2.1. A FORMAÇÃO DO MST E A COMUNICAÇÃO NO MOVIMENTO
2.2.2. A mística no MST e o agenciamento do passado
Um elemento presente em encontros e congressos e que é destacado nos documentários do MST é a realização das chamadas místicas. No vídeo 4º Congresso
Nacional, a sequência que enfoca a realização da mística inicia-se com o enquadramento de um grupo de pessoas picotando jornais de papel. A câmera foca uma dessas pessoas e, através de legenda, apresenta a militante como Regina, do MST do Paraná (Figura 25). Ouve-se o pedido de uma voz em off direcionado a ela: “Me conta o que vocês estão fazendo aí.” Ela então explica o que grupo está fazendo: “A gente tá rasgando papelzinho pra poder fazer parte da mística.” Regina pausa sua fala, provavelmente por ter de fato respondido a pergunta feita a ela. Contudo, diante da continuidade da filmagem, ela retoma a fala, explicando o que é a mística: “A mística é uma forma que a gente encontrou de expressar ou representar, contar um pouco da nossa história através de encenações, teatros e falas”.
Essa sequência é inserida no início do documentário, logo após a sequência que representa a preparação da estrutura do congresso, com as pessoas chegando e desembarcando dos ônibus e montando as tendas e barracas. Após a fala de Regina, o documentário mostra a multidão dentro do ginásio, e a sensação de euforia e deslumbramento causada pela bonita chuva de papel picado (Figura 26). A cena é seguida por imagens das demais encenações da mística, revelando o modo como a mística conta um pouco da história dos Sem Terra, tal como afirmado pela militante.
Figuras 25 e 26
A mística é um objeto já bastante estudado no campo da história e das ciências sociais e humanas por meio de trabalhos que adotam os mais diversos enfoques, como a descrição do diversos elementos simbólicos presentes na realização de místicas, a análise da dimensão educativa da mística, da questão política incorporada nessas manifestações, etc. A partir da problemática desta pesquisa, abordo de que modo as manifestações de mística foram ocularizadas pelos videodocumentários, destacando o agenciamento histórico que emerge nas falas e nas imagens da narrativa fílmica. Assim, analiso como a concepção de mística foi apropriada pelo MST e qual o papel da mística na construção dos Sem Terra como sujeito histórico. Com isso, compreendo que a mística consiste em, bem expresso na fala de Regina, “a forma que a gente encontrou de expressar ou representar ou contar um pouco da nossa história”.
Comerlatto (2010), ao apresentar a origem epistemológica da palavra mística, esclarece que, devido aos diversos significados que assume, em diferentes culturas e contextos históricos, seria inviável abranger a totalidade de suas conceitualizações. Por isso, o autor se propõe a assinalar algumas das diversas concepções históricas e epistemológicas do termo.
O autor destaca que a ideia de mística, no seu uso comum sistematizado nos verbetes de dicionários da língua portuguesa, sugere uma ligação entre o indivíduo e o transcendental, designando uma postura de contemplação ou devoção da pessoa que busca uma comunicação direta com o divino, sem a intermediação de agentes religiosos nem a regulação de normas institucionais. Assim, mística se refere a uma dimensão da religiosidade. Contudo, Comerlatto recorre também aos dicionários específicos de filosofia para argumentar que o termo sugere igualmente uma dimensão filosófica de apreensão do saber e da experiência.
Segundo o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnamo (apud COMERLATTO, 2008, p. 67), o registro mais antigo da palavra mística que se tem conhecimento remonta ao século V, nos escritos de Proclo e na obra do chamado Pseudo-Dionísio, ambos filósofos e teólogos cristãos neoplatônicos. Em suas obras, insistem na possibilidade de se conhecer a dimensão divina por meio de procedimentos simples e introspectivos, priorizando a reflexão individual. Comerlatto aponta que Abbagnamo, ao longo de seu verbete, defende que não é adequado tratar a temática da mística pela linha filosófica, apenas teológica, pois a mística se opõe ao uso da razão. Comerlatto se posiciona contrário ao argumento de Abbagnamo,
ressaltando que o uso da palavra no século V foi apropriada por uma teologia cristã, mas possuía antecedentes na tradição filosófica, especialmente a neoplatônica.
Não obstante o debate acerca de se as concepções de mística devem ser entendidas na tradição filosófica ou na teológica, Comerlatto (2008, p. 78) identifica a apropriação da ideia de mística pela Teologia da Libertação como a que influenciou o uso desse termo pelo MST. Por isso, torna-se necessário compreender a concepção de mística formulada e divulgada nas obras ligadas a essa teologia, especialmente nas considerações de Boff e Frei Betto (2005), teólogos que influenciaram sobremaneira a militância dos movimentos sociais brasileiros, principalmente, mas não somente, os ligados à Igreja.
