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Teorias atuais

No documento Download/Open (páginas 39-44)

A criminologia crítica pretende estudar não somente o comportamento da sociedade criminógena, mas verificar as reais causas dos crimes, suas conseqüências; questionar as instituições democráticas que desempenham o papel de inibidores do crime (leis, Ministério Publico, Poder Judiciário, presídios) e os conceitos pré-estabelecidos sobre justiça e crime.

1.3.4.1 – Teoria da rotulação

Essa teoria surgida em 1960 percebe a criminalidade como reação social, visto que, o crime não existe, é uma criação do ser humano para a manutenção da ordem social. Destarte, o criminoso difere do homem normal apenas pela rotulação de “criminoso” que lhe é imputado pelas instâncias formais de controle, por isso a sociedade tem o criminoso que lhe convém.

Um estudo realizado sobre o tema “Delinqüência: Etiologia” traz uma grande contribuição desta teoria ao estigma existente com relação ao criminoso, contribuindo para outras exclusões sociais e, portanto, para novo desvio de comportamento.

Lemert (1951, 1972) introduziu um novo conceito, o de desviação secundária. Sua explicação é a seguinte: o desvio primário, tal como o crime, o alcoolismo, o vício de drogas, que se originam numa variedade de fatores sociais, psicológicos, culturais e fisiológicos, tem como conseqüência para os indivíduos com esse desvio sua deparação, com problemas morais, que giram em torno da estigmação, punição e segregação. A resposta do desviante a esses problemas que se tornam cruciais em sua existência pode alterar sua estrutura e, então, ele se concebe como um desviante, o que consiste na desviação secundária. Assim, a rejeição pela comunidade da normalidade do desviante mantém sua desviância. (PASQUALLI, 1987, p. 155).

Essa abordagem é importante para a compreensão das dificuldades encontradas pelos egressos do presídio em conseguir trabalho, em interagir com a sociedade, em retomar sua vida social e pessoal, o que acaba por gerar reincidências: “quando um homem é preso, jogado num camburão e levado à carceragem, seja culpado ou não, a família dele – esposa, companheira, e filhos – fica marginalizada, malvista.”(PASTORE, 1991, p.35).

A Pastoral Carcerária presencia diariamente este estigma imbuído no sentimento comunitário em relação aos egressos, tornando-os rejeitados pela sociedade civil, pelas empresas e muitas vezes, por sua própria família: “O maior drama de um egresso é estar marcado”. Por estar marcado, ele não encontra emprego, os vizinhos marginalizam sua família e ele se vê tendo que enfrentar uma cidade estranha. (PASTORE, 1991, p.36).

Um caso inusitado e que comprova as afirmações anteriores é trazido pelo Jornal O Popular do dia 17 de janeiro de 2007. Na história, um ex-detento solicita o retorno à Casa do Albergado, tendo como argumento não conseguir propiciar as condições impostas para a concessão de regime aberto domiciliar com prestação de serviços. Tal pedido levou o promotor a concluir que só a falta de política de assistência social e, conseqüentemente, a falta de condições que o egresso encontra de prover seu sustento justifica uma pessoa optar pela prisão:

O promotor salienta que, sem família, casa ou emprego, o requerente não possui qualquer perspectiva de recuperação, caso permaneça no regime aberto domiciliar. Diante da situação e considerada a impossibilidade confessada pelo sentenciado em cumprir as condições impostas para o regime domiciliar, o promotor opinou pelo deferimento

do pedido. (LADISLAU, http://opopular.globo.com/anteriores/17janeiro2007/colunas/direito.htm,

2007, ).

A Pastoral Carcerária percebendo este drama desenvolveu os objetivos específicos na Normatização da Pastoral Carcerária, incisos VIII, IX, XI, XII, XVII e XX, conforme, anexo II, visando trabalhar o conceito e desmistificar o estigma da comunidade em relação à questão do preso e de sua família, dando a estes novas oportunidades e minimizando os entraves encontrados na interação social e ainda através do envolvimento com o fenômeno religioso.

Buscando a interação com e o estabelecimento de uma nova visão mais humanizada sobre o cárcere e o encarcerado, a estratégia constituída pela pastoral para tal transformação foi articular com a sociedade organizada, clubes de serviços, maçonarias e igrejas, visitas aos presos, bem como, discussões sobre a problemática da criminalidade e da violência no Brasil, numa perspectiva de análise social.

