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1.9 Rolling Stone

1.9.2 A música no segmento editorial brasileiro

A saída da Rolling Stone do Brasil nos anos 1970 deixou uma lacuna no mercado editorial musical. Em janeiro de 1979, o jornalista Maurício Kubrusly, conhecido pelo trabalho na TV Globo, fundou a SomTrês, que parecia ter sido criada para ocupar aquele espaço. Era mais voltada, entretanto, à cobertura de equipamentos de áudio. A maioria de suas seções remetia a conceitos comerciais, como Show Room, Som do Carro e Free-Shop. Profissionais como Ethevaldo Siqueira, que foi comentarista de tecnologia da rádio CBN, colaboraram com a construção da imagem da publicação de veículo especializado no tema.

A SomTrês destinava pouco espaço aos lançamentos e aos principais astros da indústria fonográfica, direcionamento que manteve desamparados os leitores que se sentiram abandonados após a interrupção da Rolling Stone Brasil. No decorrer da década de 1980, a revista passou a focalizar artistas que estavam bem posicionados nas paradas de sucesso. Cantores, bandas e guitarristas começaram a dividir as páginas da publicação, como Ozzy Osbourne na capa de novembro de 1983, com os modernos aparelhos de som

32 da época. Ela permaneceu assim até janeiro de 1989, quando a edição 121 encerrou a sua história ao mesmo tempo em que marcou os seus dez anos de vida. Os pôsteres de bandas e as resenhas de discos foram alguns dos principais atrativos da SomTrês, que teve o músico e jornalista Paulo Ricardo, vocalista e baixista da banda RPM, entre os seus ilustres colaboradores.

De todas as publicações, a Bizz foi a mais emblemática da crônica musical nacional. O seu projeto aproximou-se dos conceitos explorados pela Rolling Stone Brasil. Com tiragem inicial de 100 mil exemplares, foi lançada em agosto de 1985 pela Editora Abril, que realizou pesquisas entre as pessoas que assistiram ao primeiro Rock in Rio, ocorrido em janeiro daquele ano. A atitude do grupo mostrou a intenção de estreitar a relação com o seu público-alvo para obter êxito. Na ocasião, o rock brasileiro vivia seu apogeu. Tanto que as então novas bandas nacionais, como Blitz, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, conseguiram chamar a atenção no Rock in Rio mesmo com a presença de grandes artistas internacionais, como Iron Maiden, AC/DC, Queen e Whitesnake. Em 1986, a Abril criou a Editora Azul, que assumiu o título e as edições especiais derivadas da Bizz. O mercado estava superaquecido em virtude do crescimento do consumo, consequência do Plano Cruzado, e a Abril acreditava que poderia tirar proveito da conjuntura econômica com a criação de uma gama de produtos e serviços direcionada à juventude.

Na segunda metade dos anos 1980, o Plano Cruzado deixou de vigorar e o País sentiu o impacto. Com a retração, a Bizz ficou praticamente sozinha no mercado. Em 1989, exibindo projeto gráfico e logotipo renovados, a revista encarou as adversidades momentâneas. Entre as bandas de rock, apenas Legião Urbana, Paralamas e Titãs conseguiam vender bem. Dessa forma, as gravadoras passaram a concentrar os investimentos em artistas populares, como Rosana, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Beto Barbosa, que, embora apresentassem estilos distintos, eram classificados como bregas.

A estreia da MTV Brasil, ocorrida em maio de 1990, levou a mídia nacional a interessar-se, mais uma vez, pelos artistas estrangeiros. Em janeiro de 1991, a segunda edição do Rock in Rio, com a participação de bandas internacionais como Guns N'Roses, New Kids On The Block e Faith No More, propiciou um aumento no consumo de videoclipes, sobretudo dos artistas que participaram do festival. Apesar de o País ter resgatado a música pop

33 internacional em razão dos acontecimentos da época, a Bizz preferiu adotar uma linha editorial que mirou os artistas nacionais que estavam despontando, como o cantor e compositor Carlinhos Brown e os grupos Skank e Okotô.

Em outubro de 1995, o nome da revista mudou para Showbizz. O formato cresceu, as fotos aumentaram e os textos encolheram. A linguagem ganhou um quê adolescente e até ensaios sensuais entraram na pauta. Um ano depois, a publicação passou a privilegiar capas com astros máximos do rock, como The Doors, Jimi Hendrix, Nirvana e U2. Quando voltou a responsabilizar-se pelo título, a Abril realizou uma série de ajustes. O principal foi tentar elevar a qualidade do jornalismo feito pela revista para atingir um público mais maduro e abrangente. Em 1998, a MPB virou o destaque da cobertura da Showbizz. A intenção era reduzir a rejeição que a fase anterior havia criado em parte dos leitores, afora recuperar a credibilidade.

No início de 2000, a Abril fechou um contrato com a Editora Símbolo, que assumiu a revista. Ela deu espaço à música eletrônica, a raridades do pop nacional e a matérias históricas especiais. Em julho de 2001, a parceria acabou e a Showbizz manteve-se viva somente em edições especiais ocasionais, em sites alimentados por leitores e em uma comunidade da rede social Orkut.

Quatro anos mais tarde, o núcleo jovem da Abril relançou a publicação com o título e o formato originais. Em julho de 2007, circulou a última edição dela. De lá para cá, foram lançados apenas alguns números especiais com artistas como Amy Winehouse, Michael Jackson, John Lennon e Lady Gaga. Na vasta lista de profissionais que passaram pela redação da Bizz, estão jornalistas como Alex Antunes, André Forastieri, Carlos Eduardo Miranda e Pedro Só.

