4. A MÍDIA E A COBERTURA DA CPMI DOS CORREIOS
4.2. A mídia e a cobertura da CPMI dos Correios
Em maio de 2005, a população assistiu, através dos meios de comunicação de massa, ao vídeo em que um funcionário dos Correios recebe propina, revelando um pouco de como funciona a corrupção no país. A partir daí, foi sempre através da mídia — jornais, revistas, rádio, televisão e internet — que os brasileiros acompanharam o desenrolar de um dos mais ruidosos casos de corrupção já registrados no país. Todos os relatos que se seguem baseiam-se, exclusivamente, em
programas e matérias veiculados nos diferentes meios de comunicação, comerciais ou não.
Foi uma disputa comercial que deu origem à maior crise política do governo Lula. O mentor da gravação foi o empresário Artur Washeck Neto, sócio das empresas Vetor Comercial e da Coman, que já forneciam material para o governo federal. Essa gravação seria usada pelo empresário para negociar novas licitações, segundo a Folha de S.Paulo apurou (MICHAEL e MASCHIO, 2005, p. 5).
Depois que se divulgou o vídeo da corrupção nos Correios, o governo tomou as medidas necessárias e esperadas pela opinião pública: foi aberta uma sindicância interna na estatal, instalou-se um inquérito policial, afastou-se o diretor da área envolvida e foi suspensa a milionária licitação sob suspeita. O ministro da Justiça, Thomaz Bastos, afirmou na ocasião que “o governo federal é absolutamente intransigente com a corrupção. Pior que a corrupção é a corrupção impune” (JUNIOR e FRANÇA, 2005, p. 40). Também o ministro da Casa Civil, José Dirceu, mostrou-se indignado e afirmou: “Este é um governo que não rouba e não deixa roubar”, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo (apud JUNIOR e FRANÇA, 2005, p. 40).
A questão é que as providências tomadas, por mais eficazes que venham a ser, são bastante insignificantes perante a dimensão do caso e, portanto, insuficientes para tocar o cerne do problema. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) instalou um esquema de corrupção não apenas nos Correios, mas dentro da máquina pública, comandado pelo deputado Roberto Jefferson. O funcionário dos Correios, Maurício Marinho, flagrado recebendo a propina revela e descreve as “maracutaias na estatal, cita algumas empresas nas quais as malhas de roubalheiras do PTB tem ramificações — além dos Correios, ela fala em Infraero, Eletronorte, Petrobras. Com certeza, faltou mencionar uma em especial: o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB)” (apud JUNIOR e FRANÇA, 2005, p. 40).
Sabemos que crise política instalou-se após a veiculação de um vídeo em que Maurício Marinho é flagrado recebendo propina de R$ 3 mil. A partir desse vídeo, o então deputado Roberto Jefferson passou a denunciar o esquema do governo petista que desencadeou a maior crise política dos últimos anos.
Segundo a “lista de especialistas ouvidos pela revista Veja, o conteúdo das quase duas horas de conversa filmada contém confissões e relatos de como se conduz à roubalheira no mundo oficial brasileiro” (OLTAMERI e col., 2005, p. 72).
O problema gira em torno da entrevista exclusiva à Folha de S.Paulo, em 6 de junho de 2005, dada pelo então deputado federal e presidente nacional do PTB Roberto Jefferson, em que ele acusava o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT), Delúbio Soares, de pagar um “mensalão” a parlamentares em troca de apoio no Congresso.
Segundo denúncias, a cifra era de R$ 30 mil mensais, entregues aos representantes do Partido Progressista (PP) e Partido Liberal (PL), e que essa prática teria durado até janeiro de 2005.
Compondo a base aliada do governo, o deputado Roberto Jefferson afirma ter comunicado a prática de mesada aos ministros José Dirceu (Casa Civil) e Antônio Palocci (Fazenda) no ano anterior, mas a prática teria perdurado. Conta que fez então a denúncia ao presidente Luís Inácio Lula da Silva, no início do ano. Segundo Jefferson, Lula chorou ao ser informado. A partir daí, afirma, o “mensalão” acabou.
As denúncias conduziam ao pedido de CPI que o governo quis abafar. O deputado, antes contra a abertura da comissão, agora se dizia a favor. A mudança de idéia, segundo o deputado, foi porque o governo quis isolar o PTB. “Vai ter que sangrar a cabeça de alguém na guilhotina tem que haver carne e sangue aos chacais. Estou percebendo que estão evacuando o quarteirão e o PTB está ficando isolado para ser explodido” (apud LO PRETE, 2005, p. 4).
