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Silva Lisboa narra o descobrimento do Brasil como produto da expansão marítima e, ao mesmo tempo, produto de ação providencial, já que a esquadra portuguesa tinha como objetivo o comércio das Índias e não o descobrimento de novas terras. Por isso, de modo polêmico, prefere chamar este evento de “achado” do Brasil, e não descoberta.17 O lance permitia um movimento duplo, pois associava o Brasil à expansão comercial e, ao mesmo tempo, afastava os motivos menos nobres ligados à vontade de conquista e domínio. Dessa forma, respondia e distorcia as opiniões de Robertson e Robert Southey, citadas como autoridades, que em suas histórias tinham igualmente salientado o caráter acidental do descobrimento do Brasil. Silva Lisboa se recusa a acreditar que qualquer acontecimento histórico pudesse ser obra do acaso, utilizando-se da ideia de providência tanto como recurso cognitivo, quanto como forma de transferir o providencialismo luso e seu excepcionalismo ao Brasil. Mas cabe destacar que em nenhum momento esse recurso é transformado em argumento suficiente,

ou permitia a inclusão de ações miraculosas na narrativa, ele é sempre afirmado como uma crença última no sentido da história, que mesmo oculto ao historiador, poderia ser derivado de causas naturais.

Com este movimento conceitual, a história do Brasil e sua independência podem ser narradas como o cumprimento de um destino providencial e civilizatório. A colonização portuguesa é retratada como desleixada e marcada por princípios anticomerciais como monopólio, intolerância religiosa e outras práticas feudais. Este “antigo sistema colonial” teria sido reforçado pelo Tratado de Utrecht no início do século XVIII. No entanto, apesar desses impedimentos, a colônia prosperou e progrediu sob a iniciativa de seus habitantes, como se destaca na epígrafe geral do trabalho, uma citação da história do Brasil de Robert Southey:

discovered by chance, it is by individual industry and enterprise, and by operation of the common laws of nature and society, that this empire has risen and flourished, extensive as it is now, and might as it must one day become.18

O “antigo sistema” bárbaro, feudal e colonial seria revertido apenas com a transferência da corte em 1808, período que já havia tratado em obras anteriores.19 Mas como é frequente em sua história, esse progresso nunca é linear e homogêneo, está sempre comprometido pela fraqueza e ambição humanas, em especial entre povos em que a civilização não havia atingido um grau elevado de perfeição. Em uma Europa marcada ainda por movimentos revolucionários e projetos de impérios universais, Portugal, recém-libertado do domínio francês, seria vítima dessas mesmas forças na Revolução Liberal do Porto de 1820. Em uma engenhosa inversão, Silva Lisboa interpreta a Revolução do Porto como um complô entre democratas radicais espanhóis e portugueses para unir a península sob um mesmo governo, recolonizar a América e impor à Europa seus projetos universais de poder. As narrativas antinapoleônicas, profundamente inspiradas em Burke, são reutilizadas para caracterizar o despotismo das Cortes de Lisboa, que acabariam por forçar os brasileiros a declarar sua independência, para não se verem novamente reduzidos a “servos da gleba”. Assim, descreve como a

18 Southey 1810. 19 Diniz 2010; Rosa 2011.

“revolução” vai contaminando diversas províncias do Brasil, ameaçando a sua integridade territorial.

Reagindo ao que via como tentativa de restabelecimento, no Brasil, do sistema feudal das antigas colônias, em especial pelas medidas que visavam a reconstruir os privilégios comerciais da metrópole e privar o Brasil de um centro político, ameaçando-o de fragmentação, o jovem príncipe de Bragança assume a tarefa deixada por seu pai de conduzir à emancipação do Brasil, preservando a integridade do império, tal como suas fronteiras providenciais, reveladas no descobrimento em 1500. Emancipar o Brasil de um reino português, visto como contaminado pela revolução, é agora considerado como o único meio de regenerar a nação portuguesa.

Silva Lisboa traça a figura de D. Pedro I como a de um herói burkeano, capaz de unir a aura da presença nobre, moderação e conciliação política, afastando o caráter belicoso que os contemporâneos geralmente atribuíam ao príncipe. Em episódio que descreve como debelou um princípio de revolta, descreve que “A Sua PRESENÇA assombrou todos os espíritos. Ninguém ousou impedir o

comando ao Príncipe da Nação”.20 Em outra passagem, em que descreve como

a presença do imperador conciliou uma revolta provincial, compara essa aura política dos príncipes legítimos e antigos ao halo que se forma ao redor de certos planetas e estrelas.21 Assim, o jovem príncipe vai-se tornando mais uma das forças morais capazes de unir a nação, também contra os inimigos internos, alguns apegados a fidelidades locais, contra esses, afirma, em nova referência a Burke, “as Nações não são superfícies geográficas, mas essências morais”,22 com o sentido de que não deveriam ser fiéis aos seus compromissos locais, mas à ideia mesma da nação incorporada em sua vocação comercial, destino providencial e, agora, em um herói conciliador.

No tema do carisma da nobreza e em outros envolvendo a criação de ordens e comendas, Silva Lisboa faz a defesa dessas instituições feudais como artifícios necessários para a educação do povo. Em sua leitura, os códigos cavalheirescos

20 Lisboa 1825, X.I, 60. 21 Lisboa 1825, X.II, 79. 22 Lisboa 1825, X.II, 20.

foram uma força histórica civilizadora na Idade Média europeia, ajudando a adoçar e polir os costumes. De certa forma, como o Brasil estava ainda longe de atingir a perfeita civilização, forças históricas como a religião e a nobreza teriam ainda uma função relevante na educação moral da nação. Naturalmente, a própria nação parecia ser formada por temporalidades distintas, desde a selvageria dos índios até a práticas pouco comerciais e bárbaras, espalhadas com maior ou menor intensidade pelo vasto território. Assim, a monarquia constitucional aparecia como a solução política mais adequada ao século e às condições particulares do Brasil, que necessitava de liberdade, mas também de um governo forte. É justamente esse equilíbrio que o autor, em sua história acredita ter sido alcançado no governo de D. Pedro I, como já descrevemos acima.

Fig. 4. Macronarrativa feudal-comercial.

Obedecendo a um princípio narrativo central, a história do Brasil tem como começo a sua descoberta no contexto das grandes navegações e da abertura comercial do mundo, e o seu fim no estabelecimento de um império comercial.

Silva Lisboa unia três grandes linhas narrativas: (1) a da luta entre liberdade e autoridade, alimentada pelos temas da linguagem tacitista; (2) a que compreendia a história da humanidade como a evolução de etapas bem definidas da selvageria à civilização, na qual o nascimento da época dos descobrimentos anunciava o futuro comercial e civilizado do Brasil, mesmo que tivesse de atravessar o seu período “bárbaro”; representado pela colonização, descrita como uma espécie de Idade Média nacional, marcada pela força dos poderosos, das famílias e seus pequenos feudos; (3) e, finalmente, transferia as expectativas providencialistas da história de Portugal, organizadas em torno do milagre de Ourique para o contexto americano em processo de nacionalização. O império prometido por Cristo aos portugueses seria finalmente realizado no Brasil. A harmonização entre liberdade comercial e destino providencial, entre liberdade e autoridade, encontraria na monarquia constitucional a sua forma histórica perfeita, capaz de reequilibrar a balança de poder no continente americano, dominado por repúblicas. Em seu destino, a jovem nação finalmente poderia conciliar o antigo e o novo, Europa e América, Brasil e Portugal.

B I B L I O G R A F I A

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