REFLEXÕES SOBRE GÊNEROS, JORNALISMO, RESENHAS E INDÚSTRIA CULTURAL
2.1 Surgimento, expansão e utilidade dos gêneros
Neste capítulo, são apresentadas as bases teóricas que sustentam esta tese. A abordagem parte do entendimento de gênero. Entre os autores versados no tema que foram consultados, está Bakhtin (2000), cujos conceitos entremeiam parte considerável da análise. Também foram levantadas, obviamente, ideias em torno da resenha, âmago desta pesquisa. Do terreno jornalístico, foram utilizados conceitos acerca do gênero de estudos de nomes como Marques de Melo (2003), Coelho (2007) e Piza (2013). Do lado científico, foram empregadas ideias de autores como Severino (2000), Abreu-Tardelli, Lousada e Machado (2009) e Didio (2013). Na sequência, estão as considerações teóricas fundamentais para a ancoragem analítica.
Em todas as sociedades, a interação entre os indivíduos ocorre por meio dos gêneros que os usuários da língua empregam (KÖCHE E MARINELLO, 2015, p. 9). Estão disponíveis em um acervo de textos construído pelas práticas sociais através dos tempos. Orais ou escritos, os mais diversos enunciados, arquitetados pelas pessoas que se utilizam de um idioma, constituem gêneros textuais.
Em um primeiro momento, povos de cultura essencialmente oral desenvolveram um conjunto limitado de gêneros, que se multiplicaram em razão do surgimento da escrita alfabética em meados do século VII a.C. A partir do século XV, houve uma propagação promovida pelo desenvolvimento da cultura impressa. Na fase intermediária da industrialização, no século XVIII, ocorreu uma ampliação vertiginosa dos gêneros, que, com a evolução tecnológica atingida pela humanidade, passaram a ser criados a cada dia.
Pinheiro (2002, p. 262) atribui tal proliferação aos avanços e à velocidade do mundo contemporâneo.
Capazes de incorporar as transformações históricas, os gêneros são espaços de mobilidade, mutação e dinamicidade, embora possuam caráter regulador e estabilizador (PINHEIRO, 2002, p. 271). Com isso, em vez de
37 criarem limites para a elaboração de textos, vão nortear a sua produção e a sua recepção, ajustando-os a determinadas situações de períodos específicos da história:
O que se quer dizer é que um gênero de hoje não é necessariamente o mesmo de antes, porque incidem, na configuração genérica, as categorias espaço/tempo que, de certa maneira, determinam as transformações de uma cultura/sociedade.
Dessa forma, as diferentes esferas sociodiscursivas elaboram e comportam repertórios de gêneros que lhes são próprios.
(PINHEIRO, idem, ibidem)
Na Grécia Antiga, Aristóteles teorizou em A Poética sobre os gêneros retóricos, entendidos como as formas de organização dos discursos para fins de convencimento das outras pessoas em situações públicas, tática muito empregada naquele período. Ele chegou a propor a noção de que existe uma fusão entre forma e conteúdo baseada na situação de cada gênero de discurso, que não é apenas a estrutura textual, mas uma mistura entre o modo que recorrentemente se fala de um conteúdo, que é a forma, e o significado do discurso que resulta das experiências compartilhadas pelas pessoas, que é o conteúdo (FILHO, 2011, p. 17).
A classificação proposta por Aristóteles teve grande aceitação entre estudiosos da retórica e da literatura ao longo dos tempos. Segundo Filho (idem, ibidem), foi apenas parafraseada e reafirmada em grande parte do mundo ocidental através de seguidos séculos em razão da receptividade e da popularidade. A fusão proposta por Aristóteles, na realidade, foi relegada e a forma terminou tornando-se o centro das atenções.
Desse modo, a noção de gênero ganhou um aspecto restritivo e formalista. Muitos começaram a acreditar que ele seria somente uma forma de classificar os textos com base na estrutura de sua composição. Por causa disso, Filho (idem, p. 18) afirma que, em boa parte do século XX, o conceito de gênero passou a ser muito malvisto por escritores e estudiosos da literatura.
Era associado a um elemento condicionador, algo que limitava a criatividade.