Jefferson afirma que a cúpula do PTB não aceitou a oferta do “mensalão” feita em 2003, e foi nessa época que ele denunciou a prática aos ministros e líderes do governo. “O Zé [Dirceu] deu um soco na mesa: ‘O Delúbio está errado. Eu falei para não fazer’” (apud LO PRETE, 2005, p. 4).
Para explicar a mesada, Jefferson diz que “é mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder” (apud LO PRETE, 2005, p. 4). Para o deputado, o PT, “nos usa [aos partidos aliados] como uma amante e tem vergonha de aparecer conosco à luz do dia” (apud LO PRETE, 2005, p. 4).
“Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira. Ele continua dando ‘mensalão’ aos deputados” (apud LO PRETE, 2005, p. 4). Que “mensalão”?
Jefferson explicou. O presidente chorou. E indagado após a conversa com Lula: “Tenho notícia de que a fonte secou. A insatisfação está brutal [na base aliada] porque a mesada acabou” (apud LO PRETE, 2005, p. 4).
Jefferson conta que José Carlos Martinez, então presidente do PTB, o procurou e disse: “Roberto, Delúbio [Soares, tesoureiro do PT] está fazendo um esquema de mesada, um ‘mensalão’ para parlamentares da base. O PP, PL, e quer que o PTB também receba. Trinta mil para cada deputado, o que você me diz disso? Eu digo: sou contra. Isso é coisa de quinta categoria. Vai nos escravizar e desmoralizar” (apud LO PRETE, 2005, p. 4).
Um exemplo foi o caso em que o senador Fernando Bezerra, líder do governo no Congresso não poderia empossar um indicado seu, enquanto não incluísse uma licitação milionária do interesse do PT naquela estatal. Havia indícios que os diretores indicados pelo PT em estatais beneficiavam Henrique Brandão. Brandão, corretor do IRB, estatal de resseguros, é amigo e sócio de Jefferson e contribuía em campanhas de seu interesse. Consta também que Brandão falava em nome do partido e reivindicava do presidente do IRB uma mesada R$ 400 mil para o PTB. Jefferson foi pressionado por seus correligionários sobre esse fato, do qual eles não tinham conhecimento. Jefferson negou a mesada, mas não convenceu.
Conforme matéria publicada pela revista Veja, entre os dois partidos: “o que existe e é irrefutável é o fato de que a aliança entre os dois partidos, principalmente quando se tenta verificar o que há debaixo do tapete, exibe um vigor e uma solidez que vão além dos compromissos pragmáticos e dos interesses políticos mais evidentes entre as duas agremiações” (CABRAL, 2005, p. 50).
O PTB, que obteve nas últimas eleições 26 deputados e hoje conta com 47, credita ao Palácio do Planalto esse importante aumento, e que ele não se deu por ideologia e tampouco por argumentos políticos. Com 23 anos de mandato, Jefferson afirma jamais ter visto tal prática acontecer no Congresso Nacional, e relata: “A relação com o PT não é boa, não é boa. Você não pode confiar; o que está fechado não está fechado. Tudo que é dito não é cumprido. Toda palavra empenhada não é honrada” (apud LO PRETE, 2005, p. 6).
Como forma de impedir a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, o Palácio do Planalto utiliza todos os meios: ameaças, cargos e
dinheiro. Depois de algumas tentativas frustradas, os ministros Aldo Rebelo e José Dirceu conseguiram falar com Jefferson, na tentativa de impedir a criação da CPI. Mas Jefferson estava implacável e dirigindo-se a José Dirceu acrescentou: “Na cadeira em que eu sentar na CPI, também vai sentar você, o Delúbio e o Silvinho”. (CABRAL, 2005, p. 48). Jefferson se referia ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e ao secretário-geral do partido, Sílvio Pereira, este com participação direta na distribuição de cargos federais aos aliados.
Havia indícios de que o PT tinha participado no esquema ilegal dos Correios, desvendado pelo jornalista Policarpo Junior, da sucursal da revista Veja em Brasília (CABRAL, 2005, p. 48).
A oposição, diante das evidências da corrupção sistêmica, queria instalar a CPI. O governo contra-atacava, dizendo que a CPI era “golpismo” das elites por não aceitar um operário na Presidência da República. Alguns ministros tentaram minimizar o discurso do presidente, como foi o caso de Aldo Rebelo, que chegou a “insinuar que a crise atual é semelhante à de 1954, que levou Getúlio Vargas ao suicídio e, a de 1964, que resultou no golpe militar” (CABRAL, 2005, p. 48).
