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2. INFLUÊNCIA, VOZ, IMAGEM E MOVIMENTO

2.1 IMAGENS E MOVIMENTO

2.1.2 A MEMÓRIA COMO MOVIMENTO

Além do eixo de exterioridade e superfície, que discutimos na seção anterior, um segundo eixo imagético é importante na obra de Bishop: o da memória, sobre o qual é necessário fazer algumas considerações. A memória é um elemento

62Perder espaço não significa dizer que esse espaço desaparece. A exterioridade é ainda um nível muito importante, mas cada vez mais como manifestação da paisagem interior por meio de descrições, um recurso que Bishop usa em praticamente toda a sua produção.

importante na literatura e carrega, ela mesma, uma dimensão narrativa de reconstrução do passado. Ela associa elementos cognitivos, psicológicos e emocionais e cumpre um papel central na existência humana, permitindo tanto que façamos tarefas cotidianas, ou que sigamos um processo, quanto que sejamos capazes de produzir conhecimento ou apreendê-lo. Quanto ao que nos interessa, que é a poesia de Elizabeth Bishop, a memória também tem implicações importantes.

A memória presentifica eventos, lugares, objetos distantes, ou seja, ultrapassa as limitações do espaço para tornar sua imagem próxima. O objeto observado num momento vivido em outro tempo ou em outro lugar ganha materialidade por meio dela. As cores, os ruídos, os cheiros, as texturas emergem e os sentidos se mobilizam para conferir ao momento relembrado uma aura de realidade, de uma certa veracidade que não necessariamente se confirma.

Conforme Ricoeur em seu História, Memória e Esquecimento,

A permanente ameaça da confusão entre rememoração e imaginação, que resulta desse tornar-se-imagem da lembrança, afeta a ambição de fidelidade na qual se resume a função veritativa da memória. E no entanto...

E no entanto, nada temos de melhor que a memória para garantir que algo ocorreu antes de formarmos sua lembrança. A própria historiografia, digamo-lo desde já, não conseguira remover a convicção, sempre criticada e sempre reafirmada, de que o referente último da memória continua sendo o passado. (2008, p. 26).

O autor francês aponta o embate entre memória e imaginação e apresenta dois topoi que coloca como rivais e complementares (Ibidem, p. 27). O primeiro é de Platão e “fala da representação presente de uma coisa ausente; ele advoga implicitamente o envolvimento da problemática da memória pela da imaginação”. O segundo é de Aristóteles e “centrado no tema da representação de uma coisa anteriormente percebida, adquirida ou aprendida, preconiza a inclusão da problemática da imagem na lembrança”. Em um, a imagem cria memória; noutro, a memória cria a imagem. O que nos diz respeito é, entretanto, representação. A memória, criando imagens ou sendo criada por elas, é uma representação com aparência de realidade e que, em termos literários, não precisa ser verídica, ou absolutamente verídica, para ter legitimidade.

Nos interessa também o fato de que as visões platônica e aristotélica que Ricoeur aponta têm uma complementaridade: a primeira trata do ausente que se faz

presente e a segunda, da percepção do que está ausente feita presente. Ambas são válidas, possíveis num terreno tão enevoado como o da lembrança, no qual a passagem do tempo dilui os contornos da verdade e pode torná-la algo diferente daquilo que foi. Mas, ainda assim, é uma representação que existe e é verossímil.

Não nos alongaremos por demais nos meandros filosóficos que cercam a memória e a imaginação ou a representação e a imagem, mas acreditamos que, num terreno em que emoções se infiltram de maneira tão arraigada, não interessa o detalhe verídico da impressão marcada na memória; o que nossa poeta faz com suas próprias lembranças e como as imagens que a partir delas são reproduzidas e ou criadas por ela e chegam até nós:

a lembrança não é a imagem, mas o juízo sobre uma imagem no tempo; a lembrança é o ato pelo qual trazemos a uma posição definida, no decorrer da sucessão psicológica, uma imagem que, malgrado suas vicissitudes e suas alterações contínuas, é contudo admitida como o equivalente de um fato psicológico que teria ocupado esta posição. (FILLOUX, 1966, p. 27).

Portanto, embora a própria Bishop tenha insistido em dizer que determinadas memórias colocadas em seus textos poéticos e em prosa são verídicas, como faz a respeito de “In the Village” e “Gwendolyn” (conforme mencionamos no início do capítulo anterior) e ainda de “In the Waiting Room”63, a lembrança pode prescindir ( e prescinde) da exatidão estrita. Santiago assinala que Freud escreveu acerca disso e foi complementado por Laplanche e Pontalis:

[Freud] escreveu em carta a William Fliess (...): Eu trabalho com a hipótese de que nossos mecanismos psíquicos são estabelecidos por estratificação:

materiais presentes na forma de traços de memória sofrem uma reordenação, uma reinscrição de tempos em tempos e em função de novas condições (grifo de Freud). Laplanche e Pontalis adicionam a isso:

remodelações posteriores são apressadas pelo surgimento de eventos, situações ou maturação orgânica, que permitirão ao indivíduo acessar um novo tipo de significação e a reelaboração de experiências prévias.

(SANTIAGO, 2002, p. 22, tradução nossa).

63Em carta a Frank Bidert, em 27/07/1971, Bishop afirma sobre “In the Waiting Room”: “é praticamente uma história verídica — combinei com um outro pensamento anterior, creio eu — e (imagino que seja o tipo de informação que você vai gostar) fui a biblioteca em N.Y. e consultei aquele número da National Geographic. Na verdade — e isso é uma coisa muito estranha, eu acho — , eu me lembrava perfeitamente, era um artigo sobre o Alasca, chamado “The valley of ten thousand smokes”. Tentei usar esses detalhes, mas a toda hora minha cabeça voltava a um outro número da National Geographic que me parece ter causado mais impressão, de modo que foi este que usei”.

