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2 DA VINCULAÇÃO ENTRE PROPRIEDADE E LIBERDADE NA FORMAÇÃO DO CAPITALISMO: O PENSAMENTO LIBERAL DOS SÉCULOS XVII A XIX

2.3 A “LIBERDADE DOS MODERNOS” DE BENJAMIN CONSTANT

Outra mediação revelante para a compreensão do perfil da liberdade privada no século XIX – e, nessa medida, para identificar os caracteres da autonomia privada nesse momento histórico – é o pensamento de Benjamin Constant.

Integrante do pensamento Liberal oitocentista, apresenta em comum com Locke e Stuart Mill o apreço pela liberdade negativa e pela restrição ao poder do Estado frente aos particulares.

Se Locke, Smith e os fisiocratas permitem compreender o que reside na origem do pensamento que informa o Code e as demais codificações que se seguiram a ele, Mill e, aqui, Constant, propiciam uma compreensão sobre o desenvolvimento da doutrina Liberal oitocentista, e de sua relevância da interpretação dessas codificações.

222 HALPÉRIN, Jean-Louis. Le Code Civil. 2e ed. Paris: Daloz, 2004, p.

A análise do conhecido discurso de Benjamin Constant223 sobre “a liberdade dos antigos” e “a liberdade dos modernos” é reveladora da consolidação, no plano ideológico, de um dado perfil da liberdade individual como elemento compreensivo dotado de inequívoca centralidade na formação do Direito Civil Moderno.

Além da vinculação da liberdade dos Modernos ao âmbito das relações econômicas, o discurso expõe a clivagem entre o que no capítulo 1 se denominou de liberdade positiva e de liberdade negativa, marcando os lugares de cada uma delas (respectivamente, o espaço público e o espaço privado).

De um lado, pois, as liberdades públicas, que se exercem na ágora, de outro, as liberdade privadas, que se exercem na propriedade, no exercício do comércio, do trabalho ou, pode-se dizer, no contrato.

A liberdade “dos antigos” diz respeito à participação ativa e constante no poder coletivo, ao passo que a liberdade “dos modernos” é atinente “à fruição pacífica da independência privada” – independência que é uma garantida do indivíduo frente ao poder.224

Segundo Constant, citado por Stephen Holmes, os “antigos, por seu caráter”, tinham a necessidade de “ação”, e esta se conciliava bem com uma grande extensão de autoridade social. Os “modernos, a seu turno, teriam necessidade de tranqüilidade (repos) e de deleite, ou gozo (jouissances). A primeira seria assegurada por um “pequeno número de leis que garantam que ela não será perturbada”; o segundo, diz respeito a uma grande liberdade individual. Assim, a legislação que viesse a prejudicar esse gozo de liberdade individual, impondo a ela sacrifícios, seria incompatível com o “estado atual da espécie humana”.225

Evidencia-se, aí, uma consolidação da idéia de separação entre público e privado, tão marcante na Modernidade. O espaço privado é o espaço da liberdade dos modernos, definida em termos negativos como uma liberdade que se exerce nos limites da lei – e que deve reservar espaço amplo a esse exercício.

223 CONSTANT, Benjamin. De la liberté des anciens comparée a celle des modernes. In:

Cours de Politique Constitucionnelle. Tome II. Paris : Guillaumin, 1872.

224 CONSTANT, Benjamin. De la liberté des anciens comparée a celle des modernes. In:

Cours de Politique Constitucionnelle. Tome II. Paris : Guillaumin, 1872, 542.

225 HOLMES, Stephen. Benjamin Constant et la genèse du Libéralisme Moderne. Paris:

PUF, 1994, p.46.

O espaço público é o espaço da deliberação pública, por meio do qual emerge a relevância da liberdade positiva. Esta seria a liberdade dos antigos. A realização individual se dava no debate na ágora, na vivência da política. A liberdade Moderna, a seu turno, seria exercida e compreendida, sobretudo, na esfera privada.