O presidente Lula acha que agora a CPI deveria ser instalada e que precisa funcionar. No depoimento de Maurício Marinho na Polícia Federal, ele diz que suas palavras foram meras “bravatas”. Também, em depoimento ao Ministério Público, Roberto Jefferson afirmou que tivera mais contatos com Marinho do que havia admitido no discurso em sua defesa, na Câmara.
A rápida investigação não substituiu o trabalho da CPI. O repórter da revista
Veja acredita que
Nenhuma outra instância, seja a Polícia Federal, seja o Ministério Público, tem a prerrogativa de propor mudanças institucionais com base em suas investigações. Uma CPMI tem. A CPMI dos Correios pode desvendar o esquema de corrupção do PTB em vários setores do governo e, calcada nisso, sugerir, por exemplo, que se reduza o número de cargos de confiança na esfera federal — uma forma de evitar que legendas fisiológicas abram suas picadas na máquina pública. Só uma CPI pode fazer isso (CABRAL, 2005, p. 51).
Houve muita negociação entre os partidos para instalar a CPI. Parlamentares assinavam e retiravam assinaturas, até que houve a sua aprovação, com 236 deputados e 52 senadores. Dentre esses números, 14 deputados e 1 senador eram do Partido dos Trabalhadores, do atual governo federal.
O ex-assessor de imprensa do presidente Lula, o jornalista Ricardo Kotscho, desabafa ao escrever um artigo publicado no site de notícias de opinião “No Mínimo”: “Você pega os jornais e não sobra sobre pedra no cenário político, pinta um fim de feira moral, de desesperança de indignação, de salve-se quem puder, de tudo ao mesmo tempo” (CABRAL, 2005, p. 48).
No intuito de impedir a instalação da CPI, o governo utiliza todos os meios ao seu alcance: “Anunciou que poderia gastar 773 milhões de reais e chegou a desembolsar 12 milhões para financiar emendas ao Orçamento que viabilizam obras de interesse direto dos deputados em seus feudos eleitorais. Também ameaçou demitir apadrinhados de parlamentares que apoiassem a CPI e, é claro, prometeu punição aos petistas rebeldes. Tudo, porém, em vão” (CABRAL, 2005, p. 48).
A CPI finalmente é instalada. Começa, então, o espetáculo das TVs Câmara e Senado, que passam a transmitir ao vivo as sessões, recheadas de depoimentos. Poses, retórica, insultos, apartes, vale tudo para se conseguir alguns segundos a mais de fama na TV. Enquanto isso, as toneladas de documentos solicitados pela CPI e já entregues permaneciam sem exame: a análise dos documentos não aparecia na mídia. Em seu depoimento na Câmara, Jefferson revela ter um acordo fechado com o PT, o qual daria dinheiro para financiar sua última campanha municipal. Segundo Jefferson, Marcos Valério “teria levado malas recheadas com notas de 50 e 100 reais etiquetadas pelo Banco do Brasil e pelo Banco Rural. Em duas viagens, ele teria dado quatro milhões de reais ao presidente do PTB e prometido fazer mais quatro entregas iguais. Depois, teria acertado com o presidente do PT, José Genoíno, uma forma de legalizar o dinheiro, o que nunca aconteceu” (EDWARD e PATURY, 2005, p. 56).
Após as denúncias, Valério, orientado por seus advogados, não falou com a imprensa, refugiando-se em sua casa em Belo Horizonte. A revista Veja tentou entrevistá-lo sem êxito; contudo, através de um assessor, ele afirmou que Jefferson havia mentido em seu depoimento: “Todas as acusações que o deputado imputou são
mentirosas. Vou desmascarar uma por uma no Congresso ou nos tribunais que são fóruns adequados” (apud EDWARD e PATURY, 2005, p. 56). Marcos Valério “era um personagem até as denúncias de RobertoJefferson conhecido apenas nas sombras dos ministérios. Apresentava-se e era apresentado como publicitário” (EDWARD e PATURY, 2005, p. 56). Valério não é publicitário. Na verdade ele comprou participações em agências publicitárias. Era lobista do sistema financeiro. Aos 48 anos, casado, pai de dois filhos, trabalhou como balconista em farmácia, trabalhou no Banco de Minas Gerais (Bemge), iniciou como contínuo, chegou a gerente e depois a conselheiro da distribuidora de valores do banco. Foi para Brasília no final dos anos 1980 para trabalhar como “assessor informal” do então presidente do Banco Central, Elmo Camões, que perdeu o cargo após o envolvimento de seu filho em falcatruas do mercado financeiro. Valério, então, passa a apresentar-se como consultor do mercado financeiro. “Sua tarefa era representar os bancos, principalmente os de Minas, nas suas negociações com o Banco Central” (EDWARD e PATURY, 2005, p. 56).