Literatos pensaram que poderiam ter a expressão poética comprometida, o que os levou a propor a morte do gênero.
38 Talvez a pior consequência de tratá-lo assim é o fato de tal conceito impor a separação entre a forma, que supostamente seria o gênero, e o conteúdo que ele veicularia. Essa dicotomia, de acordo com Filho (idem, ibidem), também tem o inconveniente de levar a concebê-lo como recipiente em que se depositaria o sentido dos textos:
Ora, um gênero não é um recipiente vazio pois, de certo modo, um recipiente, como um copo, impõe fortes limites sobre a quantidade de líquido que pode nele ser colocado. Em vez de dizer que um gênero é um copo vazio, parece-nos mais apropriado pensar em um gênero como copo já e sempre com algum líquido em seu interior. Copos de água, copos de suco, copos de vinho é que poderiam servir como imagens para representar os gêneros, pois eles são objetos já possuidores de significado, valor e conteúdos. Mas é claro que podemos misturar um copo de suco com um copo de leite para produzir uma nova bebida e é isso que também se faz com os gêneros quando operamos misturas entre eles. (FILHO, idem, ibidem)
Pinheiro (2002, p. 260-65) explica que, desde Aristóteles e Platão, os gêneros estão relacionados à recorrência de certas especificidades e parâmetros a partir dos quais um texto é produzido e consumido. Cada um é uma instância que determina a leitura dos pontos de vista da forma e do conteúdo:
Um gênero está ligado ao reconhecimento de regularidades de forma e conteúdo de um texto;
às formas e aos significados sociais convencionados dentro de uma comunidade.
(PINHEIRO, idem, p. 275)
De acordo com Pinheiro (idem, p. 265), os gêneros comunicam-se com a sociedade em que existem e têm a função de mediar a relação produtor-produto-receptor na cultura moderna. São um dispositivo que auxilia na confecção e na interpretação de um enunciado. Pinheiro (idem, p. 281) explica que cada um deles tem a estrutura típica do campo do qual é parte. Isso implica o uso de táticas que destacam a seleção de estratégias adotadas para
39 tornar o texto mais efetivo. É fundamental ressaltar que a opção por determinado gênero não exclui as especificidades de outros:
A constatação retoma a ideia de gêneros híbridos que, particularmente afetados por mudanças sociais, misturam características de dois ou mais gêneros para se tornarem um. (PINHEIRO, idem, p. 284)
Conforme Pinheiro (2002, p. 284-85), o conhecedor das características de um gênero pode utilizar-se de estratégias para criar e transformar o espaço aberto permeável de todo texto, cujas regras estruturantes não são coercitivas.
A transgressão às convenções que organizam determinado gênero não é um problema. Ao contrário. Deve ser entendida e explicada como evolução (PINHEIRO, idem, ibidem).
Um gênero pode ser empregado para atender a inúmeros propósitos comunicativos. Filho (2011, p. 34) cita o Twitter como um desses casos. A rede social foi criada basicamente para que as pessoas pudessem dizer o que estavam fazendo a colegas de trabalho em determinado momento. Passou, entretanto, a ser utilizada para novos propósitos, como divulgar notícias, elaborar publicidade, convocar manifestações, dar opiniões sobre todos e quaisquer assuntos, o que mostra que os propósitos comunicativos são dinâmicos e podem variar ao longo do tempo.
De acordo com Filho (2011, p. 29), conhecer o gênero de maneira apropriada requer, necessariamente, saber que conteúdo é adequado e se ajusta a determinadas intenções comunicativas e em que forma textual pode ser expresso para que se consiga sucesso:
Quando, por exemplo, encontramos alguém que decide nos contar uma fofoca e, se aceitamos a sugestão e nos dispomos a ouvi-la, imediatamente o gênero fofoca passa a guiar a nossa forma de proceder (falar baixo e olhar para os lados, por exemplo) e interpretar (como informação negativa e maledicente, provavelmente). Quando alguém diz “sabe aquela do português” imediatamente passamos a ouvir sem interferir na fala do outro até que ele termine de contar a piada, além de criarmos expectativa para um final engraçado ou surpreendente. (FILHO, idem, ibidem)
40 Bakhtin (2000, p. 279) afirma que todas as esferas da atividade humana possuem relação com o emprego da língua e que as formas de sua utilização e seu caráter são igualmente variados. Por exemplo: as pessoas que integram uma determinada categoria profissional tendem a usar estruturas que identificam aquele campo de atuação. A língua vai ser empregada por meio de enunciados orais e escritos que identificam as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas:
...não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais –, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional.