A partir da segunda metade dos anos 1990, a Bizz teve como concorrente a Shopping Music, publicação da NBO Editora, empresa paulista que se dedicava aos ramos de música e cinema. A revista costumava seduzir os leitores com um brinde, que podia ser uma fita de vídeo ou um CD. Um de seus editores foi Toninho Spessoto, falecido jornalista respeitado no mercado musical. Ele foi colaborador da Bizz, da Rolling Stone Brasil, do Jornal do Brasil e da Folha da Tarde, entre tantos outros veículos de comunicação. Embora parecesse ter uma proposta mais voltada ao pop internacional, a Shopping colocava artistas de diversas searas em suas capas, característica que ficou mais acentuada com a saída de Spessoto e a chegada da jornalista Paula

34 Ganem, com quem artistas populares, como bandas de pagode, cantoras de axé e duplas sertanejas, ganharam espaço.

Os parâmetros foram-se alterando de acordo com os editores: Flávia Rebouças deu à publicação um ar pop, Marcelo Wysocki destacou artistas underground internacionais, Paulo Cavalcanti, atual editor do guia de CDs da Rolling Stone Brasil, privilegiou o rock clássico e Fabian Chacur voltou a revista ao pop. Assim como a Bizz, a Shopping Music elaborou edições especiais.

Nelas, narrou individualmente a história de vários artistas, como Raul Seixas, Led Zeppelin, Iron Maiden e Elvis Presley.

O advento do DVD implicou mudanças. A revista adotou, então, o nome Shopping & DVD Music para abarcar, em todos os formatos possíveis, os lançamentos do mercado fonográfico. Também houve alteração no brinde encartado com os exemplares, que virou um DVD. A modernização não foi suficiente para evitar os efeitos da popularização da internet e o crescente número de downloads de arquivos musicais. Os dois fatores foram os principais carrascos da publicação, que fechou as portas em 2008.

Quando já estavam nos seus últimos momentos de circulação, a Bizz e a Shopping & DVD Music enfrentaram por pouco tempo a Rolling Stone Brasil, cuja principal concorrente é a Billboard, revista confeccionada nos Estados Unidos desde 1894. Produzida pela editora paulista BPP Promoções e Publicações, a versão brasileira chegou às bancas em outubro de 2009 com o cantor Roberto Carlos na capa. Em território americano, o seu principal atrativo são as paradas de sucesso Hot 100 e Billboard 200, verdadeiros parâmetros mundiais. A Billboard também é editada em outros países, como Turquia e Rússia.

Dos anos 1970 até os dias atuais, o mercado editorial brasileiro viu a criação de uma série de títulos que flertaram com o segmento musical, mas sucumbiram, como General, Zero e Mosh. Tantos outros foram concebidos para atender especificamente a nichos voltados a músicos, como Guitar Player Brasil, Guitar Class, Cover Guitarra (guitarristas), Eco, Modern Drummer Brasil, Batera & Percussão (bateristas e percussionistas), Teclado & Áudio (pianistas e tecladistas), Cover Baixo e Bass Player (contrabaixistas); ou a determinados estilos, como Cavaco (samba e pagode), Valhalla - Rock Hard Brasil, Rock Brigade e Roadie Crew (todas voltadas para o rock pesado).

35 Dessa lista, poucas revistas conseguiram êxito. Estão ativas as publicações que já eram marcas fortes e tradicionais nos Estados Unidos, como Guitar Player, Modern Drummer e Bass Player. Já a Rock Brigade, concebida por brasileiros apesar do nome em inglês, é um caso à parte.

Nascida em 1981 como fã-clube de heavy metal, subgênero do rock fortemente calcado no blues, ela virou fanzine em 1982 e se tornou uma publicação mensal na segunda metade daquela década. É o título musical há mais tempo em circulação no País.

A maior parte das revistas destinadas à cobertura de algum nicho musical tem seções dedicadas a resenhas. Os lançamentos do mercado fonográfico são, geralmente, o alvo preferencial, mas também costumam receber atenção outros tipos de produto cultural, como filmes em seus mais diversos suportes (cinema, internet, DVD e Blu-ray), shows, peças teatrais e livros. A abordagem varia de acordo com o enfoque editorial de cada publicação. A avaliação é realizada com base em pontos de vista particularizados. Por exemplo: a Guitar Player constrói o raciocínio de um texto sobre determinado artista a partir dos arranjos do instrumento que aborda e a Modern Drummer focaliza a apreciação dos bens culturais, independentemente dos gêneros musicais aos quais pertençam, pelo ângulo do baterista.

Isto é, nas publicações segmentadas, os resenhistas costumam levar em conta elementos estruturais característicos da seara do gênero ou do instrumento que cobrem para traçar as suas argumentações, o que denota certo grau de especialização no tema.

Neste primeiro capítulo, o leitor pôde conhecer um pouco do caminho percorrido pelas principais revistas do Brasil. Desde o início de sua existência, elas demonstraram ser um meio de comunicação propício para o florescimento da resenha jornalística, cerne desta pesquisa. Na próxima parte, será abordado o aparato teórico que envolve o gênero a fim de tornar possível a perscrutação do corpus selecionado.

36 CAPÍTULO 2

REFLEXÕES SOBRE GÊNEROS, JORNALISMO, RESENHAS E INDÚSTRIA