4 DECISÕES JUDICIAIS E A IASD
4.2 O CONFLITO DE DIREITOS E A QUESTÃO DO DIA DE GUARDA
4.2.2 Conflito de direitos e o acesso a cargos públicos
4.2.2.3 A liberdade religiosa e outros diretos constitucionais
É um desafio para os juízes decidir qual direito tem primazia sobre os demais, ou que conjunto de direitos terá prioridade sobre o outro. Por exemplo, para o desembargador Rebouças de Carvalho, em um conflito entre a liberdade religiosa e a autonomia administrativa comungado com o da isonomia e da supremacia do interesse público, a autonomia administrativa prevalece sobre a liberdade religiosa (2010d).
O desembargador Wellington Pacheco entendeu que provas em horário especial criam um conflito entre autonomia administrativa e a liberdade religiosa. Ele decidiu pela predominância da primeira, pois junto com ela estariam a isonomia, a soberania do edital e a “impossibilidade de ser movida toda uma máquina administrativa a fim de aplicar a prova do concurso em horário diverso” (RIO GRANDE DO SUL, 2007). No Paraná, a relatora Maria Aparecida Blanco de Lima entendeu que as aulas do curso de guarda municipal não poderiam acontecer em horário diverso do marcado, que era no sábado. Ela viu nesta situação um conflito de direitos entre a liberdade religiosa e a “legalidade, a igualdade e isonomia,” dando prevalência aos últimos (PARANÁ, 2010).
Contudo, nem todos os magistrados concordam com a ideia de que na questão do dia de guarda e o acesso a cargos públicos há um conflito desfavorável à liberdade religiosa. Para o desembargador Dimas Macaretti a prestação alternativa no concurso público compatibiliza a liberdade de crença, o direito de acesso à função pública e respeita a isonomia (SÃO PAULO, 2000). No Rio Grande do Sul, a desembargadora Matilde Chabar Maia, ao julgar o pedido de um adventista que concorria à vaga de professor de língua estrangeira para realizar a prova fora do horário sabático, entendeu que a concessão deste pedido “harmoniza o princípio de igualdade, que rege o concurso público, com a liberdade de crença” (RIO GRANDE DO SUL, 2004).
Alguns ainda colocam a liberdade religiosa como um dos pilares da democracia. Em Minas Gerais o desembargador Belizário de Lacerda, ao analisar a questão de um adventista em um concurso público que pediu que a prova de condicionamento físico fosse feita no domingo ao invés do sábado. Citando a procuradoria de justiça disse:
Nesse sentido, deve-se ressaltar que, alçada a direito fundamental, centra- se a liberdade religiosa em um dos pilares do Estado Democrático de Direito, não podendo os cidadãos serem privados de qualquer conduta acaso venham ser tolhidos na efetivação de tais garantias. Ademais, como todo princípio fundamental, é imperioso que a liberdade de crença seja exaustivamente levada a efeito, o que não ocorreria, à evidência, se o impetrante fosse forçado a prestar o exame físico no sábado. Dia este exatamente em que sua religião - Adventista - prega ser um dia de descanso, de reverência (MINAS GERAIS, 2008a).
Muitos dos que entendem que outros direitos fundamentais devem ter preferência sobre a liberdade de religião entendem que a liberdade de religião é um
direito que deve ser exercido no particular e não no público. Creem que o Estado deve ter conduta negativa,81 mas não deve ter uma conduta positiva.82 Por exemplo, para o desembargador Edson Ferreira, a liberdade de culto, crença ou religião assegurada constitucionalmente, não obriga a outrem providência qualquer de adaptação ou de acomodação às crenças alheias (SÃO PAULO, 2009a).
O desembargador Rowilson Texeira ao julgar um pedido de adventistas para que o exame psicológico do concurso para polícia militar de Rondônia fosse realizado fora das horas do sábado. Afirmou que a proteção à liberdade religiosa é apenas para a escolha e prática da religião, não tendo objetivo de criar “regras especiais que permitam ao seu praticante esquivar-se ao cumprimento de dever comum aos outros,” especialmente as de edital (RONDÔNIA, 2007b).
