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3.6 ERICO VERISSIMO E A OBRA O CONTINENTE I

3.6.1 O CONTINENTE I

Ao escrever O Continente, o que a princípio me parecera um obstáculo, isto é, a falta de documentos e de um maior conhecimento dos primeiros anos da vida do Rio Grande do Sul, tinha na realidade sido uma vantagem. Era como se eu estivesse dentro de um avião que voava a grande altura: podia ter uma visão do conjunto, discernia os contornos do Continente. Viajava num país sem mapas, e outra bússola não possuía além de minha intuição de romancista. E isso fora bom (VERISSIMO, 2005, p. 410).

O Tempo e o Vento é uma trilogia escrita por Erico Verissimo que narra 200 anos do processo de formação do Estado do Rio Grande do Sul. A Trilogia é composta por três romances: O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Sendo que o primeiro romance possui dois volumes O Continente I e O Continente II, o segundo romance possui dois volumes, O Retrato I e O Retrato II e o terceiro três volumes, O Arquipélago I, II e III. Parte da obra de O Continente foi adaptada para o cinema nacional com o título da trilogia O Tempo e o Vento e obteve grande repercussão. Assim, a obra no seu todo é resultado de um trabalho de pesquisa histórica que sob o olhar da ficção narra 200 anos de história em que se faz fortemente presente a identidade do povo gaúcho.

O primeiro volume, O Continente I, obra que servirá de objeto de análise nesta tese, é narrado pela personagem Bibiana em estilo flashback quando a família Terra-Cambará está presa no casarão em virtude da Revolução Federalista de 1895. O Continente I está dividido em 3 capítulos que são intercalados pelo capítulo O Sobrado. O primeiro capítulo, intitulado A Fonte, está situado historicamente no ano de 1945 e marcada pela personagem Pedro

Missioneiro que é filho de uma índia e de um branco. A mãe morre no parto e o menino fica aos cuidados do Padre Alonzo em uma das missões dos Sete Povos das Missões. Pedro Missioneiro possui visões entre elas a da guerra guaranítica e a morte de Sepé Tiarajú, um dos líderes dos Sete Povos.

No segundo capítulo, Ana Terra, temos a presença forte da personagem Ana Terra que vem com a família de São Paulo para viver no Rio Grande do Sul. Pedro Missioneiro, já adulto, é encontrado ferido por Ana nas terras dos pais, após ser auxiliado, fica trabalhando na casa da família Terra. Ana e Pedro apaixonam-se e Ana engravida. O pai e os irmãos quando descobrem matam Pedro. Ana dá a luz a um menino a quem dá o nome de Pedro Terra. A partir daí dá-se início à família que estará presente em toda Trilogia. Anos mais tarde morre a mãe de Ana, a fazenda é invadida pelos castelhanos, o pai e os irmãos são mortos, restando Ana, que durante a invasão, foi brutalmente violentada, mas sobrevive. Além dela, também sobrevive o filho, a cunhada e a filha. Os sobreviventes, sob os cuidados e liderança de Ana Terra, partem daquele lugar para Santa Fé onde fixam residência. Pedro terra casa-se e tem dois filhos, Bibiana Terra e Juvenal Terra.

No terceiro capítulo, Um certo Capitão Rodrigo, chega na cidade um homem ‘bonachão’, aventureiro e corajoso que atraía curiosidade e inimizade. Trata-se do capitão Rodrigo Cambará, que logo que chega a Santa Fé atrai o ódio da família Amaral que governa a cidade, principalmente após um duelo com Bento Amaral em que disputam o coração de Bibiana. Rodrigo, durante o duelo, fica gravemente ferido e assim que se recupera casa-se com Bibiana, ainda que contra a vontade dos pais da moça. No entanto, logo após o casamento o Capitão acaba se envolvendo com jogos e mulheres, se ausentando e traindo sua esposa. Na revolução de 1845, Rodrigo Cambará se alia a Bento Gonçalves, que tem como inimigo a família Amaral e, após uma tomada a Santa Fé, Rodrigo é ferido e morre.

Intercalando os três capítulos temos O Sobrado que representa o cerco à cidade. No Sobrado I temos a família Terra sitiada no casarão. Alice está prestes a dar a luz, o maragato Liroca está encarregado de vigiar o sobrado e não deixar ninguém ir até o poço de água que fica no quintal, mas ele fica confuso, pois é apaixonado por Maria Valéria, cunhada de Licurgo, que também está no casarão. Os habitantes do sobrado, já sem suprimentos, comem laranja e farinha enquanto um dos capangas de Licurgo, Tinoco, está a agonizar na despensa. Maria Valéria, aflita, vai ter com Licurgo e solicita que ele peça trégua e chame um médico para irmã, mas Licurgo se recusa.

O Sobrado II inicia com a data de ‘25 de junho de 1895: Madrugada’. O que marca este episódio é o sofrimento de Alice para dar a Luz. Cercados, os habitantes do sobrado

sentem-se angustiados ao ver o sofrimento de Alice. Todos estão tensos, mas Licurgo não cede. Alice dá a luz a uma menina que nasce morta. Licurgo sufoca a tristeza diante da cunhada que lhe dá a notícia, da família e dos capangas.

No Sobrado III ‘25 de junho de 1895: Tarde’. Licurgo aproveita que está tudo calmo e manda um de seus homens buscar água no poço. O homem consegue retirar a água, mas é ferido e derrama sangue na água inutilizando-a. Bibiana pergunta a Laurinda sobre a neta e diz que ela tem sorte por nascer morta, pois assim não sofre. Tinoco está com pasmo e Maria Valéria pede, mais uma vez, a Licurgo que chame um médico, mas ele não cede. Licurgo enterra a filha morta no porão do sobrado.

O último episódio de O Sobrado IV – ‘25 de junho de 1895: Noite’ marca o final de O Continente I. A situação dentro do sobrado está cada vez mais difícil para todos. Alice delira após saber que a filha foi enterrada no porão. Os filhos de Licurgo, Rodrigo e Toríbio estão agitados, enquanto os capangas conversam na cozinha.

Após o resumo, a fim de complementar a ideia, remeto-me a Zilberman (2010), uma estudiosa da obra de Erico Verissimo, que, no que diz respeito à obra O Tempo e o Vento, afirma que o contexto político influencia a obra do autor e ainda reitera que o escritor cria um novo modo de estruturar a ficção. Desta forma, Verissimo, por meio do romance histórico aborda a formação do continente sul-rio-grandense permeada por questões sociais, políticas e da própria condição humana.