FILOSÓFICAS NA OBRA DA ESCRITORA YOKO TAWADA
4. TRADUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO
4.1. A MATERIALIDADE DAS PALAVRAS E DOS SISTEMAS DE ESCRITA
A trajetória linguística de Tawada manifesta uma redescoberta de apreensões de vida por meio das diferentes línguas, faladas e escritas. Os tipos de escrita reforçam o contraste entre diferentes sistemas linguísticos: o alfabeto para o alemão e, para japonês, um texto que combina o kana - caracteres fonéticos que servem principalmente para os propósitos de sintaxe e transcrição de palavras de línguas estrangeiras - e o kanji - pictogramas e ideogramas originados do chinês. As dificuldades com o alemão são agravadas pelo fato de que é preciso reaprender a ler, por um lado, mas também pelo fato de os ideogramas de leitura não envolverem a pronúncia baseada em um alfabeto (BANOUN, 2007). O japonês pode ser lido puramente com os olhos, sem vocalizar; o som não está necessariamente contido dentro do símbolo, e estes não são sempre pronunciados de uma única maneira. Quando se lê em chinês ou japonês, que são línguas ideogramáticas, pode-se fazer uma leitura visual, enxergar a frase se articular de uma maneira não auditiva. Por isso, não necessariamente surgirá uma voz imaginária para fazer a mediação do texto com seu sentido, e se imagina diretamente o sentido a partir dos elementos visuais. Tawada descreve como, às vezes, uma leitura silenciosa e analítica do ideograma pode interferir na leitura do alfabeto ocidental: os caracteres são distribuídos de maneira diferente de uma língua para outra.
As letras que compõem as palavras ocidentais são desprovidas de significado, ou seja, o que elas produzem, quando consideradas separadamente, é o vazio e a ausência. Tawada mostra que pode falar ou ouvir a língua estrangeira, mas na leitura a atividade se torna sobrecarregada, obscurecida por letras que escondem a floresta do significado e represam o fluxo natural da voz. (TAWADA, 1998) Tawada extrai muito de sua poética justamente de tais rupturas de significado. A aparente flexão dos significados e sons em torno dos obstáculos linguísticos permite que ela desvende os textos. No conto Zungentanz (2002), a
autora ficcionaliza sua teoria evidenciando a materialidade da língua; ela conta como, diminuída, tem de se mover através da língua como se ela fosse um muro, uma barreira de letras que parece ter vida própria:
Cada palavra é um obstáculo. Penso comigo que se não houvesse mais nenhuma palavra no texto, eu conseguiria ler fluentemente. O muro de letras cobre a minha visão. Algumas frases acabam como que cortadas, de tal forma que eu quase caio no buraco do ponto. E, mal me livro deste perigo, já encontro a próxima frase em frente aos meus olhos, também sem porta de entrada. Como devo começar? As palavras tornam-se cada vez mais angulosas e volumosas. Em seguida cada letra passa a crescer e a se desenvolver sozinha. Onde começa uma palavra? Onde termina? (TAWADA, 2002, p. 10-11).
Ao quebrar o continuum das frases, Tawada explora textos a partir de uma visão analítica privilegiada. O texto perde sua qualidade de obra fechada, e ganha toda uma nova gama de significados a serem explorados, como se pode observar também em suas análises sobre as traduções de Celan. Este princípio de isolar cada signo e de interromper o fluxo natural da leitura é algo que Tawada propõe quando reflete sobre a escrita, dado que a escrita dos signos que foram aprendidos é feita letra por letra, fazendo a coerência do significado lexical e da sentença emergir com grande dificuldade. O temor gerado pelo signo que aparece em toda a sua materialidade atrapalha a espontaneidade e o processo natural de leitura e compreensão.
