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3. A LINGUAGEM E SEU APRENDIZADO E DESENVOLVIMENTO

3.1. A LINGUAGEM E O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

A linguagem é uma produção humana, cujas raízes são sociais e históricas. As primeiras manifestações de linguagem surgiram na humanidade a partir da necessidade de comunicação entre os indivíduos nas relações coletivas de trabalho. Segundo Luria (1986), podemos compreender que em situações onde havia mais de um sujeito envolvido em uma ação, se fazia necessário estabelecer uma forma de diálogo compreensível, pois em trabalhos coletivos diários tornava-se inviável trocar informações ou mesmo realizar ações conjuntas sem códigos comuns ou apenas com o uso de gestos. Diante disso, o homem precisou criar sistemas de signos cujos significados baseavam-se nas situações compartilhadas por eles no viver cotidiano em coletividade (LURIA, 1986).

De acordo com os estudos de Luria (1986, p. 22) “Nas primeiras etapas esta linguagem esteve estreitamente ligada aos gestos, os sons inarticulados podiam significar tanto “cuidado” como “esforça-te”, etc. [...]”, cujos significados estavam estreitamente vinculados aos contextos imediatos de sua emissão, à entonação com que eram pronunciados, gestos ou movimentos que os acompanhavam etc. Esses modos de comunicação, por sua vez, foram se tornando incapazes de estabelecer uma comunicação mais estreita e precisa entre os indivíduos.

O autor afirma que, por ter surgido na história social vinculada às situações e relações de trabalho, a palavra ainda estava muito arraigada à situação prática e que, fora desse contexto concreto, ela não possuía existência independente. Seu caráter, portanto, era essencialmente simpráxico, ou seja, seu significado era determinado pelo contexto imediato das práticas realizadas. Assim, uma palavra podia ter mais de um significado e dependia da situação real e das relações presentes onde era pronunciada, como também dos gestos que a acompanhavam.

Com os avanços na vida social, a história da linguagem avança quando a palavra se desprende do seu terreno prático e passa a ser compreendida como um sistema de signos que tornam a palavra compreensível e independente do seu

contexto concreto, que passa a designar objetos e ações, e, progressivamente, a diferenciar características desses objetos e ainda das ações e relações. Junto às designações, os sistemas de códigos foram instituindo regras de sintaxe na produção de alocuções verbais mais amplas, o que constitui seu caráter verdadeiramente simbólico, base para suas funções designativa – de nomear; comunicativa/interativa – de dizer e; ainda constitutiva do psiquismo – de pensar de forma abstrata. Para o autor, o aparecimento da linguagem marca, portanto, o desenvolvimento da atividade consciente do homem (1986, p. 22).

A palavra, nesse sentido, “[...] duplica o mundo dando ao homem a possibilidade de operar mentalmente com objetos, inclusive na ausência deste” (LURIA, 1986, p. 32). A palavra permite ao homem evocar imagens, ações ou relações que são/foram desenvolvidas por meio do uso dela. O homem, com a utilização da linguagem como sistema de códigos, realiza operações mentais.

A linguagem é compreendida de diferentes formas por muitos estudiosos. Dentre algumas concepções existentes destacamos três que são conhecidas e relevantes: “a linguagem é a expressão do pensamento”; “a linguagem é instrumento de comunicação” e “a linguagem é uma forma interação” (GERALDI, 1997).

A primeira concepção, a linguagem é a expressão do pensamento, está fortemente alicerçada aos estudos linguísticos tradicionais. Para estes estudiosos a fala tem a função de expressar/verbalizar algo que está já existindo no pensamento do indivíduo. Logo, se este não fala é porque não pensa. Percebemos que nessa visão o pensamento e a fala são aspectos separados. A fala não interfere na constituição do pensamento. Este está pronto e só precisa da fala para ser externado ao público (GERALDI, 1997).

Na segunda concepção, a linguagem é instrumento de comunicação, a linguagem é compreendida como um código (sistema de signos) que é capaz de estabelecer comunicação entre o sujeito que fala e o sujeito que ouve. É, portanto, muito utilizada em manuais de instruções, os quais possuem a função apenas de levar informação ao receptor da mensagem (GERALDI, 1997).

A terceira teoria, vinculada principalmente aos estudos interacionistas de linguagem, a linguagem é uma forma de interação. Diferente da segunda, afirma que a linguagem não é apenas “uma coisa”, mas uma ação humana-social pela qual se produz sentidos; uma interação entre os interlocutores (GERALDI, 1997). Para Geraldi (1997) a linguagem implica uma espécie jogo de interlocução, pois no

instante em que um sujeito dirige a fala a outro sujeito já está estabelecendo uma relação de trocas nesse momento, visto que o sujeito a quem se dirige define o que e como dizer. Do mesmo modo, quem fala espera uma resposta/reação do ouvinte e este, por sua vez, torna-se responsável em responder e dar continuidade ao jogo; em responder de forma breve e cessar a interlocução; ou não responder a voz desse outro, sendo indiferente e não dando margem para que o jogo aconteça. Linguagem é troca, diálogo, ainda que não harmônico, pois as ações de um sobre o outro não são neutras e iguais, mas marcada pelas posições que cada um ocupa nas relações sociais e do valor que essas posições têm na sociedade.

