NA NARRATIVA DO FILME EX MACHINA (2015)
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS: DO TESTE DE TURING AO TESTE TURING Originalmente, o Teste de Turing fora publicado na revista Mind: A
quarterly review of psychology and philosophy, em outubro de 1950, sob o título Computing machinery and intelligence, de autoria do próprio matemático britânico Alan Turing. No texto, o autor debruça-se entorno de uma problemática inicial: poderiam as máquinas pensar? De tal forma, essa pergunta perpassa por uma reformulação: repensar epistemologicamente os termos “máquina” e “pensar” para que, então, possa-se chegar em uma segunda problemática, mais precisa e menos ambígua que a anterior. Para tanto, formula um “jogo da imitação” (imitation game). Tal cenário hipotético é composto por um jogo organizado em três jogadores: um homem (A), uma mulher (B) e um interrogador (C) “que pode ser de qualquer sexo1” (TURING, 1950, p. 433). O objetivo, para o interrogador, é
discernir quem é o homem e quem é a mulher, conhecendo-os apenas enquanto siglas X e Y. Em contrapartida, A e B devem realizar o possível para enganar C.
A situação se torna mais complexa quando uma “máquina” é colocada no lugar de A e, por máquina, o autor especifica-a como “computador digital”, isto é, uma máquina capaz de realizar cálculos e operações que nada desviariam da simples inteligência e capacidade humana. Em suas próprias palavras:
*Mestre em História pela Universidade Federal de Pelotas, bolsista CAPES, [email protected] **Professora Adjunta da Universidade Federal de Pelotas, Doutora em Germanistik/Ältere
Deutsche Literatur pela Otto-Friedrich-Universität Bamberg, [email protected]
1 Traduções do autor. “It is played with tree people, a man (A), a woman (B), and an interrogator
A ideia por trás dos computadores digitais pode ser explicada por dizer que essas máquinas são propositadas a carregar qualquer operação que poderia ser feita por um computador humano. O computador humano deveria seguir regras fixas: ele não possui autoridade para desviar delas em qualquer detalhe. Devemos supor que essas regras são fornecidas em um livro, no qual é alterado toda a vez que [o computador humano] é colocado em um novo trabalho. Ele também tem suprimento ilimitado de papel, no qual realiza seus cálculos2 (TURING, 1950, p. 436).
Não é à toa, portanto, que Turing tenha relacionado o armazenamento do computador com a memória humana, isto é, comparar máquina e cérebro. Esse pensamento comparativo muito se assemelha a um fenômeno comum na formulação de teorias gerais: a heurística do objeto-para-teoria (GIGERENZER; GOLDSTEIN, 1996). Em outras palavras, no fato de que aquilo que interagimos para adquirir novos dados, ou seja, as ferramentas e objetos, não são necessariamente apenas “o processo”, e sim, também agem diretamente no resultado final, em dada teoria. Exemplificando, diversas metáforas já foram utilizadas para entender e conceber a mente humana: de engrenagens e autômatos, como em Descartes e La Mettrie3 (séculos XVII e XVIII,
respectivamente) até a presente comparação de Turing.
2 “The idea behind digital computers may be explained by saying that these machines are intended
to carry out any operations which could be done by a human computer. The human computer is supposed to be following fixed rules; he has no authority to deviate from them in any detail, We may suppose that these rules are supplied in a book, which is altered whenever he is put on to a new job. He has also an unlimited supply of paper on which he does his calculations.”
3 “O que não parecerá de modo algum estranho aos que, sabendo quantos autômatos diferentes,
ou máquinas que se movem, o engenho do homem pode fazer só empregando muito poucas peças em comparação com a grande quantidade de ossos, músculos, nervos, artérias, veias e todas as demais partes que há no corpo de cada animal, considerarão esse corpo como uma máquina que, feita pelas mãos de Deus, é incomparavelmente mais bem ordenada e tem em si movimentos mais admiráveis que qualquer uma das que podem ser inventadas pelo homem” (DESCARTES, 1996 [1637], p. 62-63); “[...] se Descartes tinha razão em dizer que os animais eram máquinas, bastava dar um passo para afirmar que também os homens eram apenas máquinas" (ROUANET, 2003, p.48).