Esses três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera da comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.
(BAKHTIN, idem, ibidem)
Bakhtin (idem, p. 279) assinala que a riqueza e a variedade dos gêneros do discurso são infinitas. Basta pensar na quantidade de atividades que o homem tem conseguido produzir ao longo de sua evolução. Cada uma delas carrega um conjunto de gêneros do discurso à medida que se expande e se torna mais complexa.
Nesse processo, destaca-se a heterogeneidade dos gêneros do discurso, tanto orais quanto escritos, que incluem a curta réplica do diálogo cotidiano (com a diversidade que ele pode apresentar conforme os temas, as situações e a composição de seus protagonistas), o relato familiar, a carta (com suas variadas formas), a ordem militar padronizada, em suas formas lacônica e de ordem circunstanciada, o repertório bastante diversificado dos documentos oficiais (em sua maioria padronizados) e o universo das declarações públicas (em um sentido amplo, as sociais e políticas).
41 Bakhtin (idem, ibidem) relaciona as diversas maneiras de exposição científica e todos os modos de exposição literária com os gêneros do discurso e faz uma divisão: de um lado, põe os gêneros do discurso primários (simples – como os tipos de diálogo oral: linguagem das reuniões sociais, dos círculos, da linguagem familiar, das linguagens cotidiana, sociopolítica, filosófica, os ditados populares) e, do outro, os secundários (complexos – entre eles, literários, científicos e ideológicos), mas reconhece que a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso dificulta a definição deles.
Os primários foram formados em situações de comunicação verbal espontânea, estão ligados, como já foi dito, ao diálogo oral e funcionam como integrantes dos gêneros secundários:
Os gêneros primários, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro destes e adquirem uma característica particular: perdem a sua relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios – por exemplo, inseridas no romance, a réplica do diálogo cotidiano ou a carta, conservando sua forma e seu significado cotidiano apenas no plano do conteúdo do romance, só se integram à realidade existente através do romance considerado como um todo, ou seja, do romance concebido como fenômeno da vida literário-artística e não da vida cotidiana. O romance em seu todo é um enunciado, da mesma forma que a réplica do diálogo cotidiano ou a carta pessoal (são fenômenos da mesma natureza); o que diferencia o romance é ser um enunciado secundário (complexo). (BAKHTIN, idem, p. 281)
A distinção entre os gêneros primários e secundários é, teoricamente, fundamental e constitui a razão pela qual a natureza do enunciado deve ser elucidada e definida por uma análise de ambos os gêneros, destaca Bakhtin (idem, ibidem), segundo quem a inter-relação entre os dois e o processo histórico de formação dos gêneros secundários esclarecem a natureza do enunciado:
Ignorar as naturezas no enunciado e as particularidades de gênero que assinalam a variedade do discurso em qualquer área do estudo linguístico leva ao formalismo e à
42 abstração, desvirtua a historicidade do estudo, enfraquece o vínculo existente entre a língua e a vida. A língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua. (BAKHTIN, idem, p. 282)
Bakhtin (idem, ibidem) observa que o estilo está ligado ao enunciado e às formas típicas que o constituem. Seja qual for, o enunciado é individual, refletindo os traços de quem fala ou escreve. Sempre cria algo irreproduzível, que está relacionado com um valor (a verdade, o bem, a beleza). A fim de gerar qualquer coisa, no entanto, parte de algo que foi dado ao locutor, como a língua, um fenômeno observado na realidade, um sentimento, uma visão de mundo.