Mas, além de ação sobre o outro, a linguagem, nessa perspectiva é ação sobre si mesmo, visto que é pelo signo que é possível internalizar significações do mundo e de si mesmo e regular a própria ação, a consciência.

Segundo Geraldi (1997)

Conceber a linguagem como trabalho humano de produção de sentidos – que não estão prontos no pensamento, mas que se produzem nas interações – que ganham vida como enunciações, implica compreender que a linguagem não está nas palavras ou nos sons isolados, mas em dizeres que se produzem como textos - orais ou escritos. Assim, um texto caracteriza-se por elementos que configuram uma interação – uma ação entre sujeitos: um autor (quem diz), um destinatário (a quem diz), um motivo, um conteúdo e, em consequência desses elementos, um modo de dizer. Esses modos constituem os tipos e gêneros de textos com suas características diferentes (GERALDI, 2003; CARVALHO, 1999, apud LOPES, VIEIRA, 2012, p.3).

A palavra não tem a função apenas de designar coisas ou fatos. Ela é muito mais que isso. Uma palavra provoca muitas outras palavras. Por isso, não pode assumir o papel apenas de nomear coisas. Para Vygotsky (2007) a palavra possui outra importante função que é ser categorizante. Além de substituir um objeto, por exemplo, ela também possibilita a introdução desse objeto em sistemas complexos de enlaces e relações, o que significa dizer que, pela palavra é possível categorizar, generalizar e analisar determinada coisa, ação ou relação. A palavra é, portanto, meio de comunicação e instrumento do pensamento, de constituição do mundo interior, objetivo e subjetivo.

A linguagem, segundo a perspectiva histórico-cultural, não se reduz – embora também assuma essas funções – a meio de comunicação e expressão, mas assume o caráter de atividade constitutiva do psiquismo, da subjetividade de cada indivíduo, mediante os significados e sentidos que se produzem nas interações. É pelo signo, pelas significações, que seu pensamento, seus modos de conhecer e de se perceber, de sentir e valorizar, vão sendo tecidos nas tramas das relações sociais, marcadas pelas contingências de classe, que regem as significações do real produzidas pelos sujeitos e em meio às quais, com as quais ele também é significado, constituído (LOPES, 1999; LOPES; VIEIRA, 2012).

De acordo com os estudos de Bakhtin (1992) é no outro, através do olhar e das significações desse outro que o nosso “eu” é constituído. Para o autor (2012, p. 34) “a consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, consequentemente, somente no processo de interação social”. É por meio dos signos que somos inseridos no grupo cultural de nossa realidade social. O signo é carregado de ideologias/sentidos que possibilitam o encontro entre consciências.

As posições que ocupamos – suas significações sociais – em situações específicas, nos conduzem, bem como conduzem os outros com os quais interagimos, a comportamentos diferenciados. Dessa perspectiva, foi possível compreender que nossa intromissão, enquanto pesquisadoras – considerando significações sociais que essa posição ocupa – no contexto de vida das crianças e professoras no CMEI, altera o texto e o contexto, pois exercemos influencias uns sobre os outros e eles exercem sobre nós, com suas ações e significações como pessoas concretas. Nossas ações e enunciações não se realizam em um plano abstrato. Ao contrário, como afirma Bakhtin (2012):

A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo social ou não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social, se estiver ligada ao locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.). Não pode haver interlocutor abstrato; não teríamos linguagem comum com tal interlocutor, nem no sentido próprio nem no figurado (BAKHTIN, p. 116, 2012).

Nossa palavra sempre se direciona, portanto, consiste em uma ação sobre alguém, para um determinado interlocutor. Esse interlocutor tem papel essencial na

elaboração da palavra, pois é a partir dele/para ele que ela se constitui. Por ela e com ela interagimos, agimos um em relação ao outro. Ao mesmo tempo, através da palavra temos a possibilidade de nos distinguir do outro e de toda coletividade.

Vemos que de uma perspectiva interacionista, que concebe a linguagem como interação e o próprio sujeito como essencialmente interativo, esta passa a ter um papel fundamental na formação de seu desenvolvimento como sujeito, de seu psiquismo, visto que sua consciência, sua subjetividade, suas possibilidades de se relacionar com o mundo social e consigo mesmo são constituídas pelos signos, pelas significações, pela linguagem. Vigotski (2007) considera que todas as funções especificamente humanas, como a atenção, a memória, o raciocínio, a conceituação, a vontade, a consciência, são mediadas pela linguagem, pela atividade com signos, pela apropriação e emprego do significado das palavras, sendo esse elemento primordial no desenvolvimento de cada indivíduo e, portanto, de cada criança.

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