Turing também discutiu a questão de o computador possuir ou não livre arbítrio, uma propriedade humana. Muitos anos depois, psicologistas cognitivos, dentro das pressuposições que a mente é um computador e que computadores não possuem vontade própria, ponderaram a possibilidade de humanos também possuírem ou não livre arbítrio4 (GIGERENZER; GOLDSTEIN,
1996, p. 135).
Tal é o Teste de Turing enquanto proposto originalmente: através do “jogo da imitação”, de substituir o homem (A) pela máquina e manter as mesmas regras, se tal máquina poderia enganar o interrogador (C) de maneira mais eficiente ou igual ao se fosse jogado sem ela. Com o tempo, esse teste perpassa por diversas recepções e debates, tendo sua estrutura reformulada e reinterpretada. De tal forma, junto de sua importância geral no estudo de inteligência artificial (IA), tornou-se um conceito para se pesquisar a possibilidade de máquinas pensantes (ZARKADAKIS, 2015).
Contudo, outros aspectos do “jogo da imitação” podem ser elencados para se pensar um ponto a parte daquilo originalmente proposto: problemas de gênero. De fato, a exigência de um homem e uma mulher, acrescido da substituição específica do homem pela máquina e a indiferença para “qualquer sexo” ao interrogador já pode ser visto como um ponto de partida válido. Ademais, logo no início de seu artigo, Turing já propõe uma possível pergunta a ser feita por C: “X poderia, por favor, me dizer o comprimento de seu cabelo?” (TURING, 1950, p. 433); na qual A pode responder da seguinte forma, com o intuito de confundir C: “Meu cabelo é curto, e as mechas mais longas possuem cerca de 9 polegadas de comprimento” (TURING, 1950, p. 434). Ou seja, a distração está em uma
4 “Turing also discussed the question of whether a computer could be said to have free will, a
property of humans. Many years later, cognitive psichologists, under the assumption that the mind is a computer and that computers lack free will, pondered the question of whether humans could be said to have free will.”
“mistura” de códigos culturais em uma única sentença: um corte curto para mulheres, mas comprido para homens.
O jogo ainda se complexifica, embora não seja a proposta em si, quando o autor sugere a inserção de outra máquina de estado discreto (máquinas que possuem padrões e estados fixos e previsíveis, como um circuito elétrico) no lugar da mulher. Assim, qualquer estado (saída, output) de B pode ser rapidamente previsto e calculado por A, enquanto um computador digital5. C, de tal forma, não
conseguiria distinguir os participantes, dado que ambas as máquinas possuíssem armazenamento e processamento suficientes. Entretanto, a pergunta ainda permanece: por que genderificar o teste?
Será que Turing foi tão ingênuo, ou talvez maldoso? Em desenhar uma distinção entre homens e mulheres ele atribuiu, ao jogo da imitação, funções, possivelmente baseado em uma crença que a capacidade da mulher é melhor para dizer a verdade e a habilidade do homem melhor em fingir6 (SHAH; WARWICK, 2016, p. 125).
O objetivo central do jogo da imitação de fato é testar se uma máquina possui capacidade de “pensar”, enquanto sinônimo de inteligência comum ao ser humano. Entretanto, em sua tentativa de atribuir papeis aos interrogados, sobretudo relacionando (e naturalizando) o gênero/sexo com capacidades mentais, Turing também genderifica seu conceito de inteligência, limitando-o a um binarismo problemático (e falho). Exemplificando, ao explanar a possibilidade de a máquina denunciar sua presença através de uma alta eficiência aritmética, o autor constantemente relaciona tal área (junto com a física e até a poesia) com a capacidade mental do homem. Esse possível sexismo, nunca explícito, pode ser observado, para além da estrutura básica do jogo, também na própria linguagem do autor.
5 Também considerados máquinas discretas, mas com milhares de variáveis possíveis.
6 “Was Turing quite naïve then, or perhaps mischievous? In drawing a distinction between men and
women he attributed imitation game roles, possibly based on a belief that woman’s capacity is better for telling the truth and the man’s ability greater at pretense.”
