Marleny Torres Salcedo
2 O MUNDO EM TRÂNSITO
2.1 A LINGUÍSTICA APLICADA INDISCIPLINAR (LAI)
Nos últimos anos, a pesquisa em algumas vertentes da Linguística Aplicada no Brasil passou a ser construída, devido à pluralidade de contextos de salas de aula de LE, interdisciplinarmente. Nas palavras de Moita Lopes (2006, p. 19), “isso acarretou a compreensão de que o tipo de conhecimento teórico com o qual o linguista aplicado precisaria se envolver, para tentar teoricamente entender a questão de pesquisa com que se defrontava, atravessava outras áreas do conhecimento”. Assim, a Linguística Aplicada Indisciplinar (LAI) se distancia da LA “tradicional” – área centrada nos processos de ensino-aprendizagem de línguas –, mas com forte dependência de uma disciplina “mãe”, “de referência”, a Linguística.
A partir desse entendimento, tem-se compreendido a LA não como conhecimento disciplinar, mas, sim, INdisciplinar (MOITA LOPES, 1998, 2006), transgressivo (PENNYCOOK, 2001, 2006) e crítico (RAJAGOPALAN, 2006), que propõe novas possibilidades de teorizar e fazer Linguística Aplicada. Para Schmitz (2008, [s. p.]), “os adjetivos "indisciplinar", "mestiça"
mostram uma "nova AL", um palco no qual existem atravessamentos de fronteiras disciplinares, contestação de ideologias e mistura de disciplinas e conceitos”.
Segundo Moita Lopes (2006), trata-se de uma LA indisciplinada, já que, além de estar
preocupada em dialogar com outros campos do saber, chama para o centro da teorização e da prática, os sujeitos que são, na maior parte das vezes, invisibilizados. Dessa forma, o fazer da LAI rompe com uma certa tradição científica, epistemológica e, por esse motivo, é denominado indisciplinar.
Nas palavras do autor, essa seria uma LA mestiça, que se utiliza de uma “mestiçagem”
teórico-metodológica, de natureza transdisciplinar (2006, p. 14). Para ele, uma das características principais da LA é “o envolvimento em uma reflexão contínua sobre si mesma:
um campo que se repensa insistentemente” (2006, p. 17). Sendo assim, essa seria a LA mais permeável a procedimentos da pesquisa-ação – metodologia adotada neste trabalho –, o que ficará evidente ao longo desta pesquisa.
Moita Lopes (2006) argumenta em favor de uma LA que tenha algo a dizer à vida social contemporânea e aponta como um grande desafio do nosso tempo “produzir conhecimento que, ao compreender as contingências do mundo em que vivemos, possibilite criar alternativas sociais para aqueles que sofrem às margens da sociedade” (2006, p. 30). Nós nos alinhamos a essa perspectiva na medida em que buscamos, através das reflexões propostas nesta tese, compreender o contexto de reinserção universitária de migrantes e refugiados na UFPR e formular políticas internas para esse público-alvo.
De acordo com Fabrício (2006, p. 29), a LA está se reformulando como uma área de
“não verdades”, com base em relações disciplinares transfronteiriças e “na compreensão de que as verdades são produzidas por agentes sociais e seus posicionamentos no mundo, sempre moventes”. A autora defende uma LA que se oriente através de uma prática autorreflexiva e política.
Corroboramos a visão de Fabrício (2006) quando ela afirma que o trabalho da LA deve ter, acima de tudo, um comprometimento político e ético com a transformação social. A pesquisadora nos convida ainda a “interrogar-nos acerca da relevância social da temática e dos objetivos gerais de nossos estudos, tendo em vista os atores sociais que vivenciam as práticas envolvidas no fenômeno a ser focalizado” (p. 59). Tal proposta nos guiou nesta pesquisa, na medida em que, desde o princípio, o objetivo central foi trazer à luz diversas vozes de atores envolvidos no Programa Reingresso, com foco especial nos alunos.
Para Moita Lopes (2006), os sujeitos marginalizados podem nos apresentar aspectos relacionados à vida social na qual estão inseridos e, a partir de suas visões, contribuir com as questões relativas às pesquisas no nosso campo de atuação. Nesse mesmo sentido, Cavalcanti (2006, p. 250) justifica ser necessário, para a pesquisa em LA, “levar em conta o ponto de vista dos atores (participantes) da pesquisa. É preciso que as vozes das minorias sejam ouvidas, é
preciso que as pesquisas sejam feitas por eles, que a voz venha deles”, como buscamos experienciar nesta tese.
