6. (RE)PENSANDO O ESPAÇO E A GEOGRAFIA DAS EMOÇÕES À LUZ DE ERNST CASSIRER
7. DAS NARRATIVAS PESSOAIS À GEOGRAFIA DAS EMOÇÕES
7.1 SOBRE NARRATIVAS: O EU, O OUTRO E O(S) NÓS
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca […].
Manoel de Barros
Contar nossas histórias de vida parece tarefa fácil, afinal, quem nos conhece mais do que nós mesmos? Para além do conhecer, é preciso ter coragem, para lembrar e para esquecer de fatos, pessoas, acontecimentos. As coisas pequenas da vida são trazidas à tona, ressignificadas com os olhos da experiência — da velhice —, em que o narrador, ao oralizar sua vida através da narrativa, cada palavra, cada gesto, cada expressão emocional sobre o que é narrado, constitui, naquele mesmo ato, um processo de reflexão: do eu, do outro e do(s) nós.
Narrador e ouvinte se entrelaçam, criam nós, tornam-se cúmplices. Aquele que narra confia ao outro sua história. Aquele que ouve, escuta essa história e tenta, também, se
compreender enquanto sujeito. A unidade simbólica desses dois sujeitos se encontra, se consolida, é de significado.
O narrador constrói o poema singular que é sua vida. É criador. É também leitor de sua própria vida. Quando compartilhados, vemos alguns laços que nos unem. Alguns movimentos da vida se encontram entre os “nós”, mas o significado que damos a cada um desses movimentos é único para cada um de nós.
Essa reflexão nos faz retomar a perspectiva de Cassirer, em que a intersubjetividade, o eu e o outro e a solidariedade são parte desse ser produtivo autoconsciente e autoconfiante. O eu se reencontrando no outro, na alteridade, em função desse processo comunicativo — a narrativa.
As narrativas de história de vida são constituídas por dois elementos que discutimos como parte do universo simbólico: o mito e a linguagem. Essas formas simbólicas são a mediação para a construção de uma narrativa. Nesse sentido, entendemos a narrativa enquanto expressão e enquanto representação. Sobre isso, Bosi (1994, p. 54) afirma:
O instrumento decisivamente socializador da memória é a linguagem. Ela reduz, unifica, aproxima no mesmo espaço histórico e cultural a imagem do sonho, a imagem lembrada e as imagens da vigília atual. Os dados coletivos que a língua sempre traz em si entram até mesmo no sonho (situação-limite da pureza individual). De resto, as imagens do sonho não são, embora pareçam, criações puramente individuais. São representações, ou símbolos, sugeridos pelas situações vividas em grupo pelo sonhador: cuidados, desejos, tensões… […]. No quadro dessas “noções gerais” que não abandonam o homem, sequer no sonho, destaquem-se as relações de espaço (aqui, aí, ali, dentro, fora, em cima, embaixo, à esquerda, à direita…), as relações de tempo (agora, já, antes, depois, sempre, nunca, ontem, hoje, amanhã…), as relações de causa e consequência (porque, para que, tal que, de modo que…). As categorias, que a linguagem atualiza, acompanham nossa vida psíquica tanto na vigília quanto no sonho.
Na vigília, de modo coeso; no sonho, de modo frouxo e amortecido, mas identificável.
Relembrar, com os olhos de hoje, sobre o passado, nos possibilita perceber que a experiência de vida faz com que os fatos sejam revistos e revisitados de outra maneira. O que se escolhe narrar, onde, como, quando, bem como aquilo que é silenciado, tem como substrato a experiência emocional do narrador e a relação que estabelece com o ouvinte. Entregamo-nos emocionalmente nesse processo, com os fatos narrados, como explicamos tais fatos, as pausas e silêncios que também fazem parte da narrativa.
Nas narrativas acreditamos que pode ser apresentada a relação entre emoção, espaço vivenciado, espacialidades, mundo simbólico, visto que os fatos lembrados e narrados são aqueles significativos e, se possuem significado, também possuem uma emoção. É uma
oportunidade de resgate, troca de experiências e saberes. Portanto, ao falar sobre narrativas estamos envolvendo espacialidades e temporalidades — o espaço vivenciado.
Entendemos que a Geografia das Emoções é, também, a própria narrativa construída pelo narrador, que se estrutura nos fatos que são significativos para ele. Essa Geografia das Emoções também surge na relação do narrador com o ouvinte. Há um processo de troca, de (com)partilhar suas histórias de vida. Às vezes, o narrador escolhe o que o ouvinte quer ouvir.
