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4. A LINGUAGEM COMO EXPERIÊNCIA

4.3. A linguagem e a corporeidade

Enquanto uma dimensão da experiência, assim como a linguagem não pode ser circunscrita como expressão de uma realidade interna (ou pensamento), ela não pode estar articulada a um corpo próprio, mas à corporeidade (como já definido anteriormente). De saída, todavia, é preciso destacar que as aproximações e separações entre corporeidade e linguagem não constituem uma problemática simples. Para os psicanalistas formados em uma tradição de pensamento não estruturalista, isto é, na qual a linguagem não consiste em uma estrutura propriamente dita, sua aproximação em relação ao corpo parece mais certa e evidente – ainda que bastante problemática e não claramente explícita. Na direção oposta, é preciso lembrar, conforme destaca Simanke (2007), que a linguagem quando pensada a partir da dialética hegeliana e do pensamento de Saussure, grosso modo, é entendida como uma ordem simbólica (composta de significantes e significados) que estrutura o inconsciente (enquanto uma cadeia de significantes) – o que implica uma perspectiva que separa claramente natureza e cultura. O corpo, torna-se, portanto, simbólico – sendo aquilo que remete à corporeidade não simbólica deixado para trás e retornando apenas como indizível que surge simultaneamente como resto do simbólico.

Conforme discutido anteriormente, é evidente que a linguagem limita, recorta e se articula ao silêncio; no entanto, o corpo e a linguagem nem sempre são considerados como dois polos de uma separação radical. Todavia, muito embora uma associação entre linguagem e corporeidade possa parecer evidente de uma perspectiva não estruturalista, nem sempre é fundamentada de maneira consistente e, principalmente, consensual. Isso, porque, no que

217 Gori (1997) afirma que a situação paradoxal da linguagem diz respeito a seu caráter de dupla submissão ao

corpo e ao código. Da perspectiva da experiência, todavia, com o apoio de Merleau-Ponty, corpo e código não são dimensões opostas ao ponto de criar um paradoxo.

concerne à problemática de articulação (veremos que essa palavra mesma engendra uma série de questões para a linguagem enquanto uma dimensão da experiência) entre a linguagem e o corpo, gera-se ao menos duas posições, senão opostas, ao menos contraditórias. A primeira delas218 procura afirmar a vinculação entre essas duas dimensões a partir da postulação de uma linguagem corporal não necessariamente contraposta à linguagem (verbal), mas considerada um caso particular da linguagem: o corpo fala, a linguagem gestual, a linguagem do sensível, são expressões características dessa posição. Outra forma de dar um destino para o imbricamento entre linguagem e corpo consiste no alargamento (um pouco sem bordas definidas) da noção de linguagem, tornando tudo desde o princípio linguagem – toda comunicação, seja de qual natureza for, é considerada linguística.

Ora, seguindo as coordenadas traçadas para circunscrever uma perspectiva da linguagem como uma dimensão da experiência, nenhum dos dois caminhos são satisfatórios. Isso, porque, a linguagem enquanto expressão simbólica articulada à transicionalidade, não pode não estar articulada à corporeidade (o que implicaria uma impossibilidade de falar de linguagem corporal e linguagem verbal, posto que a linguagem é corporeidade) e também não pode recobrir todas as possibilidades de comunicação, uma vez que ela mesmo reatualiza aspectos comunicativos não simbólicos. Portanto, neste contexto, encontra-se de saída um falso problema: não faz sentido pensar em uma articulação entre linguagem e corporeidade, posto que é impossível concebê-las separadamente.

Conforme já destacado anteriormente, é possível encontrar em Freud uma associação entre a percepção e representação que, em última instância, permite intuir a íntima vinculação entre a linguagem e a sensorialidade. Pode-se enfatizar a afirmação de que as representações (tanto de objeto quando de palavra – cada uma com a sua especificidade) consistem em um complexo associativo de representações heterogêneas, entre elas visuais, acústicas, táteis e cinestésicas – retomando a tão repetida máxima que afirma que uma palavra falada foi antes uma palavra ouvida. Essa perspectiva ganha ainda mais força a partir da segunda tópica na qual, conforme já discutido anteriormente, a percepção conquista um papel importante na constituição do psiquismo. De um lado, a força pulsional – que tem uma fonte corporal; do outro, as percepções, que são sensoriais. No entanto, muito embora seja necessária e, principalmente no “Projeto” (FREUD, 1950[1895]/1977f), explícita a participação do outro na

218 O intuito aqui não é explorar essas posições mais a fundo, articulando em diferentes autores suas concepções

de linguagem – isso seria um trabalho interessante mais à parte. O objetivo é tão somente comentar duas perspectivas observadas na teoria psicanalítica de modo que se possa discorrer sobre a linguagem enquanto uma dimensão da experiência.

constituição da representação e, consequentemente, da linguagem, o ponto de partida consiste no grito, no choro e na movimentação motora do bebê. Isso, porque, dessa perspectiva, é a partir das exigências da vida e da ajuda do outro que se originam as primeiras imagens acústicas e cinestésicas que vão constituir a representação de palavra. Em última instância, portanto, as palavras referem-se às sensações corporais no sentido das exigências da vida do corpo próprio do bebê que será atendido por um outro.

