejo de continuar sendo, de modo que a liberdade é continuamente escolha de ser; a liberdade não cessa de ser escolha, ao mesmo tempo que é sempre início.
Este acontecimento do dado da liberdade já instaura, instantaneamente, a decisão entre as alternativas do acolhimento ou recusa; a liberdade tem sempre a possibilidade de sair do não-ser ou nele permanecer, podendo afirmar a si própria ou recair no nada. “Como puro início, a liberdade é um tal começo que não cessa de começar; mas o início, assim concebido, é já uma escolha, enquanto a liberdade poderia não começar, isto é, não sair do não ser” (PAREYSON, 1996b, p. 83). De todo modo, sem a liberdade, nada é, de forma que até mesmo o não ser apenas é possível ser pensado após a atuação da liberdade. Se a liberdade se nega, e torna-se assim não ser, o não ser foi instaurado nesta escolha, não antecedendo à liberdade mesma. Este é um jogo cíclico que nos remete sempre à liberdade como primeiro início, reafirmando que nada a antecede.
É desta forma que a escolha pela liberdade se revela intrínseca à sua condição de liberdade enquanto tal. A liberdade, no próprio ato em que começa, se desdobra, mostrando ser liberdade somente como escolha e decisão de uma alternativa. A liberdade é, portanto, em si mesma, “dúplice, vacilante, ambígua, e essa sua intrínseca dissociação se explica como uma contraposição de dois termos: positividade e negatividade, liberdade positiva e liberdade negativa, liberdade que se afirma e se confirma e liberdade que se renega e se destrói. (PAREYSON, 1996b, p. 83). É por esta razão que liberdade não é tal sem a possibilidade de negação, que é também ato de escolha.
Pareyson, ainda, posiciona a escolha pela liberdade em paridade com a escolha pelo bem, porque este, de igual modo, apenas pode ser autêntico se resultante da liberdade. Assim sendo, a falta da liberdade assemelha-se ao mal. Contudo, não é o caso de reduzir o mal e o nada à simples negação, reduzindo assim o seu valor à mera passividade.
Ao contrário, o simples ato da negação origina uma negatividade ativa. A liberdade tem a potência de criar ou destruir, ser ou não ser; ela é “ao mesmo tempo energia benéfica e criadora e força letal e destrutiva, incremento ontológico que enriquece a realidade e turbina aniquiladora que atravessa e devasta o universo; é fresco ímpeto luminoso de vida e funesto impulso sombrio de morte” (PAREYSON, 1996b, p. 84). Este, portanto, é o vínculo originário entre a verdade e o nada; a liberdade apenas é enquanto possibilidade concreta também do não ser, do nada.
Não é o ser que está em contato com o nada: o contato verdadeiramente originário é aquele entre o nada e a liberdade. Onde se apresenta o problema do nada, ali está a liberdade, e inversamente. O contato com o nada não qualifica apenas a liberdade negativa, mas a liberdade em si mesma como escolha. A liberdade só pode ser positiva se conheceu a negação e a derrotou, apresentando-se como vitória sobre o nada e sobre o mal (PAREYSON, 1996b, p. 84).
A liberdade desponta como puro início num ato absoluto e arbitrário, mas é, ao mesmo tempo, também escolha. Pareyson considera que este é o caráter de indiferença da liberdade, posto que, para a liberdade em si, tanto faz a eleição de uma alternativa ou outra, desde que a escolha esteja presente. Neste sentido o conteúdo é de fato irrelevante, o que deve ser levado em conta, no exercício da liberdade, é a livre hipótese da escolha. A liberdade deve ser de um tal modo que tem de “proceder a uma afirmação de si ou uma negação de si; uma igual possibilidade de fidelidade ou traição; uma igual possibilidade de escolher o ser ou o não ser, o bem e o mal” (PAREYSON, 1995, p. 45).
Este agir define a liberdade como ilimitada e arbitrária, daí a inseparabilidade de ser concomitantemente puro início e escolha, e, neste sentido, passividade e atividade conjuntamente.
A liberdade, como puro início, irrompe em um ato instantâneo, como criação de si para si mesma, surgindo como a negação do não ser; mas no instante mesmo deste acontecimento é aberta novamente a possibilidade deste não ser, como possibilidade dada pela própria natureza da liberdade. Deste modo, o irromper da liberdade é a afirmação do ser, e, portanto, a negação do não ser; contudo, é de igual modo a abertura para uma nova possibilidade do não ser. Na afirmação maior de seu ser faz-se presente a possibilidade máxima do não ser, “a afirmação se faz negação, ou mesmo auto destruição” (PAREYSON, 1995, p. 46).