1.4 Crime e violência no Brasil
1.4.1 A mídia e o crime
No imaginário da sociedade, principalmente da classe dominante, a violência é algo externo, não ligada às questões sociais, mas é um comportamento desviante da ordem estabelecida, que necessita de instrumentos punitivos e repressivos para que seja homogeneizado o comportamento e novamente restabelecida a ordem social: “O comportamento violento é quase sempre pensado dentro de referenciais negativos, como expressão daquilo que deveria ser, que falta, que se projeta da ordem do ‘outro’” (DIÓGENES, 1998, p. 87).
Fica explicita a ótica da mídia que vê a violência como algo externo à sociedade quando a Revista Veja (2007, nº1, pgs. 46 a 88) traz um especial sobre o Crime, ás páginas 76- 47 sobre impunidade; expõem sobre a indústria do tráfico de drogas as páginas 50 a 63; corrupção e demais crimes correlacionados com e atribuídos a policiais são vistos nas páginas 68 e 69. Nas páginas 70 a 75, retoma-se as questões relacionadas ao tráfico de drogas e uma pequena matéria discute, superficialmente, a questão da delinqüência juvenil. Por último trazem as páginas 80 e 81 uma matéria que, de modo enfático, finaliza a questão, relatando sobre psicopatas e destacando-se a teoria do Atavismo de Lombroso, já citado nesta dissertação, quando da abordagem da antropologia criminal, item 1.3.1.
Ao interpretar a reportagem supracitada fica claro para o leitor que o problema está na falta de estrutura repressiva, imperativo que endureça a legislação, manter preso o infrator ou o criminoso, para enfim manter a ordem estabelecida, porque o erro está no desvio de comportamento ou na genética do criminoso. É essa visão que a mídia em si, no Brasil, passa para a sociedade, de desvio de comportamento, de necessidade de intervenção imediata, sem questionar a questão socioeconômica do país, como se o problema estivesse fora da sociedade, esquecendo também da violência das grandes corrupções, do descaso com crianças e idosos.
Outro aspecto da influência da mídia no imaginário da sociedade reside no fato de que existe uma cultura de massa, que implica em consumo para que se adquira a cidadania. Posteriormente, contudo, esse consumo é negado de diversas formas::
O padrão veiculado pela mídia não impõe só um modelo estético e sinalizador de um “status” social almejado, mas também um modelo de cidadania – quem não o ostenta é imediatamente jogado para o campo dos desqualificados do convívio social, sob a suspeita de marginalidade ou de delinqüência, ou simplesmente pela demonstração da incapacidade de consumo. (ABRAMO, 1994, p. 73).
No século XXI, a mídia além das abordagens supérfluas, sem aprofundamento quanto às reais causas da violência, apresentam os fatos de forma sensacionalista. Este tipo de abordagem gera, em primeiro lugar, um pânico generalizado e, em conseqüência, acontecem alguns fatores que vão agravar ainda mais a situação de exclusão e violência:
a) Aparecem os grupos de extermínio ou de vingança privada, retrocedendo aos séculos anteriores com a vingança privada e o Código de Talião. Estes grupos armados, sem preparo psicológico para a compreensão do problema, somente acirram e promovem mais violência: ”o mais grave é que desses grupos organizados, fazem parte conhecidos assassinos que agem, às vezes, ao lado de policiais” (WILSON, 1984, p.81)
b) Condomínios fechados são construídos diariamente como forma da garantia do sentimento de “proteção”, excluindo os pós-muros. Estes condomínios recordam a época medieval onde os castelos, rodeados de muros gigantescos com exércitos (guardas) e canhões, procuravam não ver a miséria e a pobreza em que vivia a plebe. Toda a exploração da nobreza gerava riscos para esta mesma nobreza que buscava defender-se.
Enfim, todos os conglomerados urbanos são agora construídos como espaços perigosos e que exigem barreiras de proteção do viver urbano como isolamento em universos à parte, segundo o modelo xenofóbico dos condomínios fechados que a nossa classe média branca herdou da classe média branca norte-americana. (CARVALHO, 2001, p.105)
c) O medo e a incerteza geram a indiferença pelo outro e a recusa de movimentos em prol dos direitos humanos:
Vale a pena lembrar, ainda, que os meios de comunicação de massa tiveram um papel importante na articulação da campanha contra os direitos humanos [...] Para as camadas populares, o principal veículo, foram programas de rádio que recontam crimes, sobretudo o de Afanásio Jazdji. Embora o tom varie substancialmente, e se abuse da linguagem jurídica, de um lado, e de referencias a corpos mutilados, de outro, em todos os contextos exagera-se a sensação de insegurança e de ameaça, explora-se a inumanidade dos criminosos, e ataca-se a competência dos defensores dos direitos humanos, que são ainda, responsabilizados pelo aumento da criminalidade (BICUDO, 1984, p. 87).
Barros (1980, p.104) critica a informação do juiz corregedor de presídios quando este revela a existência da organização criminosa denominada Serpente Negra. O autor afirma que o juiz, para tal, contou com o apoio do jornal O Estado de São Paulo e da máfia carcerária com os objetivos de: manipular a opinião pública contra os direitos humanos e contra a humanização dos presídios - preconizados pelo então Secretário de Justiça e pelo Arcebispo de São Paulo - e ainda de acusar advogados independentes dos esquemas estabelecidos; responsabilizar a esquerda pelas conseqüências políticas do fato; restaurar privilégios de carcereiros envolvidos no esquema e, por fim, impossibilitar a organização dos presos que contestavam esse esquema de violência-corrupção- submissão no interior dos presídios.
Barros, faz uma analogia entre as denúncias realizadas pelo Sindicato da Magistratura Francesa no 8º Congresso, realizado em 1975, e a atual utilização político-ideológica da delinqüência no Brasil:
[...] O primeiro objetivo da campanha sobre a insegurança e a delinqüência[...]de estabelecer uma cortina de fumaça que desvie a atenção dos problemas objetivos que o governo não quer ou não pode resolver.[...]O segundo objetivo é de designar responsáveis aqueles que estão o mais afastados possível do governo e da classe social que ele representa[...]O terceiro é mais sutil. Focalizando a opinião pública sobre certas categorias de delinqüência, desvia-se sua atenção das outras formas de delinqüência.[...]A delinqüência do colarinho branco, por exemplo, ou os acidentes de trabalho.O último objetivo, o mais importante, é o de estimular o clima de medo e, portanto de tensão e de violência que justifique o crescente controle do Estado sobre os cidadãos e a existência ou o reforçamento do aparelho repressivo.(BARROS, 1980, p. 105).
O que é possível concluir destas análises quanto à violência é que a mesma é cultuada pela mídia, de forma a repassar uma ideologia que somente interessa ao poder dominante. Desta forma, exploram a violência da classe excluída e subterfugia a violência dos políticos e da classe dominante, gerando ainda mais relações conflitantes e que segregam:
[...]a expansão metonímica da segurança provoca a expansão dos mecanismos de segregação social, que convidam a um acirramento sistemático das relações violentas entre os contingentes separados pelas grades, concretas e virtuais( CARVALHO, 2001, P.106).
Portanto, outras reflexões são necessárias para a compreensão da dissertação, a seguir.