Diante desse quadro, muito embora o inevitável imbricamento entre corpo e linguagem esteja posto desde Freud, percebe-se que há uma articulação entre uma posição que considera a linguagem como fruto das necessidades “internas” de um corpo próprio que encontra uma ponte ou um veículo de expressão no signo fornecido pelo outro. Para conceber a linguagem como dimensão da experiência, todavia, conforme discutido ao longo deste capítulo, é preciso deslocá-la de uma perspectiva interna ou externa e, logo, de um corpo próprio – assim como a própria noção de experiência. Ela não pode, portanto, ter sua origem em uma espécie de intensão de expressão de necessidades internas, como no grito, no choro e nos movimentos do bebê.

Nesse contexto, é interessante notar que, Merleau-Ponty, principal interlocutor nas considerações sobre a linguagem (na ausência de um desenvolvimento mais extenso da noção de linguagem da perspectiva winnicottiana), designa como título de um dos capítulos de sua grande obra “Fenomenologia da percepção” (1945/2015) a seguinte afirmativa: “O corpo como expressão e fala”. Ora, o próprio título deixa claro sua tese central, a saber, que o corpo é fala. Nunca é excessivo retomar a ideia e de que não se trata aqui de um corpo próprio, mas de um corpo que está no mundo e articulado ao corpo de outros. A indissociação entre corpo, linguagem e mundo coloca-se para Merleau-Ponty a partir da noção de expressão. Isso, porque, a corporeidade sendo o eixo central da percepção, também consiste, por si só, em expressão. O que o corpo expressa é a percepção do mundo. Mas qual seria a relação entre essa dinâmica de percepção e expressão e a linguagem?

Para Merleau-Ponty, a linguagem guarda o caráter expressivo, assim como a pintura, por exemplo. Isso, porque, conforme discutido anteriormente, ela não é fruto do pensamento, mas cria o sentido no ato de expressão, articulada a uma dinâmica de sedimentação e inovação. Logo, a linguagem pode ser concebida como um aspecto possível da possibilidade de expressão intrínseca à corporeidade – que se dá no gesto etc. Para Merleau-Ponty (1945/2015), a palavra é um gesto linguístico. Assim, à corporeidade é atribuída uma potência expressiva que lhe é imanente: o corpo é intencionalidade que se exprime. A dimensão da corporeidade põe à mostra o vínculo entre expressão e exprimido, cuja indissociabilidade está presente em todos os aspectos da linguagem, constituindo a natureza do fenômeno expressivo. É nesse sentido que

Merleau-Ponty pode afirmar que “(...) eu não percebo a cólera ou a ameaça como um fato psíquico escondido atrás do gesto, leio a cólera no gesto, o gesto não me faz pensar na cólera, ele é a própria cólera” (1945/2015, p. 251)219.

Nesse ponto, é preciso retomar a questão da gênese da linguagem, na qual ela é sons e gestos experienciados em uma área transicional. Conforme discutido no capítulo anterior, o compartilhamento estésico (ROUSSILLON, 2011b), caracterizado pelo ajustamento mimo- gesto-postural entre a criança e o outro, descreve uma espécie de coreografia recíproca, na qual a mímica, a postura e os gestos (e por que não os sons?) de ambos são compartilhados de certa forma, permitindo uma comunicação pelo toque, pela voz e, em última instância, por todos os aspectos da sensorialidade. Como uma dança, a comunicação dar-se-á através de uma sintonia transmodal composta por sensações. Langer (2004) retoma o caráter sinestésico dos sons, cores, formas e sentimentos, afirmando que uma vogal pode “ser” de certa cor, um tom pode “ser” grande ou pequeno, baixo ou alto, claro ou escuro etc. Para Merleau-Ponty, de uma perspectiva parecida, o campo da palavra e o campo da visualidade não são separáveis. É, portanto, desse compartilhamento corporal não simétrico que podem surgir as palavras enquanto símbolo – permitindo reafirmar que o símbolo é corporeidade, posto que não substitui o objeto, mas cria- o e, ao mesmo tempo, separa-o. Logo, tomando a linguagem enquanto uma dimensão da experiência, não faz sentido conceber uma linguagem corporal ou sensível, posto que toda linguagem é, em sua origem (e continua sendo), uma experiência sensível que é necessariamente corporeidade.