(BISHOP, 2012b, p. 612).

Consequentemente, eventos posteriores ao acontecimento que gerou uma lembrança alteram a percepção e a elaboração daquela memória, permitindo que o indivíduo possa ressignificá-la e lidar com ela.

A memória tem ainda uma ligação com lugares e com o ato de deslocar-se.

Recorrendo ainda a Ricoeur, que aborda a questão do movimento ligado à memória:

Os lugares habitados são, por excelência, memoráveis. Quanto a nossos deslocamentos, os lugares sucessivamente percorridos servem de reminders aos episódios que aí ocorreram. São eles que, a posteriori, nos parecem hospitaleiros ou não, numa palavra habitáveis. (RICOEUR, 2008, p.59).

O ato de se deslocar, segundo ele, afeta a memória, funcionando como um gatilho para a recordação de episódios ocorridos no passado, na medida em que a relação com o lugar ativa a lembrança. Entretanto, acreditamos que o deslocamento em lugares novos também permite essa ativação, por meio dos elementos afetivos implicados na memória: “as exigências do sentimento não só dirigem a escolha efetuada entre tais e tais lembranças, mas ainda contribuem para a formação de agrupamentos associativos”64(FILLOUX, 1966, p. 43). No caso de Bishop, o deslocamento geográfico para um lugar distante daquele de sua infância permitiu que lidasse com a memória deste período, num processo semelhante ao que Freud caracteriza e que é complementado por Laplanche e Pontalis.

Se o movimento de afastar-se de seu país natal e as experiências vividas no Brasil permitiram que Bishop lidasse com suas memórias e as imprimisse em sua poesia, o ato de lembrar é também uma forma de deslocamento: recordar é se movimentar, agora não no espaço, mas no tempo, para elaborar o passado a partir do presente. Assim, entendemos que a memória em si é também uma modalidade de transporte, ou ainda ela mesma um tipo de viagem conduzida pela afetividade:

Entre os conteúdos da consciência, sabemos pelos velhos mestres da ars memoriae, prendem-se na memória de modo especialmente firme e duradouro aquelas imagens que tocam nossos afetos e excitam emocionalmente a alma. São chamados, nos manuais da arte da memória,

64Agrupamentos associativos são relações estabelecidas entre elementos da memoria, como objeto, lugar ou evento que evoca uma lembrança, e entre diferentes lembranças: “uma percepção desencadeia a evocação; mas uma imagem rememorada pode ser igualmente causa de rememoração: o amigo evocado pela casa recordar-me-á a viagem que juntos fizemos etc. Há cadeias associativas mais ou menos conscientes, mais ou menos difíceis de reconstituir, indo às vezes verticalmente, do presente para o passado, às vezes horizontalmente, no plano do próprio passado”. (FILLOUX, 1966, p. 37-38).

de imagines agentes, “imagens atuantes”. Lembremos que Dante foi um mestre genial dessa arte das imagens. No inferno, como já vimos, ele encontra o trovador Bertrand de Born, que, como castigo eterno, carrega na mão sua cabeça cortada, balouçando-a à sua frente como um lampião.

Essa é uma autêntica imago agens de Dante. Existe uma correspondência exata na doutrina de Freud, as imagens atuantes do esquecimento.

Imagens atuantes desse tipo, especialmente se forem relevantes na história de uma vida, não se deixam expulsar da psique nem pelo mais forte desprazer ou força repressora, e continuam “atuando”, de maneira patogênica, porque nem o Eu nem o Superego as admitem. (WEINRICH, 2001, p. 189)

As imagens que encontramos nos poemas de Bishop e que tematizam lembranças têm uma mediação intensa da afetividade e, embora entendamos o distanciamento que a presença do eu lírico pressupõe, não há como não conectar os eventos com a vida da autora. Martins indica, em seu livro Duas Artes, em Bishop

a simbiose de memórias mais maduras com um estágio de plena maturação poética. Observa especialmente a dinâmica do distanciamento

‘espacitempo’ entre o que se vivencia e o que disso se abstrai ou se

‘comprime’ no espaço do poema. (2006, p. 200).

É o que acontece em “Manners”, “Sestina”, “First Death in Nova Scotia” (de Questions of Travel) e “In the Waiting Room” (de Geography III), nos quais eventos específicos são retomados, e em outros dois poemas que tematizam especialmente o processo de confronto e ativação de memórias. Um deles é “Filling Station” (de Questions of Travel), no qual se percebe a experiência de construção da imagem materna ausente a partir daquilo que o eu lírico vê durante uma parada na viagem que está em curso. O outro é “The Moose” (de Geography III), no qual acompanhamos a construção de um ambiente de recordação pelas vozes que o eu lírico escuta, num processo que culmina na alegria infantil que o encontro com o alce proporciona. A viagem é simbólica do retorno ao passado, indo em direção à Nova Escócia, mas também de um mergulho na interioridade do eu lírico.

Longe de esgotar as especificidades da memória e, na verdade, longe de esgotar as discussões que iniciamos neste capítulo, acreditamos ter colocado algumas bases e pressupostos para o entendimento da relevância do movimento na poesia de Elizabeth Bishop. Isto posto, faz-se necessário partir para a análise de sua obra, de maneira a aplicar ao texto literário propriamente dito um olhar que permita identificar o movimento construído nos versos e nas imagens que a autora escolheu para colori-los. Acreditamos que este procedimento é o ponto mais relevante deste

trabalho, com o objetivo de apontar as formas pelas quais ela, poeta e autora, usa o movimento como parte de seu projeto estético.