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3.5. As formas de vida como contextos praxeológicos

4.1.1. A normatividade da linguagem e a estabilidade do sentido

Utilizando uma escala adequada para projetar grandes extensões em pequenos espaços, tentamos, no último capítulo, apresentar um mapa das idéias de Wittgenstein. Somente as mais visíveis e importantes puderam ser retratadas, pois o intuito deste trabalho não é descer o mais fundo possível na filosofia wittgensteiniana, mas recolher ali algumas explicações sobre o funcionamento da nossa linguagem e trazê-las para a reflexão sobre a interpretação do direito. É isto – lançar um olhar wittgensteiniano sobre algumas imagens

típicas das teorias sobre a interpretação do direito - o que pretendemos fazer a partir daqui, começando por uma questão elementar: a resposta da pragmática para a pergunta pelo sentido. O reconhecimento de que a linguagem é uma atividade regrada, evidenciada pela metáfora do jogo, implicou o deslocamento do problema da significação do plano da semântica – onde desde Platão esteve situado – para o plano da pragmática. Isso quer dizer, basicamente, que estavam equivocadas as teorias tradicionais ao procurarem pelo significado em algum lugar fora da própria linguagem. Para Wittgenstein, tudo o que elas fizeram foi provocar uma série de mal-entendidos que, agora, é necessário desfazer.

Para nos prevenirmos contra tais mal-entendidos, o filósofo aconselha a substituição da pergunta pelo significado por uma nova, a pergunta acerca da gramática.257 Sua sugestão tem uma finalidade terapêutica, pois sabe não poder banir a primeira pergunta da nossa linguagem comum. O importante é evitar que expliquemos o significado sem referência ao contexto, como se pudéssemos pensar num significado a priori para as expressões da linguagem. Assim como a pergunta do tipo “o que é...?” nos induz a procurar uma essência, a pergunta “qual o significado de...?” nos induz a achar que pode haver um significado fora de qualquer contexto, quando não há. O sentido de uma expressão é o seu uso em situações lingüísticas específicas – os jogos de linguagem.

Mas, para entender todos os aspectos da resposta wittgensteiniana é preciso ir além do slogan “o significado está no uso”.258 Ele, por si só, não é falso; o que é falso é sua suposta simplicidade. Afirmá-lo é afirmar, também, que a linguagem é uma atividade governada por regras, consistentes na gramática superficial das expressões e na gramática profunda dos jogos de linguagem, autônomas em relação à realidade e heterônomas em relação aos sujeitos que se

257

Cf. WITTGENSTEIN, Ludwig. O livro azul. Tradução de Jorge Mendes. Lisboa: Edições 70, 1992, pp. 25- 26.

258

Cf. MARTINS, Helena. Sobre a estabilidade do significado em Wittgenstein. In Veredas: revista de estudos

comunicam, aprendidas ao tempo em que são aprendidas outras atividades, com as quais estão entrelaçadas e formando nossas complexas formas de vida.

A ênfase que Wittgenstein põe sobre o caráter normativo da linguagem é a chave para compreender que determinados problemas que parecem decorrer da superação das perspectivas representacionistas são, na verdade, falsos problemas. Sustentar que o significado de uma expressão é seu uso na linguagem é diferente de sustentar que não há muito que possa ser dito - e com alguma segurança - sobre seu significado. Na medida em que não há um algo a que a expressão corresponda, afirma-se que o significado é sempre contingente. Mas é preciso não esquecer que contingente, nesse caso, não tem sentido idêntico ao de aleatório ou arbitrário. Há sempre regras que determinam usos significativos e usos não-significativos, que demarcam a fronteira entre o que faz e o que não faz sentido dizer. Essa afirmação é indicativa de duas coisas: a) uso e significado não são palavras sinônimas, embora aparentadas; b) ao conceito de uso é necessário estar associado o conceito de regras para que a questão do significado possa ser bem explicada.

Não é sempre que podemos substituir, sem prejuízo, “o sentido da palavra” por “o uso da palavra”.259 A observação é feita pelo próprio Wittgenstein quando diz que “para uma grande classe de casos – embora não para todos – do emprego da palavra ‘sentido’ pode dar- se a seguinte explicação: o sentido de uma palavra é seu uso na linguagem”.260 É possível que existam diferenças quanto ao uso de uma palavra sem que isso implique, necessariamente, uma diferença quanto ao seu significado. Noutras palavras, diferenças no uso podem não ser essenciais do ponto de vista do significado. É o que ocorre, por exemplo, com alguns aspectos morfológicos. Embora determinados pelas regras da gramática, geralmente não provocam

259

Cf. BAKER, G.P. e HACKER, P.M.S. An analytical commentary on the Philosophical Investigations.

Vol. I: Wittgenstein: understanding and meaning. Part I – Essays. Oxford: Blackwell Publishing, 2005, p.

152. 260

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Tradução de M. S. Lourenço. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 207. (IF, 43).

mudanças significativas, pois não dizem respeito ao contexto ou finalidade em que e para que as expressões são empregadas. 261

Em síntese, toda diferença no significado é uma diferença no uso, mas o contrário não está certo.262 Não há nenhuma dificuldade em admitir que há palavras diferentes que possuem um mesmo sentido, quando empregadas de forma semelhantes, ou seja, segundo as mesmas regras. É justamente por isso que têm um mesmo sentido, porque estão submetidas às mesmas regras e podem ser explicadas de um mesmo modo. A explicação do sentido é, também, um

padrão para o emprego da palavra.

