A Literatura como arte pode ser compreendida como possibilidade de desenvolver a alteridade diante de um mundo normatizado e plural. O acesso a ela, não só o contato, mas também a formação do leitor de Literatura representa uma possibilidade de abertura ao outro e, sendo assim, como uma forma de considerar as diferenças e conduzir à humanização diante da pluralidade do mundo contemporâneo.
A abertura ao outro “depende de uma sensibilidade que envolve emoções, as forças vitais e a liberação da imaginação de um modo não obtido por estruturas meramente cognitivas, mas que é dado pelo estético, particularmente pela experiência estética” (HERMANN, 2014, p. 122). Desta forma, a Literatura, como arte, pode possibilitar essa sensibilidade, permitindo ao sujeito um olhar para o outro de modo a considerar as diferenças e singularidades. Outra aliada é imaginação, que permite ao aluno construir mundo e refletir sobre ele.
[...] as possibilidades da experiência estética para nos tornar sensíveis e receptivos às diferenças e àquilo que consideramos estranho ou sequer reconhecemos, como um modo de abertura à alteridade e, sobretudo, como uma possibilidade educativa na construção de uma nova sensibilidade. Uma sensibilidade aguçada apresenta condições de articular as orientações normativas e, inclusive, de reinventá-las, levando em consideração as particularidades dos indivíduos concretos (HERMANN, 2014, p. 123).
Nesse sentido, a Literatura representa a possibilidade, por meio da sensibilidade, de um olhar para o outro que permita o respeito às diferenças, o que remete à inclusão e à humanização. Tais diferenças podem ser sociais, culturais, de gênero, entre outras. Pois, considerar a pluralidade, nos remete romper com o pensamento único e com a homogeneização imposta pela globalização. Assim, outras identidades se formam e se
reafirmam baseadas na pluralidade. Considerar as diferenças implica em ser cidadão e permitir que o outro também o seja.
Essa ideia de que a arte, por meio da imaginação e sensibilidade, pode possibilitar à alteridade e consequentemente à cidadania, pois o reconhecimento do outro, bem como considerar as diferenças também é cidadania, agrega-se a outras duas possibilidades de cidadania discutidas anteriormente, que foram a do conhecimento, a partir de conteúdos, conceitos, proposto, neste estudo, por meio da Literatura e da Geografia. E a terceira possibilidade, como socialização, uma vez que a escola é espaço e tempo de formação cidadã, pois permite ao aluno a interação e o contato com o outro, depois da família.
Candido, em sua obra Vários Escritos (2011), intitula um dos seus capítulos em, O Direito à Literatura. Neste capítulo, o autor dá ênfase à Literatura relacionando-a com os direitos humanos. Para isso, argumenta que direitos humanos implicam em “reconhecer que aquilo que consideramos indispensáveis para nós é também indispensável para o próximo” (Ibid., p. 174), pois o que se vê com frequência é a defesa dos direitos que nos cabe e a ideia de que, por serem nossos, são mais urgentes do que do outro.
Na direção dessa argumentação, Candido (2011) levanta a questão do direito à Literatura questionando sobre o fato da maioria ter claro como fundamentais os direitos civis, considerados básicos e indispensáveis ao ser humanos. Mas que, quando se trata de direitos que compreendem o capital cultural22, não são vistos como prioridade ou ainda são considerados dispensáveis àqueles com menos condição econômica, social e cultural, reforçando a exclusão.
Neste ponto as pessoas são frequentemente vítimas de uma curiosa obnubilação. Elas afirmam que o próximo tem direito, sem dúvida, a certos bens fundamentais, como casa, comida, instrução, saúde, coisas que ninguém bem formado admite hoje em dia que sejam privilégio de minorias, como são no Brasil. Mas será que pensam que o seu semelhante pobre teria direito a ler Dotoiévski ou ouvir os quartetos de Beethoven? Apesar das boas intenções no outro setor, talvez isto não lhes passe pela cabeça (CANDIDO, 2011, p. 174).