Buscando articular a ideia de mística com conhecimento, Boff (2205) aponta o mistério como algo intrinsecamente presente na existência do ser humano e introduz a palavra mística como um adjetivo de mistério, isto é, mística é a qualificação de algo que não é passível de ser compreendido pelo ser humano por meio do uso exclusivo da razão. Contudo, o mistério não se opõe ao conhecimento e, consequentemente, a mística não deve ser concebida como uma manifestação que exclui o aspecto racional na compreensão do mundo.
A Teologia da Libertação se apropria da figura de Cristo como a de um injustiçado, um homem materialmente pobre e que demonstrou profunda compaixão pelos marginalizados sociais. Nessa concepção, seguir o exemplo de Cristo e vivenciar a mística que ele encarna implica em compromisso com as camadas mais desprovidas da sociedade. Daí Boff conceber a situação dos pobres como questão central na mística (BETTO & BOFF, 2005, p. 83). Por isso, a mística não deve ser apenas contempladora, mas emancipatória, que critica as injustiças do mundo e busca a transformação social. Assim, Frei Betto e Boff inovam a concepção de mística ao incorporar a dimensão política, pregando o compromisso social e o engajamento na luta pelo fim das formas de exclusão e opressão. Reforçando esse sentido político da mística, Boff relaciona-a com a ideia de uma utopia, isto é, com a capacidade de se projetar visões que mobilizam pessoas. As práticas místicas seriam o magma que impulsiona os movimentos sociais emancipatórios, especialmente o MST.
Comerlatto (2010) analisa a mística investigando a realização das manifestações de mística ocorridas durante o Encontro Nacional realizado em 2009, na cidade de Sarandi (RS). Os Encontros Nacionais integram a dinâmica de organização do MST, juntamente com os Congressos. O autor, apresentando o folheto com a programação do Encontro, destaca que no projeto do encontro já é perceptível a importância dada à mística, pois todos os dias foram programados para serem iniciados com o momento da mística. No quadro com a
programação, diversas atividades são distribuídas ao longo do dia (as atividades da manhã, tarde e noite), mas a primeira atividade é sempre a mística. Comerlatto elogia a distribuição da responsabilidade de se realizar a mística por regiões, compreendendo isso como prova de que o MST trabalha na perspectiva de descentralização de suas atividades.
Nesse Encontro Nacional, de 2009, a primeira região encarregada de realizar a mística, no dia da abertura, foi a Região Sul, devido ao fato de o encontro se realizar no Rio Grande do Sul. O autor descreve a mística que precede a abertura no primeiro dia de encontro: os Sem Terra, usando adereços como chapéu de palha, foice e enxadas nas mãos encenam a construção de barracos de lona no palco.
A mística encenada remete à formação do acampamento em Sarandi, o que leva Comerlatto a afirmar que essa encenação se deve por esse ter sido “o lugar onde a luta do MST pela terra começou”. Então o autor, na escrita de seu trabalho, passa a narrar a história do acampamento, desde o conflitos com os povos indígenas da região, a ocupação das glebas Macali e Brilhante, que formavam a Fazenda Sarandi, a formação da Encruzilhada Natalino e a violência do coronel Curió, a migração para Ronda Alta e a ocupação da Fazenda Anonni. Assim, a mística também cumpre uma função de monumento, de fundação e manutenção do mito de origem do Movimento. A mística que singulariza essa origem, realizada pelos militantes da Região Sul e apresentada no ato inicial do Encontro, com o objetivo de se recordar como tudo teria começado, corrobora para a manutenção do mito de origem do Movimento, através do reavivamento da memória coletiva. E influencia a escrita desse mito no âmbito das ciências humanas, quando um estudioso que tem como objeto de pesquisa essa mística, devido à apresentação da mística da Região Sul, passa a narrar em seu trabalho essa memória.
Nessa perspectiva, Camerlatto corrobora para uma memória que funda o início da mística à cruz da Encruzilhada Natalino. O autor afirma que a cruz colocada na entrada do acampamento gerou um forte efeito de comoção entre os acampados e remete a presença do cruzeiro à tradição do catolicismo popular e das missões religiosas, muito presentes na história da região sul do Brasil. Contudo, o autor reconhece que há um processo de transformação e de ressignificação da mística dentro do MST:
Mas a Mística dentro do MST não parou na cruz, pelo contrário, só iniciou. A Mística ao longo do tempo se transformou. Passou dos símbolos extremamente carregados de significação religiosa confessional como a cruz, as missas e cultos, para as manifestações voltadas para o cotidiano e os valores gerais do Movimento
sem ser explicitamente confessional de uma expressão religiosa. (CAMERLATTO, 2010, p. 105).
