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A LINGUAGEM COMO SIGNO EMOCIONAL DOS SENTIMENTOS

6. (RE)PENSANDO O ESPAÇO E A GEOGRAFIA DAS EMOÇÕES À LUZ DE ERNST CASSIRER

6.5 A LINGUAGEM COMO SIGNO EMOCIONAL DOS SENTIMENTOS

Para compreender o mundo expressivo, Cassirer aponta a forma simbólica da linguagem como possibilidade de mediação, já que junto ao mito ela é considerada forma subjetiva primária. O que nos interessa aqui, além disso, é a afirmação do filósofo de que a linguagem funciona como intermediação de termos espaciais. Cassirer (2001 [1923]) discorre sobre a linguagem na fase da expressão sensível, expressão intuitiva e da expressão da reflexão conceitual.

A linguagem em Cassirer é discutida não como obra, mas como atividade (energia). É essencialmente diálogo e debate, sendo o traço essencial desta definição a intersubjetividade.

Baseado na discussão de Friedrich Humboldt (1767-1835), Cassirer apresenta a linguagem como o organon par excellence para criar o mundo (SYLLA, 2017).

Esse entendimento sobre a linguagem é o que sustenta nosso interesse em trabalhar com narrativas de história de vida. Compreendendo a linguagem como fundamento para criar o mundo, as narrativas são uma das possibilidades dessa estruturação, que para a nossa análise vai além de um recurso metodológico, mas é a possibilidade de expressão da Geografia das Emoções dos narradores.

Sendo um instrumento espiritual fundamental em que realizamos a passagem do mundo das meras sensações para o mundo da intuição e da representação, a função da linguagem é transformar impressões em representações, a transposição da subjetividade para a objetividade. Nesse sentido, a linguagem como tal é “representação”, sendo a exposição de uma determinada “significação” através de um “signo” sensível (CASSIRER, 2001 [1923]).

Por conseguinte, “longe de ser apenas uma cópia do mundo dado das sensações ou intuições, possui um determinado caráter independente que consiste em ‘atribuir sentido’”

(CASSIRER, 2001 [1923], p. 65). Para o filósofo, sentido e sensibilidade estão intimamente ligados.

Os conceitos linguísticos e a universalidade das leis científicas, por conseguinte, caminham em direções opostas e expressam direções distintas da formação intelectual. A função da representação da língua e a função de significação do conhecimento científico contêm em si formas distintas de atribuição de sentido. No entanto, de acordo com o filósofo, o conhecimento conceitual e a língua estão primeiramente a serviço da objetivação teórica pura: elas constroem o mundo do logos como um logos pensado e falado.

De acordo com Cassirer (2011 [1929], p. 133) “Somente no meio da língua, a infinita, diversificada e flutuante multiformidade das experiências expressivas começa a se fixar;

somente na língua essa multiformidade conquista ‘forma e nome’”. Por essa lógica, estamos rodeados pelo mundo de sons e temos a necessidade de assimilar e elaborar o mundo dos objetos.

É possível afirmar que as relações espaciais estão ligadas às palavras concretas, nas quais a significação espacial é sensível-material. A significação espacial a qual nos propomos a debater é permeada pelo viés emocional. A condição humana de sentir emoções e poder experienciá-las na sua relação com os lugares (o mundo dos objetos) possibilita mergulhar nessa esfera do sensível e pensar o espaço geográfico para além da sua condição material.

O som, na reflexão sobre a linguagem, além de formar um fonema, também se torna a expressão das mais sutis diferenças do pensamento e do sentimento. Nesse ponto que a discussão nos interessa, pois, fazendo parte também do mundo expressivo, a linguagem possui uma relevante relação com o mundo afetivo-emotivo.

A linguagem não é o produto de uma mera convenção, de uma lei ou de um acordo arbitrários, mas, pelo contrário, tão necessária e natural quanto a própria sensação imediata. Assim como ver e ouvir, os sentimentos de prazer ou de dor fazem parte do homem desde as suas origens, o mesmo ocorre com as exteriorizações das nossas sensações e dos nossos sentimentos. Assim como as emoções dos seres humanos eram diversificadas, mudavam em virtude da variedade de sua organização física e de acordo com as diferenças espirituais e étnicas, assim também surgiram, necessariamente, sons variados que só progressivamente foram reduzidos a tipos mais gerais de palavras e linguagens, visando à simplificação e à compreensão mútua (CASSIRER, 2001 [1923], p. 128).