Essa abordagem nos permite pensar que a escola é um dos espaços onde esse direito, isto é, “o direito à Literatura” deve ser assegurado. Considerada como arte e ao mesmo tempo como patrimônio cultural da humanidade não poderia ela se constituir um direito, assim como as outras artes, pintura, escultura, música entre outras? Essa indagação é respondida pelo
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O capital cultural, segundo Bonnewitz (2003, p. 53-54) diz respeito aos bens, geralmente, adquiridos pela escola, isto é, “conjunto de qualificações intelectuais produzido pelo sistema escolar ou transmitidos pela família”. Exemplos: domínio da linguagem, conhecimento científico, títulos escolares, entre outros.
autor (CANDIDO, 2011) que defende que nenhuma pessoa passa vinte e quatro horas sem adentrar no universo ficcional, isto é, sem se remeter a criação imaginária, isso independente de sermos analfabetos ou eruditos. E essa constatação por si só representaria um direito. Isto implica em afirmarmos que a Literatura tem influências positivas para o sujeito, e além do mais:
[...] ela tem papel formador da personalidade, mas não segundo as convenções; seria antes segundo a força indiscriminada e poderosa da própria realidade. Por isso, nas mãos do leitor o livro pode ser fator de perturbação e mesmo de risco. Daí a ambivalência da sociedade em face dele, suscitando por vezes condenações violentas quando ele veicula noções ou oferece sugestões que a visão convencional gostaria de proscrever. No âmbito da instrução escolar o livro chega a gerar conflitos, porque o seu efeito transcende as normas estabelecidas (CANDIDO, 2011, p. 178).
Contudo, indo mais além, remeto-me ao fato de a Literatura instigar o leitor e consequentemente ‘induzi-lo’ a desenvolver o pensamento. Por outras vezes, é crítica e, por isso, nem sempre é interesse em torná-la acessível. “A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. Por isso é indispensável tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita” (CANDIDO, 2011, p. 177), pois ambas são indispensáveis na formação do sujeito e assim sendo, como defende Candido, constitui-se em um direito de todo cidadão.
Essas questões nos remetem à discussão sobre a identidade, abordada neste estudo, pois quando vemos a alteridade como o olhar para o outro, entendemos ser possível o respeito às diferenças, às identidades que, no mundo contemporâneo, tendem a ser cada vez mais diversas, o que contradiz o pensamento homogeneizador proposto pelo processo da globalização.
3 O TEXTO LITERÁRIO E A OBRA O CONTINENTE I
É certo que a literatura jamais teria existido se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das palavras mudas (CALVINO, 2010, p. 65).
Figura 6: Ruínas da catedral de São Miguel
Fonte: Arquivo pessoal da autora (2012)23.
Neste capítulo tratarei de algumas questões que envolvem a Literatura. Entre estas, o que se entende, considerando os diferentes entendimentos, por Literatura, texto literário, linguagem literária, Literatura e espaço, a formação do leitor de Literatura e algumas considerações sobre o autor Erico Verissimo e a obra O Continente I. Tais questões, já mencionadas, são consideradas importantes tendo em vista que esse trabalho se tece na dialética entre Literatura e Geografia. Ainda nesse item, estabeleço uma relação entre os conceitos geográficos, a obra literária, O Continente I, os questionários realizados com os professores de Literatura e Geografia e o material dos alunos, proposta de atividade realizada pelos alunos do 3º ano do Ensino Médio.
Ressalto que o objetivo desta tese não é o de esclarecer ou definir o que se entende por crítica literária ou por história literária. Também não segue uma única orientação no estudo da teoria literária, mas tenta, a partir da teoria da Literatura ou da teoria literária, compreender
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Ruínas da Catedral jesuítica localizada em São Miguel/RS. As ruínas de são Miguel fazem parte do Patrimônio Histórico e Cultural Mundial da UNESCO.
conceitos da Literatura importantes para desenvolver o trabalho aqui proposto. Não pretendo com isso desconsiderar o senso comum, mas ir além dele.