A relação de confiança que se estabelece ao longo desse processo vai fornecendo elementos que fazem da narrativa um entrelaçamento da experiência do eu, do outro e do nós: do narrador e do ouvinte.
Quando a sociedade esvazia seu tempo de experiências significativas, empurrando-o para a margem, a lembrança de tempos melhores se converte num sucedâneo da vida.
E a vida atual só parece significar se ela recolher de outra época o alento. O vínculo com outra época, a consciência de ter suportado, compreendido muita coisa, traz para o ancião alegria e uma ocasião de mostrar sua competência. Sua vida ganha uma finalidade se encontrar ouvidos atentos, ressonância (BOSI, 1996, p. 82).
Nesse sentido, a narrativa se configura como um ritual de expressão, sendo a expressão
“corresponde ao mundo da exterioridade. Exterioriza-se o que foi previamente interiorizado, o que foi intercambiado com algum outro, real ou imaginário” (CASTAÑEDA; MORALES, 2017, p. 76).
Os autores apontam a experiência vivida como central das entrevistas narrativas — é o sentido que o sujeito dá ao vivido. Por isso, a “história particular é a criação de um mito, vinculada a mitos sociais. O sujeito utiliza os mitos para explicar, orientar-se” (CASTAÑEDA;
MORALES, 2017, p. 78). Esses mitos são parte de rituais, que são evocados sobre algo que o sujeito investiu e permitiu a edificação da vida, em que o sentimental adere aos rituais através da atuação para si e para os outros.
Com isso, de acordo com os autores, há alguns elementos relevantes para pensar as narrativas. O primeiro deles é a experiência. A experiência, como unidade da vida e da qualidade do devir, é constituída pelas emoções que ocorrem na realização de um ato. A experiência permite que o conteúdo no ato transformado pela imaginação — a narrativa — adapte o novo ao velho, o que não é apenas acumulação, mas ressignificação.
A experiência transforma as reservas de memória e as atualiza no ato de criação que é a vida experimentada pelos agentes sociais. A partir dessa perspectiva, a memória não é reservatório, é atualização, recreação das relações qualitativas experimentadas
no mundo. A experiência se dá em sujeitos que possuem um corpo, condição de espacialidade. O corpo suporta e dá forma ao tipo de experiência que vivemos. A experiência não é estranha ao tipo de encaixe biológico que temos. Realizamos a experiência no mundo porque nosso corpo é capaz de expressar simbolicamente a estimulação, a percepção e as sensações que produzem nossa caminhada no mundo (CASTAÑEDA; MORALES, 2017, p. 85).
Essa experiência inclui o diálogo do eu (capacidade de criação, ação), o meu (o que os outros pensam) e eu mesmo (valorização da ação), na visão dos autores. A reflexão sobre essa relação vincula o particular ao universal e constrói uma epistemologia ligada à prática, na qual a cultura é chave central para que o sujeito reflita sobre seus atos, numa dialética de continuidade/descontinuidade que compõe a pluralidade humana.
Esses processos são parte da construção da subjetividade, que não acontece por uma única via, mas no intercâmbio com os outros, sustentado pelo imaginário e o simbólico, o externo e o interno. Os autores valorizam, ainda, o saber como produto da experiência de vida, das relações (inter) (intra) subjetivas. Pela ação, os sujeitos mobilizam os saberes encarnados na própria vida e os saberes que mediam simbolicamente e imaginariamente os papéis sociais.
Sobre isso, “Na ação o sujeito não pode separar-se das formas em que investe nos objetos, do que coloca como interesse, como intersecção do imaginário e do simbólico”
(CASTAÑEDA; MORALES, 2017, p. 88). Essa reflexão coaduna com nosso debate sobre a filosofia das formas simbólicas e a autonomia do ser simbólico em investir significado nas coisas do mundo.
A ação tem história, por isso o que se experiencia hoje é resultado da experiência de outros no passado. “É produto simbólico assim como a linguagem sedimenta variadas formas de explicar a ação; designa verbos, instrumentos e posicionamentos corporais específicos”
(CASTAÑEDA; MORALES, 2017, p. 89).
Como produto simbólico, as narrativas sempre fizeram parte da história da humanidade, sendo uma forma “artesanal de comunicação”, nos termos de Benjamin (1994), em que é possível intercambiar experiências, isto é, as narrativas possibilitam o afloramento de experiências vividas. Tal questão é possível graças ao uso da memória, que de acordo com o autor, é a “musa da narrativa”.
