3 PESSOA E LIBERDADE
3.9 O PROBLEMA DO MAL EM DEUS
Ser e nada são indissociáveis e pertencentes um ao outro, assim como bem e mal. Há, sim, a positividade originária, porém a positividade tem de ser afirmada e confirmada através do ato da escolha que a liberdade proporciona e exige, posto que ser implica vitória sobre o nada, o bem vitória sobre o mal.
Esta impossibilidade de dissociação entre os opostos encontra-se presente até mesmo em Deus: “Como liberdade, Deus é o ser que escolheu ser, e portanto é vitória sobre o nada, e
ainda contém esta possibilidade; é escolha do bem, e assim é vitória sobre o mal, e também contém esta possibilidade. (...). Deus contém, portanto, em si, como hipótese ab aeterno recebida e superada, o nada e o mal” (PAREYSON, 1995, p. 176).
Na escolha do bem a liberdade originária é assegurada e vivificada como liberdade positiva; a positividade originária, que é liberdade, se atualiza e torna-se o bem escolhido, que genuinamente, é a única possibilidade do bem autêntico.
O verdadeiro ser é apenas aquele escolhido frente ao nada; o bem autêntico é somente a eleição frente a possibilidade do mal. A liberdade escolhe e realiza o ser e o bem somente em presença da possibilidade negativa de ambos, e por isto é correto afirmar que há a presença do negativo no positivo, e este tom é a exigência da verdadeira liberdade.
Contudo, do mesmo modo em que podemos afirmar a negatividade do positivo, o oposto é também verdadeiro, pois a liberdade não cessa de afirmar-se mesmo quando se confirma como negativa. Como vimos, a liberdade, quando se afirma, o faz sobretudo como liberdade, o que supõe também a condição de uma negativa de si mesma. Mas esta possibilidade de negar-se é um ato de liberdade, o que denota a positividade mesmo na negatividade, no negar-se, todavia, se afirma. “A positividade brilha também no frenesi da traição e na fúria da destruição” (PAREYSON, 1995, p. 264).
Assim, nem a liberdade nem tampouco a positividade são marcadas pela inocência, se entendermos inocência como ignorância do mal. A negatividade é fundamental para que bem e ser ganhem força e autenticidade. O homem nasce livre para escolher, e esta escolha exige a não ingenuidade e a não inocência. O nada, como possibilidade sempre passível de atualização, é essencial à realização do ser.
O bem necessita do mal para ser verdadeiramente bem; o mal, por sua vez, não é frágil, débil, fruto de mera capitulação, mas é, sobretudo, ímpeto, desejo, vigor, escolha e veemência. A liberdade negativa não é fruto de privação ou inércia, mas é energia ativa. O mal é fruto de uma escolha frente a presença do bem.
A mesma energia move o bem e o mal, o ser e o nada, que é a liberdade. A duplicidade da liberdade afirma a inseparabilidade dos opostos em toda ação do homem e a constante mútua referência entre negativo e positivo.
Mas como é possível pensar o mal em Deus? Em verdade, o mal em Deus é um mal apenas como possibilidade; é o mal nunca atualizado. Porém, na escolha de ser, tem de haver o não ser; deste modo, o mal em Deus “é um episódio da sua origem e um episódio do seu advento, porque nasce naquele ato intemporal, no qual a liberdade originária só afirma a si própria derrotando a possibilidade alternativa do nada” (PAREYSON, 1996b, p. 85).
Sob este aspecto, o mal em Deus, apesar do estranhamento da afirmação, é uma afirmação concreta, entendida como possibilidade. Porém, neste caso, o mal não se realizou; apenas se apresentou, mas não se fez presente. “Foi Deus quem instituiu o mal, no sentido que, no ato de se originar, transformou o inerte e vazio não-ser inicial naquele nada ativo que é o mal, e é portanto ele que, em certo sentido, o introduz no universo, onde primeiro não existia” (PAREYSON, 1996b, p. 85). Em Deus, em verdade, “o mal já nasce vencido, e é instituído não como real, mas como apenas possível” (PAREYSON, 1996b, p. 85).