Deve-se enfatizar que nem todos os gêneros são apropriados para revelar a individualidade do enunciado na língua. O mais propício é o literário, no qual o estilo individual integra o empreendimento enunciativo e constitui uma de suas diretrizes. Por outro lado, os gêneros do discurso que demandam forma padronizada, como nota de serviço e contrato imobiliário, oferecem as condições menos favoráveis para refletir tal característica. Neles, aparecem apenas aspectos superficiais da individualidade, que ocorrem, sobretudo, na realização oral. Na maioria dos gêneros do discurso, o estilo individual não entra na intenção do enunciado. É um elemento complementar.
Para Bakhtin (idem, p. 283), saber o que compete ao uso corrente e ao indivíduo é um problema do enunciado, elemento em que a língua se materializa em uma forma individual. O laço inquebrantável entre o estilo e o gênero aparece, com clareza, quando se trata de um estilo linguístico ou funcional, que é o estilo de um gênero particular de uma dada esfera da atividade e da comunicação humana com suas especificidades:
Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições, específicas para cada uma das esferas da comunicação verbal, geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico. O estilo é indissociavelmente vinculado a unidades temáticas determinadas e, o que é particularmente importante, a unidades composicionais: tipo de estruturação e de conclusão de um todo, tipo de
43 relação entre o locutor e os outros parceiros da comunicação verbal (relação com o ouvinte, ou com o leitor, com o interlocutor, com o discurso do outro, etc.). O estilo entra como elemento na unidade de gênero de um enunciado. (BAKHTIN, idem, p. 284)
O enunciado pode ser entendido como conteúdo do pensamento que satisfaz o enunciador. A língua requer, a propósito, apenas o locutor e o objeto de discurso dele. Até pode funcionar como meio de comunicação, função considerada acessória por Bakhtin (idem, p. 289), porém. Ele (idem, p. 290) explica que a coletividade linguística e a multiplicidade dos locutores são fatos que não podem ser relegados na definição da natureza da língua em sua essência, mas perdem substância perante a individualidade do locutor.
Na linguística, existem as figuras do ouvinte e do receptor. Trata-se dos
“parceiros” do locutor. Bakhtin (idem, ibidem) sustenta que as funções dele geram uma imagem que não corresponde ao real no processo de comunicação verbal. Os estudiosos limitam-se a atribuir papel ativo ao responsável pelo enunciado e posicionamento passivo a quem recebe o conteúdo. A despeito de fazerem sentido em determinados casos, esses esquemas não representam o todo em processos concretos de comunicação verbal.
Bakhtin (idem, ibidem) acredita que o ouvinte adota uma atitude responsiva ativa diante de um discurso. Por conseguinte, pode concordar ou discordar parcial ou integralmente. Ela ocorre durante todo o processo de audição ou compreensão do enunciado. É como se o ouvinte se tornasse locutor ao ter a possibilidade de produzir diversas respostas.
A compreensão passiva das significações de um enunciado é somente o elemento abstrato de um fato real que é o todo constituído pela compreensão responsiva ativa e que se materializa no ato real da resposta fônica subsequente. (BAKHTIN, idem, p. 290)
A tal resposta fônica não precisa ocorrer, rigorosamente, depois de lido o enunciado que a originou. Ela pode ser materializada por um ato, como a execução de uma ordem assimilada e acolhida; ou permanecer como uma compreensão responsiva (fase inicial e preparatória para uma resposta) muda,
44 que gera uma ação retardada típica de gêneros secundários. Bakhtin (idem, p.
291) afirma que o locutor solicita, na realidade, uma compreensão responsiva ativa e não uma compreensão passiva, que somente serviria para inserir o conteúdo do pensamento dele no ouvinte. Deseja uma resposta e ela pode ser uma concordância, uma objeção, uma adesão ou uma execução.
O locutor é um respondente, uma vez que não é o primeiro a romper o silêncio de um mundo mudo. Presume, afora o sistema de língua que emprega, a existência de enunciados anteriores aos quais liga o que cria. Já o ouvinte dotado de uma compreensão passiva pelos esquemas da linguística geral não é o protagonista real da comunicação verbal. A sua figura representa não mais que o elemento abstrato do fato real da compreensão responsiva ativa em seu todo, geradora de uma resposta com a qual o locutor conta (BAKHTIN, idem, p-291-92):
Esse tipo de abstração científica é justificado, mas com a condição expressa de ser concebido como uma abstração e não ser tomado como um fenômeno real e concreto, com o risco de cair na ficção. Ora, não é isso que se passa na lingüística, na medida em que tais esquemas abstratos, embora não sejam apresentados como o reflexo da comunicação verbal, não deixam de omitir a referência à complexidade maior do fenômeno real. O resultado é que o esquema distorce o quadro real da comunicação verbal cujos princípios essenciais são eliminados. O papel ativo do outro fica minimizado ao extremo.