A partir da memória, pode-se ressignificar as experiências vividas, num diálogo entre o passado e o presente, num trajeto de idas e vindas (antes e o depois). De acordo com Benjamin (1994), às vezes não é o fato, ou o acontecimento, que chama a atenção e, sim as circunstâncias,
as sensibilidades, os espaços, os vazios, que permeiam a rememoração. São essas sensibilidades que nos interessam ao investigar a Geografia das Emoções.
A narrativa tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja em um ensinamento moral, seja em uma sugestão prática, um provérbio ou uma norma de vida — de qualquer maneira, o narrador é um ser humano que sabe dar conselhos (BENJAMIN, 1994). Para o autor, a arte da narrativa tem se tornado cada vez mais rara porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis, com a difusão da informação na contemporaneidade seria responsável por esse declínio.
Nesse sentido, acreditamos que há uma unidade simbólica entre os envolvidos nesse processo, por isso é preciso um olhar sensível sobre essa relação. Trabalhar com narrativas, em nossa reflexão, vai além de um recurso metodológico. As narrativas nos fornecem elementos para pensar uma Geografia das Emoções, dados pelos fatos narrados, pela forma como foram narrados, pela relação que estabelecemos com o narrador. Ao interpretar essas narrativas à luz de nossa reflexão teórica, que envolve o universo simbólico, estamos também construindo uma outra narrativa, com base nas relações de sentido e significado que se entrelaçam entre os envolvidos, conforme elementos construídos na figura 5.
ELABORAÇÃO: a autora (2018)
FIGURA 5 — AS NARRATIVAS E O UNIVERSO SIMBÓLICO
Portanto, salientamos que há limitações da análise dessas narrativas. Tornamo-nos cúmplices dessas histórias de vida. Assim, colocamos que a subjetividade do pesquisador e da pesquisadora também está em jogo, porque ambos não são apenas receptores de dados. As interpretações, impressões, descrições dos fatos narrados também são construídos com base na trajetória desses intelectuais, que, dessa forma, (re)interpretam e (re)ssignificam o outro.
Há, nessa troca, uma análise sobre as reações emocionais que aparecem no diálogo entre o narrador e o ouvinte: o choro, o sorriso, o olhar distante, o olhar desapontado, o olhar para baixo. Os silêncios, as pausas, as respirações profundas, os gestos dão a vivacidade dessa troca.
Reconhecemos esses elementos no corpo e na narrativa: a unidade simbólica liga o narrador e o ouvinte.
Com base na reflexão que fizemos sobre as formas simbólicas, as narrativas podem ser compreendidas a partir das explicações sobre o mito, a linguagem, a arte, a religião e a história.
“A poesia não é uma simples imitação da natureza; a história não é uma narração de fatos e acontecimentos mortos. A história, assim como a poesia, é um sistema do nosso autoconhecimento, um instrumento indispensável para construir nosso universo humano”
(CASSIRER, 2012 [1944], p. 335). Assim, podemos entender as narrativas como arte, poesia de autoconhecimento, representadas a partir da linguagem, expressadas com base no imaginário do universo mítico e, no caso da nossa pesquisa, também baseadas na experiência religiosa.
Portanto, essas formas simbólicas possibilitam entender essas narrativas em termos espaciais e temporais, atentos às emoções que amalgamam tais histórias de vida.
Nesse viés, nossa escuta está atenta aos espaços, emoções, subjetividades e sensibilidades que estão presentes na relação dos narradores com os lugares, sendo essa relação a própria construção de suas vidas e experiências. De acordo com Benjamin (1994), “metade da arte narrativa está em evitar explicações”, isso porque a narrativa possui múltiplas interpretações, tanto para o narrador quanto para ouvinte, o que revela sua amplitude, universalidade, pluralidade e, consequentemente, sua validade.
Preza-se, portanto, a espontaneidade do narrador, suas crenças e verdades, isso é, o que é real e significativo para eles. Entendemos que a espontaneidade na escolha sobre o que narrar e como narrar constitui uma relação emocional com o universo simbólico, tendo a religião como forma simbólica conformadora.
As narrativas são representações ou interpretações do mundo. Nesse sentido, não
“estão abertas a comprovação e não podem ser julgadas como verdadeiras ou falsas, pois
expressam a verdade de um ponto de vista em determinado tempo, espaço e contexto sóciohistórico” (MUYLAERT et al., 2014, p. 195).