Por este motivo, “dizer que Deus é cruel é uma blasfêmia, se não se disser ao mesmo tempo que ele é misericordioso, mas afirmar que Deus é misericordioso é uma frivolidade se não se afirmar conjuntamente que ele é cruel” (PAREYSON, 1995, p. 226). Tudo o que podemos dizer da divindade é falsificado se não estiver nesta dialética. Mas dialética, contudo, não em termos de conciliação, mediação ou superação, mas dialética que permanece na tensão e co-possibilidade dos contrários.
Assim sendo, mal e Deus possuem um vínculo originário, e se co-pertencem, posto que é impensável Deus sem a escolha eterna pelo bem, o que supõe a recusa pelo mal. Porque o mal não é a simples ausência do bem, como vimos, mas o mal mesmo; ele é uma opção tanto quanto o bem. Deus, no momento em que se afirma como bem, inaugura a possibilidade do mal, e esta é a única forma do bem existir.
Mal e Deus, neste sentido, não só não se excluem como se reclamam reciprocamente. Assim, “Não há indício mais seguro da divindade que a realidade mesma do mal; a experiência do mal é o melhor acesso a Deus” (PAREYSON, 1995, p. 227). Deus é necessário ao mal duplamente; ele é o objeto de negação e transgressão, mas é também a redenção necessária ao mal. Se por um lado o mal á a recusa de Deus, por outro a experiência profunda do negativo pode ainda ser a abertura a Deus.
Nesta compreensão, Deus é a vitória sobre o nada e sobre o mal; é positividade originária sobre a potência da negação.
Deus origina a si mesmo e se coloca como positividade originária. Nas trevas imemoriais, de improviso um clarão se acende: é uma vontade que quer se afirmar e o consegue. (...). Nada é tão dramático como o ato com o qual Deus origina a si próprio, porque é uma luta entre a vontade e o desejo de Deus de se afirmar e existir e o perigo de que vençam o nada e o mal. (...) ou a liberdade positiva ou o triunfo da negação, ou a vitória sobre o mal ou a vitória do mal, ou a existência de Deus ou o ‘nada eterno’. Dizer ‘Deus existe’ não significa senão dizer: ‘foi escolhido o bem’ (PAREYSON, 1996b, p. 84-85).
Neste sentido, afirmamos que o mal é contemporâneo de Deus, na dinâmica que Deus é a vitória sobre a possibilidade do nada e do mal. Deus teve de qualquer maneira conhecer
possibilidade do negativo. Apenas na possibilidade do negativo pôde escolher pelo positivo. “Precisamente porque ele quer ser, deve vencer a negatividade, o mal e o nada, que são o perigo da sua inexistência” (PAREYSON, 1996b, p. 85).
É assim que Deus, na ontologia da liberdade, é compreendido como liberdade; porém, não como possuidor da liberdade, mas como ser que é a liberdade mesma. Contudo, Deus é ao mesmo tempo liberdade enquanto tal e escolha pela liberdade, pois esta é a dinâmica própria da positividade originária. A liberdade é por si mesma ambígua, portanto, “não é que o bem preexista à escolha ou subsista fora da liberdade” (PAREYSON, 1995, p. 177), pois ele é escolhido frente a possibilidade real da liberdade negativa, e esta ambiguidade termina por se fazer presente até mesmo em Deus.
Mas Deus é a escolha eterna do bem, que se dá através de um ato de liberdade originária e absoluta, uma liberdade ilimitada e primária, entendida como início eterno, e intraduzível em termos lógicos e conceituais. Deus apenas é Deus porque é vitória sobre o nada e o mal, e isto supõe um Deus anterior a Deus, e é apenas assim, nesta anterioridade divina, que pode existir o mal e o nada como possibilidade. Assim, de modo simbólico, é possível “considerar o negativo como o passado mesmo de Deus, (...), como a zona imemorável do abismo divino, a camada mais arcaica e profunda da antiguidade de Deus e o seu lado mais recôndito e obscuro” (PAREYSON, 1995, p. 179).
Vale aqui ressaltar que a ambiguidade divina nada mais é que a própria duplicidade da liberdade. Esta dialética originária repercute na realidade existencial do homem, e é o que possibilita a escolha pelo mal, que no homem, diferente de Deus, pode ser atualizado.