Pode-se, é certo, realizar uma leitura do pensamento de Constant à luz de uma preocupação centrada no papel da democracia representativa. Afinal, uma das preocupações de Constant é precisamente demonstrar a inviabilidade da democracia como proposta por Rousseau, com a prevalência de uma liberdade pública à moda da “liberdade dos antigos”.226

As exigências modernas não permitem ao homem a atuação permanente no debate público, embora ele também seja reputado como relevante pelo autor.

O lugar da liberdade se desloca do público para o privado, sendo, por isso, relevante a figura da representação para que o cidadão possa ter o tempo necessário para se ocupar de sua liberdade “moderna”, situada em seu espaço privado. Ao contrário do que ocorria na antiguidade, o indivíduo, no âmbito de um país, exerce apenas uma imperceptível influência pessoal na vontade social que imprime a direção do governo. Além disso, prossegue o autor, o fim da escravidão não mais permite que exista o tempo livre para que cada indivíduo tome seu lugar na praça pública para deliberar. Mais: o comércio, que se sobrepõe, na atividade dos modernos, à guerra, não traz intervalos de inatividade.227 Sobretudo, afirma Constant que:

Le commerce inspire aux hommes un vif amour pour l’indepéndence individuelle. Le commerce subvient à leurs besoins, satisfait à leurs désirs, sans l’intervention de l’autorité. Cette intérvention est presque toujours, et je ne sais pourquoi je dis presque, cette intervention est toujours un déragement et un gêne. Toutes les fois que le pouvoir collectif veut se mêler des speculations particulières, il vexe les spéculateurs. Toutes les fois que les gouvernements prétendent faire nous affaires, ils les font plus mal et plus dispendieusement que nous.228

226 Nesse sentido, HOLMES, Stephen. Benjamin Constant et la genèse du Libéralisme Moderne. Paris: PUF, 1994, p. 129.

227 CONSTANT, Benjamin. De la liberté des anciens comparée a celle des modernes. In:

Cours de Politique Constitucionnelle. Tome II. Paris : Guillaumin, 1872, p. 545.

228 CONSTANT, Benjamin. De la liberté des anciens comparée a celle des modernes. In:

Cours de Politique Constitucionnelle. Tome II. Paris : Guillaumin, 1872, p. 546.

Em outras palavras, o lugar privilegiado da liberdade individual entre os modernos é a atividade econômica (e, nessa medida, a propriedade), que, ao mesmo tempo, inspira o apreço por essa mesma liberdade, que deve ser a mais ampla, com mínima intervenção do Estado.

Não deixa Constant, todavia, em outro texto, de enfatizar a relevância da propriedade também para o exercício das liberdades públicas, afirmando que

“somente a propriedade assegura o ócio necessário à capacitação do homem para o exercício dos direitos políticos”229. Tem, porém, concepção sobre a propriedade que é reveladora, de uma lado, de sua importância no pensamento liberal para definir limites ao poder estatal – e, nessa medida, no maior espaço de liberdade negativa – e, de outro, de uma superação das compreensões jusnaturalistas. Entendia, como explica Stephen Holmes, que a propriedade não antecede a sociedade, sendo uma criação da vida social, que encontra sua justificativa nos benefícios que ela proporciona, mas que sua abolição seria fonte de penúria.230

Além disso, no plano político, os direitos do proprietário encontrariam fundamento na medida em que impõem uma barreira contra certas formas de governar, uma vez que se os governantes são obrigados a respeitar a propriedade, não poderão se comportar como “predadores vorazes”.231

Destaca-se, assim, uma via de mão dupla que é reveladora de aspectos centrais no pensamento do autor. A liberdade de maior destaque é aquela exercida nos negócios privados, como liberdade negativa circunscrita e protegida pela lei (liberdade negativa, portanto), sem descurar da liberdade positiva, que, a seu turno, é exercida primordialmente por meio da representação.