Essas considerações ajudam a esclarecer a afirmação alternativa, e mais precisa, de que o significado de uma expressão é o seu lugar na gramática.263 Essa afirmação não é

essencialmente diferente da primeira, contudo, é mais eficiente na tarefa de não nos deixar

esquecer que o uso significativo das expressões é um uso regrado.

Numa explicação pragmática, as regras da gramática dão conta de uma tarefa que, antes, era supostamente desempenhada pelas tais entidades extralingüísticas às quais correspondiam as palavras: garantir a estabilidade do significado e, assim, a possibilidade da comunicação. As teses representacionistas, de uma forma de ou de outra, sempre acabam “esposando a idéia básica de que a estabilidade semântica das palavras decorre de elas representarem regularmente algo que lhes é exterior”.264

Parece nítido, agora, que a perda da referência não implica a perda da estabilidade. Ao contrário. Embora ela (a estabilidade) pareça surgir teoricamente mitigada, com a valorização da contingência, uma maior aproximação da questão nos permite ver que ela surge, de fato,

261

Cf. BAKER, G.P. e HACKER, P.M.S. An analytical commentary on the Philosophical Investigations.

Vol. I: Wittgenstein: understanding and meaning. Part I – Essays. Oxford: Blackwell Publishing, 2005, pp.

155-156. 262

Cf. BAKER, G.P. e HACKER, P.M.S. An analytical commentary on the Philosophical Investigations.

Vol. I: Wittgenstein: understanding and meaning. Part I – Essays. Oxford: Blackwell Publishing, 2005, p.

157. 263

SPANIOL, Werner. Filosofia e método no segundo Wittgenstein: uma luta contra o enfeitiçamento do

nosso entendimento. São Paulo: Loyola, 1989.

264

Cf. MARTINS, Helena. Sobre a estabilidade do significado em Wittgenstein. In Vereda s: revista de estudos

mais forte, simplesmente porque a normatividade que marca a nossa linguagem explica melhor o seu funcionamento do que a metafísica; de outra forma, a metáfora do jogo perece bem mais adequada do que a metáfora do espelho.

Não temos o poder individual de deliberar sobre nossa língua, tampouco temos o poder de fazê-lo coletivamente, como a primeira negação poderia fazer supor. Deliberar sobre o sentido das expressões da linguagem pressupõe a possibilidade de saltar fora da linguagem e observá-la de um ponto de vista exterior, privilegiado.265 A pragmática da linguagem, refletindo uma tendência bem visível na filosofia do século XX, simplesmente recusa essa possibilidade.

As regras da gramática não estão fora da linguagem, regulando seu funcionamento, como também os significados das palavras não estão fora da linguagem, determinando sua estabilidade. “Compreender a perspectiva oferecida por Wittgenstein supõe contemplar a possibilidade de que a linguagem possa ser estável sem representar algo exterior a ela mesma”,266 ela é estável porque é governada por regras, ainda que não tenhamos a capacidade de apontar para tais regras a cada vez que empregamos uma expressão.

Dominar uma língua nos confere o poder de usá-la de forma correta, e não é necessário poder inventariar suas regras ou antecipar as possibilidades de emprego das expressões. Até porque, a possibilidade de fazermos novos e diferentes usos delas está sempre presente. E o curioso é como esses novos usos podem ser compreendidos por aqueles que compartilham regras e critérios de forma natural. A questão é que as regras da linguagem são aprendidas, e são tolerantes e intolerantes de uma forma muitíssimo interessante e difícil de explicar.

265

Cf. MARTINS, Helena. Sobre a estabilidade do significado em Wittgenstein. In Veredas: revista de estudos

lingüísticos. Vol. 4, n. 2. Juiz de Fora: Editora da UFJF, jul-dez de 2002, pp. 36-37.

266

Cf. MARTINS, Helena. Sobre a estabilidade do significado em Wittgenstein. In Veredas: revista de estudos

A normatividade da linguagem surge, afinal, como um contraponto mais razoável para a relativa indeterminação dos significados, obliterada pelas teses referencialistas. Agora, parece fundamental

tomar a recalcitrância da palavra em ter seu significado circunscrito como uma indicação de que ele de fato não corresponde a qualquer entidade subjacente às situações em que a palavra é utilizada. Ver, talvez, que não somente a linguagem pode funcionar na ausência de tais entidades como é exatamente assim que ela funciona.267

Essa recalcitrância nos obriga a aceitar uma multiplicidade muito mais condizente com a complexidade da nossa linguagem ordinária do que o ideal de determinabilidade acalentado, aqui ou ali, por aqueles que ainda preferem as explicações de uma semântica de cunho essencialista. E essa preferência pode se manifestar de duas formas: a) de forma involuntária, pela adesão não-tematizada a uma espécie de sentido comum teórico acerca da problemática do significado; b) de forma voluntária e deliberada, pela formulação (extemporânea) de explicações semanticistas. Interessa-nos, agora, prioritariamente o segundo tipo de caso. Procuraremos abordá-lo através de um exemplo importante: o de Ronald Dworkin.