A fala não é um fenômeno simples e uniforme, mas composta por diversas camadas, sendo a primeira delas a linguagem das emoções. Grande parte da expressão humana pertence a essa camada e “A diferença entre a linguagem proposicional e a linguagem emocional é a verdadeira fronteira entre o mundo humano e o mundo animal” (CASSIRER, 2012, [1944] p.

55), porque enquanto os animais possuem uma imaginação e inteligências práticas, apenas o ser humano possui uma imaginação e uma inteligência simbólica.

Sobre a relação linguagem e emoção, Cassirer aponta que as teorias filosóficas da Antiguidade já “sabiam que a linguagem deriva das emoções, [...] do sentimento, do prazer e do desprazer”, e que “Demócrito foi o primeiro a propor que a fala humana tem origem em certos sons de caráter meramente emocional”. A trajetória da linguagem “não constitui apenas um signo representativo de ideias, mas também um signo emocional dos sentimentos e dos instintos sexuais” (CASSIRER, 2001 [1923], p. 127).

Quase todas as palavras foram derivadas de coisas naturais (sons da natureza) e de impressões sensoriais e de sentimentos (sons emocionais, que constituíam a expressão imediata de uma emoção, uma exclamação de dor ou de prazer, de alegria ou tristeza, de espanto ou de pavor). Portanto, a construção de um sistema linguístico partiu inicialmente da relação expressiva com o mundo, isto é, a partir da dimensão sensível, para depois ser pensada a partir de uma lógica racional.

Assim, a linguagem é tanto uma percepção imediata (agregada à sensação), e, portanto, se insere em uma relação com as formas espaço e tempo, mas também produto de uma reflexão, isto é, um produto do espírito. Em vista disso, no som se expressam tanto a dinâmica do sentimento quanto do pensamento (CASSIRER, 2001 [1923]).

Os nomes não servem para expressar a natureza das coisas. Não têm quaisquer correlatos objetivos. Sua verdadeira tarefa não é descrever as coisas, mas despertar emoções humanas; não transmitir meras ideias ou pensamentos, mas incitar os homens a certas ações (CASSIRER, 2012 [1944], p. 189).

Em sua análise, as expressões humanas são uma expressão involuntária de sentimentos, interjeições e exclamações, e uma palavra não poderia significar uma coisa se não houvesse pelo menos uma identidade parcial entre palavra e significado. Assim, a linguagem não é algo pronto, pois nós a construímos e a imbuímos de significado, em que ela possibilita a expressão dos nossos pensamentos. A linguagem vincula-se à dinâmica da fala e essa, por sua vez, à dinâmica dos sentimentos e da emoção.

A linguagem foi com frequência identificada à razão, ou à própria fonte da razão. Mas é fácil perceber que essa definição não consegue cobrir todo o campo. É uma pars pro toto; oferece-nos uma parte pelo todo. Isso porque, lado a lado com a linguagem conceitual, existe uma linguagem emocional; lado a lado com a linguagem científica ou lógica, existe uma linguagem da imaginação poética. Primariamente, a linguagem

não exprime pensamentos ou ideias, mas sentimentos e afetos (CASSIRER, 2012 [1944], p. 49).

A linguagem é tão necessária e natural quanto a própria sensação imediata. Tal como o “ver” ou o “ouvir”, os sentimentos de prazer ou de dor acompanham o ser humano desde as suas origens, bem como as exteriorizações das nossas sensações e dos nossos sentimentos.

Assim, nem a descarga da emoção e nem a repetição de estímulos sonoros objetivos

“representam, por si, o sentido e a forma característicos da linguagem: estes somente surgem quando as duas extremidades se unem, produzindo, assim, uma nova "síntese" de “eu” e

“mundo”, que não existia anteriormente (CASSIRER, 2001 [1923], p. 42).