Este pensamento pode ser visto também em uma decisão do STF, do ministro Gilmar Mendes onde ele afirma que:
Por evidente, se a agravada entende que não deve praticar qualquer ato no período matutino dos sábados, em virtude de convicção religiosa, nenhuma lei estará legitimada a impor tal obrigação enquanto situado no âmbito de sua vida privada. Todavia, no momento em que pretenda exercer cargos, funções e empregos públicos, bem como participar de procedimentos seletivos para o respectivo acesso, não pode pretender que a Administração se amolde à sua crença religiosa.
Esta decisão se tornou uma jurisprudência, sendo usada por alguns julgadores como o desembargador Laerte Sampaio (SÃO PAULO, 2006a) e o desembargador Rebouças de Carvalho (2010d). Todavia, nem todos os juízes seguem este pensamento. Por exemplo, em Minas Gerais, a juíza relatora Ana Maria Espí Cavalcanti, ao julgar a lide de uma adventista que havia sido dispensada pela MGS-Minas Gerais Administração e Serviços S.A. por causa da guarda do sábado, decidiu a favor da adventista,83 afirmando que a constituição procura resguardar os que são religiosos de obstáculos que os impeçam de praticar os seus deveres com sua religião. Logo, para a magistrada o Estado deve ter tanto uma conduta negativa como uma conduta positiva nas questões sobre liberdade religiosa (MINAS GERAIS, 2005a).
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Não intervir na esfera privada.
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Criar garantias no espaço público para que as peculiaridades dos religiosos sejam garantidas neste espaço.
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Esta decisão além de garantir o retorno da adventista a seu posto de trabalho ainda garantiu o pagamento dos salários vencidos e a vencer até a sua efetiva reintegração.
Voltando à questão da jurisprudência, há também jurisprudência favorável aos adventistas, como a decisão do ministro Marco Aurélio que autorizou a realização de uma prova em horário diverso do designado para um adventista, ficando este incomunicável até o final da prova (BRASIL, 2002). Esta diversidade de jurisprudências foi observada pelo desembargador Arquilau Melo, ao julgar o pedido de um adventista que participava de um concurso público para soldado da polícia militar, sendo ao final favorável ao adventista (ACRE, 2010).
Outra situação interessante é a que envolve as leis estaduais e municipais que proíbem concursos públicos aos sábados. Em Minas Gerais, o desembargador Dárcio Lopardi Mendes, ao julgar um pedido para abono de faltas ao curso de guarda municipal,84 decidiu baseado na lei municipal de Juiz de Fora nº 10.128/02,85 que as faltas do candidato adventista no sábado fossem abonadas (MINAS GERAIS, 2008b). Em Sergipe, o desembargador José Alves Neto deu decisão favorável ao candidato adventista que pleiteava o direito de participar de concurso público em horário e data diverso do sábado, baseado no art. 281 da constituição estadual, que proíbe a realização de concursos públicos e vestibulares aos sábados, apesar de não concordar com o direito de prestação alternativa para os adventistas, pois para ele esta prestação “feriria o princípio de igualdade” (SERGIPE, 2005).
Ao analisarmos estas decisões e seus pareceres, podemos observar como é difícil decidir quando dois ou mais direitos constitucionais estão em conflito. Em situações como estas o juiz deverá seguir o principio da proporcionalidade, analisando as vantagens e desvantagens que aquela decisão trará, ou seja, verificar se a decisão dada sacrificou direitos fundamentais mais importantes do que os preservados por ela. Neste caso a pergunta deveria ser, quão importante é a liberdade religiosa para este juiz?
O valor da liberdade religiosa em relação aos demais direitos para o juiz é que dará a ele condições de hierarquizar estes direitos e assim assegurar a liberdade religiosa ou não. E acima de tudo, o que o magistrado entende como laicidade, ou seja, a compreensão do que é um Estado laico por parte dos juízes influencia nas decisões dos mesmos. A laicidade brasileira e as decisões judiciais serão o nosso próximo tema.
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Este curso fazia parte do processo seletivo para guarda municipal.
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Que garante a não realização de processo seletivo de ingresso na administração pública municipal no período de 18 horas de sexta-feira às 08 horas de domingo.