O jogo pode talvez ser criticado por base que as vantagens estão pesadamente contra a máquina. Se o homem fosse tentar fingir ser a máquina ele claramente faria uma demonstração muito fraca. Ele se denunciaria de antemão por lentidão e inexatidão em aritmética. Não poderia a máquina possuir algo que poderia ser descrito enquanto pensamento, mas no qual é bem diferente do que um homem tem?7 (TURING, 1950, p. 435).
De qualquer forma, é inegável a importância de Turing e de seus trabalhos não só para a pesquisa frente a IA, como, também, para o próprio pensar acerca de o que é inteligência, máquina e humano. Assim sendo, não é de se surpreender com a sua influência também nos trabalhos de ficção, em exemplo, sessenta e cinto anos após a publicação de seu artigo, o filme Ex Machina, dirigido por Alex Garland. A obra é centrada em três personagens: Nathan, CEO da empresa Blue Book8, Caleb, programador funcionário da mesma, e Ava, um robô criado por
Nathan em total sigilo do mundo externo e dotado de plena inteligência artificial. A premissa da narrativa é simples: Caleb deve testar Ava em um Teste Turing enquanto ambos são avaliados por Nathan.
O Teste Turing, portanto, torna-se o grande estruturador da narrativa fílmica já que, todas as interações entre Caleb e Ava (dadas em uma sala dividida por um vidro) demarcam “sessões”, cada uma periodicamente diferente da anterior. Ademais, e mais evidente, os personagens constantemente propõem reformulações e problematizações com relação ao teste, como, por exemplo, quando Caleb se dirige a Nathan após seu primeiro encontro com Ava, sendo respectivamente:
7 “The game may perhaps be criticised on the ground that the odds are weighted too heavily against
the machine. If the man were to try and pretend to be the machine he would clearly make a very poor showing. He would be given away at once by slowness and inaccuracy in arithmetic. May not machines carry out something which ought to be described as thinking but which is very different from what a man does?”
8 Por ser uma empresa centrada em ferramentas de pesquisa, pode ser feito um paralelo com a
-Só que no Teste Turing, a máquina deve estar escondida do examinador
- Não não, já superamos isso. Se escondesse Ava, assim só ouviria a voz dela, ela passaria por humana. O teste real é mostrar para você que ela é um robô e depois ver se ainda sente que ela tem consciência (GARLAND, 2015, 16’08’’ – 16’22’’)
Para além de máquinas digitais discretas apresentarem raciocínio comum ao ser humano; para robôs que, por mais que racionalmente aceitemos que não possuem consciência, possam nos deixar com duvidas frente à possibilidade. Tal proposta não poderia ser concebida na segunda metade do século XX, mesmo que, para o próprio Turing, houvesse “pouco sentido em tentar fazer uma ‘máquina pensante’ mais humana em vesti-la nessa carne artificial” (TURING, 1950, p. 434).
Ex Machina busca demonstrar, em sua recepção ao Teste de Turing, que pele
humana se torna irrelevante para se aceitar um robô enquanto “humano”; e chegar nessa aceitação significa passar no teste.
Finalmente, nos últimos momentos da narrativa, Nathan revela a Caleb o real objetivo do teste, além de deixar claro que não era só Ava a ser testada. Em suma, ao explicar o porquê de ter rasgado o desenho de Ava anteriormente:
- Rasquei o desenho dela, algo que ela pode dar de exemplo de como sou cruel com ela, e o amor dela por você [...] Está se sentindo um idiota, mas não deveria, pois testar uma inteligência artificial é tão problemático quanto disse que seria.
- Qual era o verdadeiro teste?
- Você. Ava era um rato num labirinto. E eu dei uma saída para ela. Para fugir, ela teria que usar autopercepção, imaginação, manipulação, sexualidade, empatia. E ela fez isso. Agora, se isso não for IA de verdade, que diabos é? (1h23’20’’ – 1h25’07’’) Algumas recepções já se tornam mais evidentes: a máquina estando presente; a mesma possuindo uma construção genderificada feminina; a presença do homem no teste, e não a sua substituição; para além de uma capacidade de respostas lógicas e convincentes, também a capacidade de demonstrar sentimentos e abstrações. Entretanto, essas recepções só se tornam possíveis na construção
narrativa dado a inserção de três variáveis: gênero, sexualidade e corpo. Assim, parte-se para uma reflexão de como as mesmas foram articuladas e construídas pela narrativa fílmica.