A narrativa, portanto, pode suscitar nos ouvintes diversos estados emocionais, tem a característica de sensibilizar e fazer o ouvinte assimilar as experiências de acordo com as suas próprias, evitando explicações e abrindo-se para diferentes possibilidades de interpretação. Interpretação não no sentido lógico de analisar de fora, como observador neutro, mas interpretação que envolve a experiência do pesquisador e do pesquisado no momento da entrevista e as experiências anteriores de ambos, transcendendo-se assim o papel tradicional destinado a cada um deles (MUYLAERT et al., 2014, p. 194).
Sobre o uso de narrativas, Jovchelovitch e Bauer (2013) afirmam que contar histórias é uma forma elementar de comunicação humana e, independentemente do desempenho da linguagem, é uma capacidade universal. Na estrutura de uma narrativa o contexto é dado, os acontecimentos são sequenciais e terminam em um determinado ponto. Além disso, não é apenas uma listagem de acontecimentos, mas uma tentativa de ligá-los, tanto no tempo como na dimensão do sentido.
Para os autores, não há experiência humana que não possa ser expressa na forma de uma narrativa, sendo que através das narrativas as pessoas se lembram de acontecimentos de suas vidas, “colocam a experiência em uma sequência, encontram possíveis explicações para isso, e jogam com a cadeia de acontecimentos que constroem a vida individual e social”
(JOVCHELOVITCH; BAUER, 2013, p. 91). As colocações são indexadas no tempo e no espaço, se referem à experiência pessoal e são detalhadas com um enfoque em acontecimentos e ações.
No ato de contar histórias há duas dimensões: a cronológica (narrativa como sequência de episódios) e a não-cronológica (construção de um todo a partir de sucessivos acontecimentos ou a configuração de um “enredo”). É o enredo que dá coerência e sentido à narrativa, bem como fornece o contexto em que nós entendemos cada um dos acontecimentos, atores, descrições, objetivos, moralidade e relações que geralmente constituem a história (JOVCHELOVITCH; BAUER, 2013).
As narrativas representam fatos que, para o narrador, são relevantes e fazem parte de sua realidade e da sua construção enquanto ser. Nós somos o que vivemos, que experienciamos, o que acreditamos. No ato de narrar colocamos as múltiplas representações que temos da vida, das histórias que vivemos e dos lugares em que estivemos.
Sobre isso, Kleres (2010) discorre sobre as emoções em análises narrativas, partindo da premissa que a experiência humana tem uma dimensão narrativa. Para o autor, é preciso compreender que a natureza das emoções é narrativa e que as narrativas são emocionais. Apesar de algumas diferenças teóricas, podemos identificar uma ideia recorrente: a noção de que as emoções estão embutidas nas narrativas e são de fato apreendidas socialmente através delas.
Os elementos narrativos são materiais e significativos para o narrador e possuem um contexto espacial e temporal. Uma característica constitutiva das narrativas é a temporalidade.
O passado narrativo é indispensável para a compreensão de qualquer instância presente de emocionalidade. Em vez de se questionar sobre quais são as emoções presentes nessas narrativas, é relevante focar sobre as especificidades das situações, tais como os atores envolvidos, o cenário, as ações reais etc. Esses aspectos formam os elementos integrantes de uma emoção narrativa. Assim, se as emoções são narrativas, a experiência emocional é, então, constituída pelas circunstâncias situacionais, eventos e condições que são importantes para o sujeito emotivo (KLERES, 2010).
Lindón (2008), no âmbito da Geografia, destaca as dificuldades metodológicas em trabalhar o espaço como experiência ou vivência, visto que é necessário estudá-lo a partir da perspectiva do sujeito que o experimenta, isto é, não é possível vê-lo de fora do sujeito. Assim, o espaço não pode ser reduzido nem a uma localização, nem tampouco como produto da sociedade ou de um grupo social, produto que sempre pode ser observado e medido.
Pensar o espaço a partir da questão da experiência daria à Geografia a mudança de uma visão exocêntrica (com enfoques materialistas e externos ao sujeito-habitante) para outras,
“egocêntricas”, que partem do ponto de vista do sujeito, o que implica um desafio considerável particularmente do ponto de vista metodológico (LINDÓN, 2008).
Nessa visão “egocêntrica” é preciso encontrar um ponto médio, isto é, uma mediação que não deixe de lado a questão material do espaço, mas que não esqueça o todo não material com o qual os sujeitos dão sentido a espaço (LINDÓN, 2008).