No mundo da publicidade há apenas 9 anos, comprou a SMP&B, uma agência de Belo Horizonte que passava por dificuldades financeiras. Idealizou o plano para resgatá-la e convidou o governador de Minas, Clésio Andrade, do PL, para financiar a empreitada. Valério convenceu Andrade a comprar a agência de Daniel Freitas, sobrinho do vice-presidente José Alencar. Andrade tornou-se sócio nos dois casos com 50% do capital, passando a Valério 10% como pagamento pela efetivação do negócio. Valério comprou as duas agências no ano seguinte.
Desde o governo Sarney, o publicitário vinha se dando bem. No governo Fernando Henrique Cardoso, tinha um bom relacionamento com o ex-ministro das Comunicações, Pimenta de Veiga, e foi a partir daí que a agência SMP&B começou a atender os Correios. Essa ligação com os tucanos continuou até 2002, após Pimenta apoiar José Serra para presidente. Voltou à campanha de Serra, sem abandonar o amigo Pimenta da Veiga.
Valério procurou entrar no PT no segundo turno da eleição presidencial. Os caminhos foram facilitados por ele ter sido sócio do sobrinho do vice-presidente, José Alencar, e por Virgílio Guimarães que, segundo consta, fazia de graça a sua campanha a deputado do PT. Lula foi para o segundo turno, mas era preciso saldar as dívidas do primeiro turno; foi aí que Valério aproximou-se de Delúbio Soares, o
tesoureiro do PT, e do secretário-geral do PT, Sílvio Pereira. Lula, eleito presidente, Valério passa, através da agência DNA, a fazer a campanha do petista João Paulo Cunha para a Câmara dos Deputados. Eleito João Paulo, Valério ganha “a conta de 9,8 milhões de reais da casa para a sua outra agência, a SMP&B” (EDWARD e PATURY, 2005, p. 56). Passa a fazer amigos poderosos no governo. Com a ajuda do amigo e deputado do PT Virgílio Guimarães,
levou José Augusto Dumont, do Banco Rural, para uma reunião no Banco Central. Dumont era porta-voz dos ex-banqueiros Armando Monteiro Filho, do Mercantil de Pernambuco, e Ângelo Calmon de Sá, do Econômico. A massa falida dessas instituições detém títulos públicos que interessam ao Banco Rural. Há 5 anos, eles pedem sem sucesso que o Banco Central autorize a venda desses papéis, um negócio de 5,5 bilhões de reais. O Banco Central não topou (EDWARD e PATURY, 2005, p. 56).
Valério e Dumont se uniram ao tesoureiro petista para criar o Banco dos Trabalhadores, que centralizaria a movimentação bancária de todos os sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores (CUT). A idéia não vingou devido à morte de Dumont em acidente de automóvel.
Entre 2003 e 2004, Valério e Delúbio mais uma vez tentam um plano de campanha para as pequenas e médias prefeituras que o PT estivesse disputando. Mais uma vez teria um caixa único. No interior de São Paulo chegou-se a implantar o plano. “O governo Lula foi generoso com as agências de Valério” (EDWARD e PATURY, 2005, p. 59).
O Banco do Brasil teve um gasto de publicidade que saltou de R$ 153 milhões para R$ 238 milhões, entre 2003 e 2004, um aumento de 55%, superior aos registrados nos anos anteriores. Desses, 30% foram para a DNA. Só em propaganda, o Banco Popular do Brasil, subsidiária do Banco do Brasil, gastou 24 milhões de reais. O objetivo desse Banco Popular é emprestar dinheiro à população de baixa renda.