Moita Lopes (2006, p. 31) assinala quatro aspectos centrais que devem constituir a LA Indisciplinar:
1. a imprescindibilidade de uma LA mestiça, que corresponde, na verdade, à mesma reestruturação interdisciplinar que está ocorrendo em outros campos do conhecimento, de modo a poder dialogar com o mundo contemporâneo;
2. uma LA que explode a relação entre teoria e prática, porque é inadequado construir teorias sem considerar as vozes daqueles que vivem as práticas sociais que queremos estudar; mesmo porque no mundo de contingências e de mudanças velozes em que vivemos a prática está adiante da teoria;
3. uma LA que redescreve o sujeito social ao compreendê-lo como heterogêneo, fragmentado e fluido, historicizando-o;
4. LA como área em que ética e poder são pilares cruciais, uma vez que não é possível relativizar todos os significados: há limites éticos que devem nos orientar.
Entre os pontos elencados pelo autor, gostaríamos de chamar a atenção, em especial, para o segundo item, visto que ele tem relação direta com esta pesquisa. No decorrer desses anos de experiência prática e também de investigação teórica, percebemos, muito rapidamente, que, no caso do ensino de línguas a migrantes e refugiados, devido à própria urgência do contexto, a prática muitas vezes veio à frente da teoria e precisa, a nosso ver, ser cada vez mais valorizada.
Partindo dessa perspectiva, Rajagopalan (2006, p. 165) argumenta que, “no campo da LA, o que falta é o reconhecimento de que é a teoria que precisa ser moldada segundo as especificidades da prática”. Para o autor, a nossa área de atuação deve interferir diretamente na prática social, “produzindo teoria que dialogue claramente com ela” (2006, p. 35). Assim, buscamos constantemente aporte teórico para as vivências em sala de aula junto aos alunos do Programa Reingresso; ao mesmo tempo, a partir de uma prática reflexiva, construímos teorias.
Moita Lopes (2006, p. 101) observa:
[...] em uma LA que quer falar à vida contemporânea é essencial, não a teorização elegantemente abstrata que ignora a prática, mas uma teorização em que teoria e prática sejam conjuntamente consideradas em uma formulação do conhecimento na qual a teorização pode ser muito mais um trabalho de bricolagem, tendo em vista a multiplicidade dos contextos sociais e daqueles que os vivem.
Nesse sentido, consideramos neste trabalho também o “pensar com as mãos”, uma vez que estamos ligados a uma atividade produtiva em constante revisão teórica. No nosso caso em particular, os alunos estão produzindo um novo saber em conjunto com os professores: trata-se de um trabalho em grupo, na busca de uma relação de horizontalidade.
Para concluir, acreditamos que apenas uma Linguística Aplicada radicalmente preocupada com a vida social e com as mudanças políticas e sociais do mundo contemporâneo possa apresentar respostas possíveis em relação à problemática do ensinar/aprender línguas dentro desse novo ambiente de ensino. Assim, apoiamo-nos na visão de Moita Lopes (2006), visto que, para dar conta da complexidade apresentada, é necessário, a nosso ver, trabalhar, primeiramente, na direção de uma prática autorreflexiva, em constante reformulação e que almeje ainda transpor as fronteiras existentes entre as disciplinas. Isso porque, ao ensinar a língua portuguesa nesse contexto, como ficará evidente ao longo desta tese, teremos que inevitavelmente atravessar outras áreas do conhecimento, produzindo, na visão de Signorini (1998, p. 13), “configurações teórico-metodológicas próprias, isto é, não coincidentes e nem redutíveis às contribuições das disciplinas de referência”.
Desse modo, conforme aponta Paulo Freire (1970), conhecer a realidade e transformá-la são trabalhos distintos. Partindo dessa perspectiva, assumimos que esta pesquisa possa ter um poder transformador na sociedade, já que se propõe a buscar soluções para problemas sociais concretos, a modificar a realidade do seu entorno e a colaborar na construção de novas políticas de acolhimento, teorias e metodologias para o contexto de ensino-aprendizagem de Português como Língua de Acolhimento para migrantes e refugiados na UFPR.