Este planteamiento resulta pertinente para preguntarnos por la construcción social del espacio y los lugares. En esta perspectiva, el constructivismo geográfi co no representaría una mediación en el sentido más literal de la expresión, o la búsqueda del punto medio, sino la revalorización de otras dimensiones: El punto de vista del sujeto es una mirada desde adentro, o dicho de otra forma es una mirada desde la perspectiva del sujeto que habita el lugar — ya sea un habitar circunstancial o prolongado —, que es reconstruida por el geógrafo a través de la interpretación. En cierta forma podría
considerarse como una de las formas de betweenness propuestas por Entrikin (1991) (LINDÓN, 2008, p. 11)41.
Para a autora, ao olhar no espaço a imaterialidade associada ao material, têm-se o desafio no sentido de compreender a vivência espacial do outro. No entanto, temos que reconhecer que essas formas de compreensão da experiência espacial do outro sempre serão a partir do nosso lugar no mundo, o que implica um acúmulo de teorias e conceitos que criam um acervo, resultantes também de nossas próprias vivências.
Alguns questionamentos podem ser centrais para compreender essa experiência espacial do outro: Como compreender e interpretar o que o outro experimenta acerca de um lugar? Como compreender a vivência do lugar do outro? Para Lindón (2008), embora haja outras áreas de conhecimento em que a discussão do “outro” está avançada, a discussão na Geografia vai além do “outro”, mas diz respeito mais especificamente ao espaço vivido, representado, percebido ou experimentado pelo outro.
El trabajo de campo experiencial, de sesgo claramente humanista, lleva consigo la esencia de las aproximaciones cualitativas en las Ciencias Sociales: La importancia de construir el acercamiento con el otro, de permitir la empatía, aun cuando el establecimiento de estos lazos pueda prolongar los tiempos necesarios para el trabajo de campo. Y luego, una vez, tejidas esas bases interpersonales este tipo de acercamiento también reconoce la importancia de que el investigador asuma en su trabajo de campo la posibilidad de compartir experiencias no previstas con el sujeto de estudio, pero que forman parte del mundo cotidiano del sujeto (LINDÓN, 2008, p.
12)42.
Para compreender essa experiência espacial das pessoas é preciso sair da visão tradicional que “sobrevoa a superfície terrestre” e caminhar e parar nos espaços. Assim, os geógrafos e geógrafas poderiam reconstruir as espacialidades que as pessoas podem ver e sentir
41 “Esta abordagem é relevante para nos perguntar sobre a construção social do espaço e dos lugares. Nesta perspectiva, o construtivismo geográfico não representaria uma mediação no sentido mais literal da expressão, ou a busca do ponto médio, mas a reavaliação de outras dimensões: o ponto de vista do sujeito é um olhar de dentro, ou dizer de outra maneira é um olhar da perspectiva do assunto que habita o lugar – seja ele uma habitação circunstancial ou prolongada – que é reconstruída pelo geógrafo através da interpretação. De certa forma, pode ser considerado como uma das formas de intercessão propostas por Entrikin (1991)" (LINDÓN, 2008, p. 11, tradução nossa).
42 “O trabalho de campo experiente, com um viés claramente humanista, traz consigo a essência das abordagens qualitativas nas Ciências Sociais: a importância de construir a abordagem com o outro, de permitir a empatia, mesmo quando o estabelecimento desses laços pode prolongar os tempos necessário para o trabalho de campo.
E então, uma vez que essas bases interpessoais são tecidas, esse tipo de abordagem também reconhece a importância do pesquisador assumindo em seu trabalho de campo a possibilidade de compartilhar experiências imprevistas com o tema do estudo, mas que fazem parte do mundo cotidiano do assunto" (LINDON, 2008, p.12, tradução nossa).
num lugar, e não seguir limitados às concepções clássicas que são alheias às pessoas (LINDÓN, 2008).
De acordo com a autora, essa compreensão se dá a partir de metodologias qualitativas, que constituem uma janela para se aproximar dos significados que as pessoas atribuem aos lugares, às práticas espaciais, aos significados do fazer espacial das pessoas, à experiência
De acordo com a autora, essa compreensão se dá a partir de metodologias qualitativas, que constituem uma janela para se aproximar dos significados que as pessoas atribuem aos lugares, às práticas espaciais, aos significados do fazer espacial das pessoas, à experiência