A mística no MST passou, assim, por um redirecionamento visando a substituição de símbolos explicitamente religiosos. A mística incorporou manifestações artísticas, como canções e danças, estímulos sensoriais, como a chuva de papel do 4º Congresso, mas principalmente a encenação de episódios da história do Movimento e da história do Brasil.
Figuras 27 e 28
Fotogramas de 4º Congresso Nacional do MST.
No vídeo 4º Congresso, após as cenas da chuva de papel, a mística continua sendo representada nas imagens. Observa-se uma encenação de pessoas vestidas de trajes típicos indígenas em confronto com um grupo não indígenas, carregando o que aparenta serem espadas. Por dedução, podemos aferir que a encenação trata de uma representação da colonização da América, com o colonizador dominando o território e expulsando os indígenas. Essa impressão de dominação ocorre devido ao movimento da cena em que se observam os indígenas retraindo, andando para trás, e os colonizadores avançando. (Figuras 27 e 28)
O tema da encenação não é explicado no documentário, nem em voz off, recurso este não utilizado pelo vídeo, nem por alguém que tenha participado do planejamento ou da execução da mística. A imagem é mostrada por si, após a sequência da militante Regina ter explicado em que consiste a mística de forma geral. Essa falta de uma explicação mais detalhada do que se observa reforça o caráter logopático com o qual o documentário trata a
mística. A mística deve ser entendida pelo espectador por meio da reação emotiva do que se vê, sem a interferência de uma voz racionalizadora.
A encenação do conflito entre indígenas e colonizadores não é direcionada por uma perspectiva didática, mas sim artística, estética e emotiva. Observa-se por meio do registro audiovisual que a encenação utilizou elementos estilísticos, como pouca luz e uma trilha sonora dramática. Assim, a mística não se propõe a ser uma aula didática de história, isto é, não objetiva ensinar história da colonização do Brasil para os Sem Terra presentes no Congresso, mas sim reviver a história por meio da encenação de uma memória coletiva, propiciar que cada Sem Terra signifique-a de forma subjetiva.
No MST, a mística é importante por trazer à consciência de seus membros a possibilidade de mudança. Donde a relevância da memória da luta, da comemoração das datas significativas e, não menos, da ideia de um sentido da História. Entre os Sem Terra a mudança é sempre concebida realizando-se pela ação consciente da multidão, unida por um conhecimento da exploração, na luta contra injustiças históricas. (CHAVES, 2000, p. 81)
Há, através da encenação mística, a construção de uma narrativa que agencia de forma subjetiva e emotiva a história do Brasil. A encenação representa a memória social da luta e esse passado adverso é articulado com a concepção de um futuro vitorioso.
Na história dos Sem Terra houve determinado episódio em que ocorreu um conflito entre trabalhadores rurais e povo indígena. O confronto com os índios Kaigangs foi bastante violento, com as casas dos trabalhadores rurais sendo queimadas e as famílias expulsas da reserva (FERNANDES E STÉDILE, 2005. p. 25). Contudo, um caso de antagonismo entre os trabalhadores rurais e indígenas é inviável nas místicas. A mística torna invisível possíveis antagonismos entre grupos marginalizados em função da construção de uma unidade entre os Sem Terra e demais grupos socialmente oprimidos. Essa unidade não se dá necessariamente pela experiência, mas por uma teia discursiva que agencia a história do Brasil de maneira dualista e insere os grupos marginalizados sempre do mesmo lado.
A unidade da luta, concebida como fundamental pelos Sem Terra, realiza-se pelo presente na idéia de nação, mas o ultrapassa pela mística que condensa o tempo. Através da mística, a História adquire densidade mítica. Ela é representada por uma posição dual entre exploradores e explorados, numa luta cujo termo é definido pela vitória dos oprimidos. A noção de luta de classes funde-se com a noção cristã de sacrifício e redenção dos fracos. Se por um lado enfatiza-se a consciência da História como porvir repleto de potencialidades, por outro lado também se agrega a
ideia de ser possível emprestar às suas transformações um sentido definido, que se pretende imprimir através da luta. A mística provê aos Sem Terra a confiança na vitória em sua luta, ao trazer à consciência o poder coletivo manifesto na multidão. Juntos, eles se crêem fortes e capazes de moldar a história. (CHAVES, 2000, p. 82)
Como o conceito de luta é ordenador na concepção de história do MST, a encenação de conflitos do passado produz um sentido de continuidade em relação aos desafios e batalhas do presente, num processo de enraizamento dos Sem Terra. Por meio da realização da mística, o passado ressignifica a luta no presente.