Não seria absurdo supor, todavia, que os representantes devam ser aqueles que têm o gozo do “ócio necessário” para se ocuparem da esfera pública, ou seja, aqueles que são proprietários.

229 CONSTANT, Henri Benjamin. Princípios Políticos Constitucionais. (tradução Maria do Céu Carvalho), Rio de Janeiro: Liber Juris, 1989, p. 118.

230 HOLMES, Stephen. Benjamin Constant et la genèse du Libéralisme Moderne. Paris:

PUF, 1994, p. 98-99.

231 HOLMES, Stephen. Benjamin Constant et la genèse du Libéralisme Moderne. Paris:

PUF, 1994, p. 97.

A propriedade se revela, assim, simultaneamente, o elemento central do espaço privado, onde se exerce a liberdade dos “modernos” e a condição para o exercício da liberdade “dos antigos” (liberdade positiva).

Eis o que pode ser reputado como fundante do pensamento liberal de Constant – liberdade nas relações privadas, democracia representativa quando se trata do espaço público, e exercício de liberdade positiva, neste último espaço, diretamente exercida por quem já é proprietário. É deste o gozo, ao fim e ao cabo, da liberdade dúplice, “dos antigos” e “dos modernos”.

É necessário ressaltar que segundo o citado Stephen Holmes, Constant não reduz a liberdade dos modernos exclusivamente ao direito de disposição sobre os bens, sendo esta uma entre as liberdades relevantes. Afirma que se estamos convencidos da utilidade desse direito, isso se dá em virtude de mudanças irreversíveis ocorridas na estrutura econômica – que podem ser reputadas como estímulo indispensável à liberdade moderna. 232

Ocorre que, dentre as liberdades privadas, o que prevalecerá no tocante ao Direito Civil é precisamente essa liberdade privada situada no patrimônio, sobretudo no que se refere ao seu respectivo trânsito jurídico, como se examinará no capítulo seguinte.

Trata-se o pensamento de Constant, portanto, de fonte emblemática para a compreensão da leitura que o Code receberá nas décadas seguintes – e, a rigor, da ideologia predominante entre os que ocupavam lugares de poder (político e econômico) àquela época -, e que apreende a liberdade na clivagem entre o público e o privado, vincula a liberdade do particular à sua propriedade e a define na perspectiva de uma ausência de coerção – e, portanto, de uma liberdade negativa.

Por evidente que, à luz dessa ordem de idéias, o espaço privado não poderia ser pensado como vinculado à liberdade positiva. Ele acaba por ser definido na relação dicotômica que separa as esferas pública e privada, já constituída sobre uma base teórica que supera o jusnaturalismo setecentista e sedimenta os alicerces para a construção de um modelo político e jurídico que marca o século XIX.

A garantia desse espaço de liberdade negativa reside, como exposto, na lei. É

232 HOLMES, Stephen. Benjamin Constant et la genèse du Libéralisme Moderne. Paris:

PUF, 1994, p. 94.

ela que assegura o gozo pacífico da liberdade individual. É a lei que, assim, protege a propriedade individual e a liberdade de comércio, lugares de onde parte e nos quais se exerce mais plenamente essa liberdade dos modernos.

Assegura-se a todos, por meio da lei, a proteção de suas propriedades e a chancela do exercício de sua liberdade econômica – aí inserta a liberdade nos contratos, como autonomia privada. Apresenta-se, pois, a garantia formal desse espaço de liberdade negativa.

Tem-se, ali, como exposto, uma liberdade tomada como abstração: a lei igual para todos os cidadãos assegura igual liberdade privada, com igual proteção à fonte primordial dessa mesma liberdade - qual seja a propriedade (daqueles que, obviamente, já são proprietários).

É esse o perfil que predominará na identificação de que liberdade se está a tratar quando da análise do Direito Civil do século XIX e início do século XX.