(BAKHTIN, idem, p. 292):
Nesse contexto, o que é, afinal, discurso? Bakhtin (idem, p. 292-93) critica a falta de definição e diz que pode significar uma série de coisas, como língua, processo de fala, uma sequência de enunciados. Ele (idem, ibidem) atribui a situação ao fato de o enunciado e os gêneros do discurso terem ficado quase intocados e afirma que os estudiosos “têm-se divertido em jogar com o enredamento de todas essas significações”.
A expressão “discurso” vem sendo usada para rotular o enunciado de qualquer locutor. Na opinião dele, a indeterminação e a confusão resultam de um desdém pelo que é a unidade real da comunicação verbal, o enunciado, que molda o discurso de um indivíduo e que pertence a um sujeito falante. As
45 fronteiras do enunciado concreto, unidade da comunicação verbal, são estabelecidas pela alternância dos sujeitos falantes:
Todo enunciado – desde a breve réplica (monolexemática) até o romance ou o tratado científico – comporta um começo absoluto ou um fim absoluto: antes de seu início, há os enunciados dos outros, depois de seu fim, há os enunciados-respostas dos outros (ainda que seja como uma compreensão responsiva ativa muda ou como um ato-resposta baseado em determinada compreensão). O locutor termina a sua palavra para passar a palavra ao outro ou para dar lugar à compreensão responsiva ativa do outro. O enunciado não é uma unidade convencional, mas uma unidade real, estritamente delimitada pela alternância dos sujeitos falantes, e que termina por uma transferência da palavra ao outro, por algo como um mundo “dixi” percebido pelo ouvinte, como sinal de que o locutor terminou. BAKHTIN (idem, p. 294)
A alternância dos sujeitos falantes ocorre no diálogo real, forma clássica da comunicação verbal. Ele é constituído pelos enunciados dos interlocutores chamados de réplicas, que são provenientes de diferentes sujeitos falantes em contato. Cada uma delas expressa o posicionamento do locutor. Mas, nos gêneros secundários do discurso, notadamente nos retóricos, ocorre um fenômeno diferente disso. O próprio locutor formula perguntas, às quais ele mesmo responde. É uma simulação da comunicação verbal e dos gêneros primários do discurso.
Outra questão no diálogo e nas réplicas passível de ponderação é o problema da oração, que pode ser confundida com o enunciado. Este último é, como já foi visto, uma unidade da comunicação verbal e aquela, uma unidade da língua. A oração tem natureza gramatical, não possui significação plena nem está em contato direto com a realidade. Expressa um pensamento relativamente acabado relacionado com outras reflexões de um locutor.
Portanto, não é delimitada pela alternância dos sujeitos falantes, uma vez que não está em relação imediata com os enunciados alheios. O contexto da oração integra o do discurso de uma única pessoa. Na condição de parte de um enunciado, não possui a capacidade de suscitar uma resposta. Tal
46 propriedade é desenvolvida apenas no todo desse enunciado, em cujo interior passa a registrar peculiaridades estilísticas.
Assim como a palavra, a oração tem completitude em sua significação e na sua forma gramatical, mas a completitude de sua significação é abstrata. Na condição de unidade da língua, não tem autor. Como ocorre com a palavra, não é de ninguém. Apenas inserida em um enunciado completo torna-se expressão individualizada da instância locutora em uma situação de comunicação verbal concreta. Isso significa que tanto a palavra quanto a oração só podem tomar forma em enunciados individuais. Nenhuma delas pode ser isoladamente endereçada a qualquer destinatário.
A alternância dos sujeitos falantes é a primeira particularidade do
A alternância dos sujeitos falantes é a primeira particularidade do