Em 2004, Daniel Dantas, dono do Banco Opportunity, que veio a tornar-se inimigo de boa parte do partido em 1998 por adquirir a Brasil Telecom com o dinheiro dos fundos de pensão estatais, pede a Valério que interfira no sentido de azeitar sua relação com o PT. Com a vitória de Lula, pediu que lhe apresentasse a
Delúbio. A ponte entre o Opportunity e o PT renderia à agência DNA as contas da Telemig Celular e da Amazônia Celular, ambas de Dantas. Delúbio começa a facilitar no governo a abertura de caminho para Dantas e conta com o apoio de peso do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, amicíssimo do ex- ministro da Casa Civil, José Dirceu, e do secretário geral petista, Sílvio Pereira. Contra esse quarteto é impossível lutar, eles conseguiram demitir Sérgio Rosa, que liderava dentro do governo uma guerra contra Dantas. O ministro das Comunicações, Luiz Gushiken, não se curvou a esse grupo e impediu o acesso de Dantas.
Em 2004, Valério rompe com o Opportunity de forma obscura; as relações amistosas agora viram ameaças. Valério credita ao Opportunity as gestões para que Karina Somaggio, sua ex-secretária, o denunciasse.
Em entrevista à revista IstoÉ Dinheiro, Karina confirma as denúncias de Roberto Jefferson sobre as malas de dinheiro. “Já vi o boy sair com o motorista para tirar um milhão de reais do Banco Rural. Para dividir dinheiro, entendeu?”, afirma ela (EDWARD e PATURY, 2005, p. 59).
Desse modo, adotando para as notícias um invólucro poderoso de símbolos — malas de dinheiro, dinheiro na cueca, dinheiro da igreja, dinheiro de Cuba — os meios de comunicação de massa fidelizaram a audiência. Como resposta, a opinião pública passou a se manifestar, em diferentes instâncias, mostrando reprovação às atitudes noticiadas — mesmo que raramente comprovadas por documentos. Às vésperas de um ano eleitoral, com o fantasma do chamado caixa dois rondando mandatos e campanhas, as instituições estatais atingidas passaram a observar com maior cautela as reações da opinião pública às acusações veiculadas pelos meios de comunicação.
Um fato que ilustra bem esse cuidado é o do recesso parlamentar federal remunerado, recebido com indignação pela opinião pública. Assim que a mídia veiculou o período de recesso e o valor dos salários extras que seriam pagos aos parlamentares, muitos deles renunciaram ao pagamento ou doaram seus vencimentos do período a instituições sem fins lucrativos, geralmente assistenciais. Fecha-se o círculo: a mídia veicula fatos que formam a opinião pública que induz as organizações a ações que são noticiadas pela mídia que formam opiniões.
Em meio à euforia noticiosa dos meios de comunicação comerciais, a maior revelação da mídia ficou por conta da TV Senado. A partir da veiculação dos depoimentos da CPMI dos Correios, ela se tornou um sucesso de audiência e fonte de imagem e som para todas as emissoras. A programação predileta eram os depoimentos para a CPMI, que muitas vezes acabavam por sair do ar por decisão do Senado, que, em ordem de prioridade, colocou por último as atividades da Comissão de Inquérito. Esse fato faz com que muitos parlamentares cheguem cedo para que suas aparições não coincidam com as atividades do Senado. Há ainda pessoas, como a senadora Heloísa Helena, do Partido da Solidariedade (PSOL), que desconfiam de tal critério adotado.
Atualmente, a TV Senado está nos pacotes das televisões pagas NET e SKY, atingindo 3 milhões de assinantes. Transmite em UHF para a região do Distrito Federal e é captada pelas 8 milhões de parabólicas do país. No total, 4,4 milhões de pessoas têm acesso à emissora.
A TV Senado pode ser acessada pela internet, e pela alta demanda abriu um segundo canal, que transmite as sessões on-line e sem interrupções. A mesma procura ocorreu com o Alô Senado, sistema 0800, que aumentou significantemente com a CPI dos Correios.
Devido à audiência e repercussão, o Senado obteve do Ministério das Comunicações o direito de não ser veiculado somente por assinaturas para Salvador, Manaus, Recife e Fortaleza e para as outras capitais, quando a transmissão for digital, já que o dial está lotado nas demais cidades no momento.
Com um orçamento de R$ 21 milhões e uma equipe de 127 profissionais, a TV Senado passou a incomodar as grandes redes que vetaram, por exemplo, um decreto presidencial que obrigava que 15% da grade fosse produzida nos próprios municípios.
Essa performance confirma e reforça as afirmações de José Arbex Junior sobre a espetacularização da notícia pela televisão. Entre sentimentos de indignação e curiosidade, o que a audiência sintoniza, nos episódios da corrupção, é o show, o espetáculo de depoentes e interrogadores. É a novela ao vivo, em que vilões e