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Dentre as questões que selecionamos para investigar, a literalidade talvez seja uma que pouco ou quase nada tem interessado às teorias sobre a interpretação do direito. Trata-se de uma questão que não tem suscitado grandes controvérsias e que, conseqüentemente, não tem recebido muito atenção. Isso porque, há uma concepção pré-teórica bastante difundida do que é o significado literal de uma frase ou palavra. Acreditamos poder enunciá-la da seguinte forma: o significado literal de uma expressão é aquele que ela tem independentemente de qualquer contexto, ou seja, o seu significado numa espécie de contexto-zero.312

Tendo em vista tudo o que foi dito e discutido até aqui, não podemos dizer outra coisa senão que essa concepção é completamente equivocada. Ao lado das demais questões que abordamos e abordaremos neste capítulo, também esta parece ter sua origem numa visão representacionista da linguagem, na qual a problemática do significado resolvia-se numa (ingênua) relação associativa entre a palavra e o seu correspondente real ou mental. Após a guinada pragmática da filosofia da linguagem, não há mais como negligenciar a importância do elemento contextual na determinação do significado, ou melhor, não há mais como pensar num significado-fora-de-contexo.

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Cf. WITTGENSTEIN, Ludwig. WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Tradução de M. S. Lourenço. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. 315-316. (IF, 194).

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Cf. WITTGENSTEIN, Ludwig. WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Tradução de M. S. Lourenço. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 318. (IF, 198).

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Cf. SEARLE, John. Expressão e significado: estudos da teoria dos atos de fala. Tradução de Ana Cecília G.A. de Camargo e Ana Luiza Marcondes Garcia. São Paulo: Martins Fontes: 2002, pp. 183-184.

O significado de uma expressão é o seu uso na linguagem; tantas forem as formas de empregá-la, tantos serão os seus significados. Já tivemos a oportunidade de ver que a normatividade que marca a nossa linguagem não é uma normatividade forte a ponto de poder antecipar todos os significados possíveis de uma expressão. Haverá sempre margem para a novidade; flexibilidade e inflexibilidade se equilibram na gramática.

Isso tudo sugere que a noção tradicional de sentido literal reclama uma profunda reconsideração. Em um estudo específico sobre o tema, John Searle argumenta, contra o que ele chamou de concepção dominante, que só entendemos o significado das sentenças “sob o pano de fundo de um conjunto de suposições de base acerca dos contextos em que elas poderiam ser apropriadamente emitidas”.313 E essa exigência se aplica, inclusive, a sentenças do tipo “o gato está sobre o capacho”, exemplo que parece favorecer a idéia (equivocada) de que pode haver um significado literal independente de contexto.314 Se não há nesse exemplo ameaça de vaguidade ou ambigüidade, isso é graças uma espécie de arcabouço contextual pressuposto para que ele possa ser adequadamente compreendido.

Searle fala num “conjunto de suposições de base”, que vai além de uma noção intuitiva de contexto. Essas suposições – desconfiamos - dizem respeito a informações ou práticas que formam uma espécie de background diante do qual certas sentenças podem fazer sentido. Pelo menos é isso que indica o exemplo bem-humorado do filósofo inglês, que explica que a “noção de significado literal da sentença ‘o gato está sobre o capacho’, no caso de gatos e capachos que flutuam livremente no espaço cósmico, não tem aplicação clara, a menos que façamos algumas suposições suplementares”.315 Mas nem todas essas suposições suplementares podem ser realizadas na estrutura semântica da sentença, ou seja, podem ser

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SEARLE, John. Expressão e significado: estudos da teoria dos atos de fala. Tradução de Ana Cecília G.A. de Camargo e Ana Luiza Marcondes Garcia. São Paulo: Martins Fontes: 2002, p. 184.

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SEARLE, John. Expressão e significado: estudos da teoria dos atos de fala. Tradução de Ana Cecília G.A. de Camargo e Ana Luiza Marcondes Garcia. São Paulo: Martins Fontes: 2002, pp. 189 e ss.

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SEARLE, John. Expressão e significado: estudos da teoria dos atos de fala. Tradução de Ana Cecília G.A. de Camargo e Ana Luiza Marcondes Garcia. São Paulo: Martins Fontes: 2002, p. 191.

enunciadas. A primeira razão para isso é que elas não são fixas e de número definido, ao contrário, são incontáveis; a segunda razão é que a enunciação de cada uma introduziria a necessidade de outras suposições.316

Tentando traduzir num vocabulário wittgensteiniano as observações de Searle, poderíamos dizer que esse conjunto de suposições de base faz parte de uma forma de vida específica, dentro da qual sentenças sobre gatos e capachos podem vir a fazer sentido. Podem, pois essas suposições ainda não são o bastante, é preciso o emprego gramaticalmente correto das expressões num determinado jogo de linguagem – no jogo da descrição, por exemplo.317

O que precisa ficar claro sobre a questão é apenas o seguinte: não faz sentido supor que haja um significado forjado numa espécie de contexto-zero. Não há esse não-lugar de onde possa emergir o sentido literal. Todo sentido é relativo a um contexto, e isso já é um lugar comum há pelo menos quatro décadas. Sendo assim, não há razões para continuar empregando o adjetivo literal de forma negligente, cultivando, mesmo sem perceber, uma compreensão equivocada a respeito do significado, muito propícia a criar mal-entendidos, como os que ilustram o discurso tradicional sobre a interpretação do direito.