1.3.4.2 – Teoria etnometodologia

Essa teoria surgiu nos anos 60 e tem como base a fenomenologia que estuda a relação social do ser humano, prega a precisão do exame da inter- subjetividade do cotidiano para penetrar nas regras, atitudes, linguagem, significados e expectativas assumidos pelo homem no universo social. A etnometodologia da delinqüência confere, então, enorme relevo ao conhecimento sociológico do comportamento desviante, considerando, portanto, o crime como uma construção social na vivência do agente criminoso a ser interpretado pelas

instituições tidas como de controle (Legislador, Polícia, Ministério Público, Juízes e Órgãos de Execução Penal) para satisfazer as exigências suscitadas pela comunhão social.

A repercussão da delinqüência juvenil é o exemplo típico de preocupação dessa tendência criminológica. H. GARFINKEL, Professor da Universidade da Califórnia, nos Estudos Unidos, é o pai do pensamento Etnometodológico. Situam-se também, na mesma linha dos postulados metodológicos da Etnometodologia Criminal, os seus seguidores N. DENZIN, J. DOUGLAS e A. CICOUREL.(OLIVEIRA,http://www.ufpa.br/posdireito/caderno3/texto2_c3 .html).

1.3.4.3 – Teoria radical ou marxista

Esta teoria diverge das duas anteriores, considerando-as tradicional, pois para a mesma, o problema do crime se fundamenta na estruturação e na cultura da sociedade capitalista, que é alicerçada no acúmulo do lucro, produzindo uma sociedade de classes injusta e desigual, gerando pobreza, fome, doenças, exclusão e morte (LÖWY, 1991, p. 102).

Essa preocupação com a exclusão, com a opressão, que gera a violência do ser humano em relação a si próprio e nas estruturas sociais, já vem como um apelo e uma intervenção divina, isto é, do Sagrado agindo na realidade humana:

Iahaweh disse: ‘Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que emana leite e mel[...] Vai, pois, e eu te enviarei a Faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os israelitas’.(Ex 3, 7-10).

Nesta mesma dinâmica, outras passagens do Antigo Testamento, evidenciam o conceito ético e os valores fundamentais que foram resgatados pelos profetas (Is 10, 1; 3, 14-15; 1, 23), (Am 4, 1; 10-12; 3, 10). Desta feita, constata que os profetas de Israel trabalham num conceito ético elevado, como fica claro: “Detesto as festas de vocês, longe de mim o ruído de seus cânticos,

nem quero escutar a música de suas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como riacho que não seca"(AM 5, 21-24).

No projeto político-religioso de Jesus, a questão social é sobremaneira enfatizada na sua estratégia como ponto de referência e práxis:

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar aos pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor (Lc 4, 18-19).

Especificamente quanto ao encarcerado::”Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e vieste ver-me” (Mt 25, 36).Estas como muitas outras passagens bíblicas traz no seu bojo o anseio de uma sociedade em constante transformação e renovação na busca dos direitos iguais e oportunidades para todos e nos é manifesto como foi relatado. Podemos então destacar como verdadeiras fontes motivadoras para a chamada teologia da libertação, social, política dos dias atuais e embasar a práxis social da Igreja.

Nesta ótica, o sistema capitalista é o fator preponderante e estrutural para a geração da violência e da criminalidade. Sendo assim, esta teoria propõe para resolução da problemática, a transformação social.

A violência, neste enfoque, pode ser comparada a uma bipolaridade negativo/positivo, ou seja, de alguns (ativos) contrapostos a outros (passivos), sendo o Estado o instrumento de violência sob o comando da classe dominante. No “Manifesto do Partido Comunista”, Marx e Engels falam sobre a “guerra civil”, existente na sociedade, “até a hora em que essa guerra explode numa revolução aberta e derrubada violenta da burguesia estabelece a dominação do proletariado” (DIÓGENES apud MARX, ENGELS, 1998, p.78).

Mesmo considerando a individualidade de cada ser humano, sua genética, fatores comportamentais, psíquicos e sentimentais, a associação da delinqüência, vivenciada na atualidade somente pode ser explicada como fator social, de sua organização, dos acessos aos bens, serviços e poder.

O tema da criminalidade e da violência é complexo, envolvendo diversas variáveis, havendo necessidade da interação das diferentes teorias, com base principalmente na questão social:

A violência, de fato, aumenta e em ritmo razoável. As taxas de homicídio no Brasil, dobram a cada 10 anos. Em meados dos anos 60, tínhamos na cidade de São Paulo, cerca de seis homicídios por mil habitantes [...] as vítimas mais freqüentes são jovens do sexo masculino, negros e pobres. O homicídio não atinge, toda população indiscriminadamente. O estudo do porquê desse aumento não é simples, pois há muitas variáveis a analisar: renda, infra-estrutura, moradia, crescimento populacional, evasão, repetência escolar, entre outras. Temos trabalhado dados agregados e procurado corrigir distorções. Até agora, foi possível relacionar os homicídios entre jovens ao intenso congestionamento domiciliar (CARDIA, 2001, p.10).

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