As palavras são signos das ideias, símbolo e o reflexo da mesma vida divina que nos rodeia em toda parte, visível-invisível. As relações espaciais estão ligadas às palavras concretas, em que “A representação de um objeto espacial concreto domina a expressão das relações espaciais” (CASSIRER, 2001 [1923], p.224).

Na consideração da linguagem com a questão espacial, as palavras que se relacionam às expressões de orientação espacial, como “adiante” e “atrás”, “em cima” e “em baixo”, “aqui”

e “lá” são retiradas da intuição do próprio corpo. Por esse ângulo, linguagem, espaço e corpo estão entrelaçadas, e, por conseguinte, a questão emocional, isto é, o mundo expressivo, possibilita essas relações, que se desdobram na riqueza de formações linguístico-intelectuais.

A linguagem, logo, conforma espacialidades. Nas narrativas é comum o uso de expressões “lá”, “aqui”, por exemplo. Assim, a própria narrativa gera espacialidades, presentes tanto no ato de narrar quanto nas memórias relembradas a partir das narrativas. Então, a forma simbólica da linguagem “realiza a transcendência da individuação da percepção sensível do mundo para o sentido das representações e a necessária universalidade que se apresenta nesse campo” (GIL FILHO, 2010, p. 3).

Na relação da língua com o espaço, a linguagem possibilita a mudança do espaço expressivo para o espaço representativo. Nesse sentido, “A intuição do espaço, na forma como ela é elaborada e estabelecida pela língua, é a marca mais clara dessa dualidade peculiar [entre o eu e o mundo]” (CASSIRER, 2011 [1929], p. 258).

A linguagem, nas suas designações de conteúdos e relações espaciais, possui tal esquema, com o qual ela precisa, necessariamente, relacionar todas as representações intelectuais, para, assim, torná-las apreensíveis e representáveis pelos sentidos. É como se todas as relações intelectuais e ideais somente pudessem ser apreendidas pela consciência linguística no momento em que a linguagem as projeta no espaço e nela as “copia” analogicamente. É somente através das relações de simultaneidade,

justaposição e separação que a referida consciência linguística adquire os meios para representar as mais diversas conexões, dependências e oposições qualitativas (CASSIRER, 2001 [1923], p. 212).

Quando um conteúdo é determinado espacialmente, ele adquire a sua forma de ser própria, sendo que a designação concreta do lugar e do espaço, a diferenciação exata das posições e das distâncias espaciais, serve de base na estruturação da linguagem para construir a realidade objetiva e determinar os objetos, bem como fundamenta a diferenciação dos conteúdos (do eu, do tu e do ele).

Sobre essa trissecção (eu, tu e ele), “Em formações desta natureza evidencia-se de imediato como a linguagem, por assim dizer, traça um círculo sensível-espiritual ao redor do locutor, e como ela destina o centro do mesmo ao ‘eu’, e a periferia ao ‘tu’ e ao ‘ele’”

(CASSIRER, 2001 [1923], p. 236).

Essa trissecção, em sua análise, possibilita compreender que na relação da linguagem com o espaço não só a base material (isto é, propriamente física) dos lugares é relevante, mas também se faz necessário o conteúdo subjetivo, do eu com o mundo e do eu com os outros sujeitos. Assim, a relação espacial situa-se tanto na esfera do material quanto do imaterial.

A partir das contribuições de Friedrich Humboldt, que afirma que pronomes pessoais em algumas línguas remontam a palavras de significação e de origem espaciais, Cassirer (2001 [1923], p. 232) salienta que “É como se a intuição da atividade propriamente dita não pudesse desprender-se da do estar aí puramente espacial, como se, de certa maneira, ainda permanecesse aprisionada nela”.

Em suma, a linguagem na filosofia das formas simbólicas além de sua ligação espacial, também a interpretamos do ponto de vista do conteúdo emocional. Essa análise faz parte da escolha por trabalhar com narrativas, nos fornecendo subsídios para interpretar essas narrativas a partir da questão simbólica — portanto, também atenta às experiências emocionais. A linguagem permite estruturar, portanto, a Geografia das Emoções dos narradores, fundamentada também nessa trissecção eu, tu e ele, isto é, na intersubjetividade da experiência do ser simbólico no seu espaço vivenciado. O mito também contribui para essa reflexão, conforme discutiremos a seguir.