Em Schrift einer Schildkröte oder das Problem der Übersetzung [Escrita de uma tartaruga ou o problema da tradução], Tawada dedica sua atenção às questões de tradução, em especial aos aspectos relacionados ao texto escrito. A autora fala sobre as dificuldades de se ler um texto em língua estrangeira, uma situação cuja complexidade se torna ainda mais evidente quando se tratam de textos com sistema de escrita diferentes. Mas, em sua visão, tais dificuldades trazem novas perspectivas e expandem a capacidade de compreensão: “As dificuldades iluminam o corpo da fala e, desta forma, tornam-no visível. O oposto também é verdadeiro, geralmente, permanece-se cego em algo que já se domina.” (TAWADA, 1998. p.25). Neste contexto, Tawada coloca as diferenças de
percepção de um conteúdo de acordo com os diferentes sistemas de escrita. Para ela, a apreensão de um texto com letras ocidentais é algo muito complexo, pois cada palavra toma uma dimensão imagética incontrolável cuja intransponibilidade representa um obstáculo quase físico em sua leitura.
Tawada vai além da questão da leitura dos textos, observando que mesmo quando se observam pinturas em museu, a percepção da arte em si ocorre de forma diferente entre um leitor do alfabeto ocidental e ela, uma leitora da escrita japonesa, pois os primeiros tendem a tentar explicar os quadros que veem sempre em palavras e frases, enquanto ela apenas percebe a sensação do próprio dissolver-se da língua na imagem. Isto teria a ver com o hábito de leitura dos ideogramas. Ela explica que o corpo de um ideograma não é indecifrável como uma letra do alfabeto que, sozinha, não traz nada além de mistério e expectativa.
Quando traz o ponto de vista de um sistema que percebe significados de uma maneira tão diferente daquela que formou teorias linguísticas baseadas justamente sobre a presunção da estabilidade da língua em sua forma escrita, Tawada dissolve as certezas que tradicionalmente parecem integrar a língua e retira do texto e reforça sua qualidade de obra aberta. As diferenças e a imprevisibilidade da língua podem ser notadas de forma intensa na tradução de um texto para outro, pois a tradução se manifesta justamente pelo caráter de estranheza dos signos. Como na différance de Derrida, segundo Nascimento (2001), o signo já não implicaria mais a possibilidade de recuperar a coisa a que se refere (que se veria diferida pelo significante) por meio do significado, mas seria sempre recuperável:
“Se o que define a língua, como o queria Saussure, é o fato de ser diferencial, não há mais como imaginar que a cadeia significante vá se interromper num determinado momento por ter encontrado enfim o nome exato, remetendo à presença plena da ‘própria coisa’, à referência”. (NASCIMENTO, 2001, p. 147)
Dessa forma, o sentido não pode ser remetido a uma função transcendental de significado simplesmente por se relacionar a ele um significante, pois ambos, significante e significado, oscilam em uma estrutura que oscila e constantemente cria novas referências e novo efeitos de contexto.
Nascimento explica como Derrida utiliza o neologismo différance para demonstrar como é “impossível, dentro da lógica da identidade em que nos situamos, entender uma diferença sem oposição pontual entre os diferentes”; mais do que uma palavra, o termo différance resistiria a qualquer tentativa simples e unívoca de tradução, levantando a questão do processo tradutório em seu caráter interpretativo, pois “différance é o nome rasurado em francês para indicar a origem não-nominal do processo de nominação.” (NASCIMENTO, 2001, p. 143) Quando Tawada explora sua dificuldade de ler textos alfabéticos, em oposição à escrita (e à forma de pensar) ideogramática, ela mostra como não pode haver um significado impresso na forma e sinaliza para uma reinterpretação da linguagem e de sua tradução.
Tawada observa que as letras não são traduzidas, e que, na verdade, não é o texto que não se pode traduzir, mas a escrita. Recorrendo à sua experiência de tradução entre sistemas, explica que quando quer traduzir um texto pelo sentido, primeiro ela se afasta do corpo das letras, traduzindo o conteúdo da frase em alemão em imagens mentais para, então, transformá-las em símbolos japoneses. Esta seria uma tradução comunicativa, mas não uma tradução literária, pois “Uma tradução literária deve buscar obsessivamente a literaridade, até que a língua da tradução rompa a estética convencional. Uma tradução literária deve partir do intraduzível e lidar com ele, e não o eliminar.” (TAWADA, 1998, p.35) Para Tawada, o encanto da tradução se encontra justamente na possibilidade de sentir a existência de uma outra língua completamente diferente.