Olhando especificamente para o direito, podemos perceber que a questão da literalidade reveste-se de uma dificuldade especial; torna-se mais complexa porque agrega elementos de ordem política. Ao equívoco semanticista soma-se outro: a suposição de que o apego ao sentido literal é garantia de mais segurança na hora de dizer o direito. A discussão sobre o sentido literal nunca é apenas uma discussão sobre linguagem e significado; ela sempre assume uma conotação político-ideológica, pois implica (em tese) uma tomada de posição sobre temas como competências institucionais, repartição de poderes e, em última análise, valores democráticos.

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SEARLE, John. Expressão e significado: estudos da teoria dos atos de fala. Tradução de Ana Cecília G.A. de Camargo e Ana Luiza Marcondes Garcia. São Paulo: Martins Fontes: 2002, p. 197.

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Andrei Marmor religa, expressamente, as suposições de base, ou background, de que fala Searle, à noção wittgensteiniana de formas de vida. Cf. Interpretation and legal theory. Oxford: Claredon Press, 2002, p. 26.

O postulado moderno da estrita vinculação do juiz à lei prescrevia a absoluta prevalência do sentido literal como forma de obstar o desvirtuamento da vontade popular, consagrada no texto legal, por ação da subjetividade do intérprete. Uma série de artifícios foram criados com o intuito de fazer efetiva essa vinculação, pois ela era uma imposição do princípio democrático. O chamado método gramatical, ou cânone gramatical, receitava uma interpretação que estivesse cingida apenas à literalidade do texto, como se ele já trouxesse consigo, imanente, o seu sentido.

Embora, contemporaneamente, a discussão não se coloque exatamente assim, dizer que o intérprete deve ater-se ao significado literal do texto da lei ainda quer dizer que ele deve respeitar as disposições do legislador ordinário, tal como grafadas, e não buscar nada fora do texto. Subsiste a crença no texto como um universo significativo auto-suficiente, que ostenta seu sentido independentemente de quaisquer circunstâncias.

Por isso, a exaltação do sentido literal se faz acompanhar, via de regra, de uma série de interdições. Não cabe ao intérprete conjecturar sobre a finalidade da lei, ou tentar ajustá-la às diretrizes constitucionais. Fazer um juízo de ponderação, considerando as circunstâncias específicas do caso concreto, isso ainda menos. A defesa da literalidade contra qualquer sorte de intervenção do intérprete ainda significa a defesa do conteúdo democrático da vontade do legislador, consubstanciada (de forma um tanto misteriosa) no texto da lei.

Mas tudo isso são elementos simbolicamente agregados à idéia de literalidade. Não é possível, todavia, ir mais longe na discussão desses elementos, pois a complexidade do tema reclama investigação específica. De qualquer forma, nos parece certo que a recusa à noção tradicional de literalidade, de alguma forma, “sabota” o papel dessa noção dentro do discurso sobre a interpretação do direito.

Uma última, porém, importante questão: essa recusa não implica dizer que as expressões da linguagem não têm, nem podem ter, um sentido literal. Ela dirige-se a uma

certa concepção de literalidade, tal como a descrevemos. A tentativa de banir da linguagem

expressão tão difundida seria inevitavelmente mal-sucedida. Não é essa nossa intenção. Alguns autores contemporâneos oferecem novas e interessantes formulações acerca da questão. Umberto Eco, por exemplo, fala na existência de níveis de significado, defendendo (e não descartando) que o literal é o primeiro deles.318 Sobre esse significado básico é possível propor outros, mais adequados, considerando-se os critério de correção ou sucesso assumidos pelo intérprete.

Essa perspectiva é interessante, porque nos remete às observações de Wittgenstein sobre a interpretação e nos permite pensar o problema de uma outra forma. Interpretar, num sentido específico, diferente de compreender, é algo que fazemos em determinadas circunstâncias, normalmente quando surge algum tipo de dúvida sobre o sentido de uma expressão. Essa dúvida nos leva a deter o fluxo do jogo e investigar a gramática da expressão.319 O sentido literal parece dispensar esse tipo de investigação. Nós podemos compreendê-lo sem dificuldade, e essa compreensão é a conseqüência mais elementar do nosso domínio sobre uma língua. O sentido literal, para ser entendido, não reclama habilidades de nenhum outro tipo, como, por exemplo, poder traçar analogias ou cruzar referências e informações. Voltaremos à questão no capítulo seguinte, após tratarmos da gramática de interpretar.