Contudo, esta questão do mal em Deus termina por ser ainda mais complexa, para além da ambiguidade própria da liberdade, em função do caráter incompreensível que envolve a escolha do mal. Porque muito embora o mal seja uma escolha possível, o bem não o pode compreender, posto que ele não possui algo que o fundamente, “porque o mal não possui outro fundamento que o mal mesmo” (PAREYSON, 1995, p. 180). Assim, para Pareyson, o mal é inexplicável através da razão, pois não há razão que o justifique; o mal não é passível de caber em um conceito.
É por este motivo que esta ambígua presença do mal em Deus nos causa, simultaneamente, angústia e tranquilidade. O aspecto angustiante se deve ao anúncio abissal do mal como possibilidade, que pode ser concretamente realizada no homem. Contudo, embora frente à possibilidade da escolha pela liberdade negativa, o homem pode vencer este aspecto trágico dado pela liberdade e optar pelo bem. A incontestável realidade inicial que é
dada pela liberdade abandona o homem ao peso da escolha, mas, isto superado, também o permite abrir-se ao ser, à verdade, ao bem.
Sendo Deus a origem do mal, ele não é, contudo, seu autor. A autoria do mal cabe exclusivamente ao homem em sua atuação histórica. Como liberdade e abismo, Deus é anterior a qualquer fundamento, e precisamente por isto é que Deus pode ser origem do mal sem ser seu autor. Assim, através do abismo da liberdade, Deus não origina somente o bem, mas também o mal, porém apenas como possibilidade de afirmação do bem.
O mal, que no homem pode ser realizado e atualizado, é um prolongamento da ambiguidade divina. A bem dizer, Deus, enquanto liberdade, permite ao homem o mal como opção, para que o bem seja autêntico e verdadeiro, visto que ele mesmo instaurou esta possibilidade em sua afirmação pelo bem e pelo ser. Apenas frente ao mal o bem é bem; esta condição abissal da liberdade permite o êxito ou a derrota do ser, como vimos, mas apenas assim podemos obter de fato a liberdade, o ser e o bem.
O homem, frente à liberdade, pode transpor o mal de mera possibilidade a uma efetiva realidade, e esta é sua trágica condição no mundo. A existência humana é exercício constante da liberdade, sendo o ápice deste existir a confirmação do bem ou a escolha pelo mal, ou, de igual modo, a abertura ao ser ou renúncia à verdade originária, a afirmação da liberdade ou seu aniquilamento. “Esta é a tragédia do homem: ele é imerso no negativo, autor do mal e sujeito a dor, marcado pela culpa e destinado ao sofrimento universal” (PAREYSON, 1995, p. 194).
Todavia, o importante é destacar que o mal não é exclusividade do homem; ele é também originário, ontológico e eterno. “O mal preexiste à atividade humana; o homem o realiza porque ele é já anterior” (PAREYSON, 1995, p. 217). A possibilidade abissal divina encontra realidade no homem, mas oferecer a opção do mal é a única possibilidade do bem. “É angustiante que a liberdade não possa afirmar-se se não com o ato com o qual pode negar- se, que possa ser positiva somente podendo ser também negativa, que possa ser fonte da mais alta criatividade e da mais letal força destrutiva” (PAREYSON, 1995, p. 217). A escolha eterna divina do bem não descarta o mal; o conserva como possibilidade, ainda que eternamente inatual.
Assim como a liberdade apenas é escolha e realização do bem quando em presença da possibilidade de escolha e preferência pelo mal e pelo nada, o mal também surge em Deus, mas como possibilidade não atualizada e não realizada. No homem, entretanto, o mal pode se atualizar. Mas quando o homem opta, num ato de liberdade, pelo mal, ele não o inventa, mas
sim o atualiza, visto que ele é sempre uma escolha possível. O homem é apenas o responsável pelo mal, não o seu criador.
Deste modo, Deus também nasce fruto de uma vontade, de escolha e de liberdade; esta anterioridade do próprio Deus, como um passado originário, tem um caráter abissal e ao mesmo tempo de fundamento originário porque a sombra do nada se instaura no instante mesmo em que Deus decide ser. Esta característica vertiginosa da liberdade presente até mesmo em Deus se aproxima de algum modo da noção kantiana de sublime, pois o sublime também possui a ambiguidade de ser um sentimento dado tanto pelo belo e pelo bem quanto pelo mal radical, no “ponto de encontro com a transcendência e com o abismo da origem da liberdade” (MARZANO, 1994, p. 49).