2. INFLUÊNCIA, VOZ, IMAGEM E MOVIMENTO
2.1 IMAGENS E MOVIMENTO
2.1.1 EXTERIORIDADE E SUPERFÍCIE
A sistematização de um eixo de exterioridade e de superfície (e a escolha por apresentá-lo em primeiro lugar) se baseia numa das principais características atribuídas a Bishop: trata-se da visualidade, em função do teor descritivo de seus poemas, do caráter vívido de tais descrições, bem como do interesse da poeta “em artes visuais, particularmente nas obras de Klee, Ernst e de Chirico” (DORESKI, 1993, p. xi, tradução nossa). Entretanto, compartilhamos das inquietações de Doreski acerca da obra da poeta quando afirma que:
Poesia, entretanto, é feita a partir da linguagem e enquanto as percepções de artistas visuais possam comportar alguma analogia à aproximação ficcional da percepção visual na poesia, percepção e imaginação não estão disponíveis a meios outros exceto aquele em que são expressas. A percepção é apenas uma abstração até que esteja inserida em uma obra de arte e, na produção da arte, o meio, e não a intenção, a percepção ou a imaginação, é o elemento constituinte primário. (Ibidem, p. xi, tradução nossa)
Ainda conforme Doreski (Ibidem, p. 16, tradução nossa), os poemas de Bishop têm uma marca importante que é a da exterioridade, a da superfície observada e representada por meio da linguagem. Por isso, a retórica geográfica que a poeta utiliza
nos encoraja a ler seus poemas como mapas, como documentos que confirmam a noção de lugar e de presença física do leitor. Superfícies bidimensionais (mapas, espelhos, pinturas) a preocupam porque a poesia compartilha tanto suas limitações como suas possibilidades e porque sua relação problemática com o mundo real desafia as definições comuns de fato e ficção. (Ibidem, p. 16, tradução nossa)
A questão da pintura em sua obra aproxima-se dessa ideia: a autora nos leva a enfrentar os textos também como exemplos de arte visual ao empregar um léxico e uma sintaxe peculiares à pintura. Entretanto, tanto a retórica geográfica como a da
arte visual são artifícios para a construção de uma obra que é, antes de tudo, obviamente alicerçada na linguagem e não na cartografia ou na pincelada e na cor:
“reflexos no espelho, descrições de paisagens, pinturas de pessoas e lugares funcionam menos como temas e mais como artifícios centrais das estratégias de linguagem empregadas por Bishop” (DORESKI, 1993, p. 17, tradução nossa). O recurso imagético à cartografia e à pintura é simbólico da multiplicidade de realidades do mundo que se pretende representar e aponta para a existência de uma consciência profunda dessa multiplicidade, que emerge como um descentramento de perspectiva. Esta precisa ser, da mesma forma que o mundo, múltipla, conforme Costello em Questions of Mastery:
escolher uma perspectiva única, escreve o pintor David Hockney, é estar morto: ‘para que a perspectiva seja fixa, o tempo é detido — e portanto o espaço se torna congelado, petrificado. A perspectiva priva o observador de seu corpo. Para ter um ponto fixo, não se tem movimento; não se está realmente lá’.(1993, p. 15, tradução nossa)
O aspecto descritivo é também essencial na construção da exterioridade, ela mesma um artifício: “a descrição esconde tanto quanto revela (...) ou revela mais do que oculta” (OLIVEIRA, 2002, p. 44). O olhar que escrutina o mundo e a paisagem também os recorta e detalha, o que acaba por expor elementos de interioridade e subjetividade, “refletindo vislumbres íntimos do eu interior ou tentativas de negociação com o outro” (Ibidem, p. 41), ou ainda tentativas de entendê-lo. Em
“Going to the Bakery”, a descrição dos itens à venda na padaria é terrível, desagradável e nada apetecível, tanto quanto a atmosfera noturna decadente que o eu lírico enfrenta fora dela, que abriga indivíduos que acentuam o estado de escassez — a prostituta, o mendigo — indicado também pela ideia de racionamento e de adulteração da comida exposta. Ao final do poema, ela oferece dinheiro, que chama de “my terrific money”: a palavra my, grifada, e o adjetivo terrific marcam o dinheiro estrangeiro, que denota o olhar de alguém que não pertence ao local, mas identifica as mazelas que existem à sua volta, um lugar conspurcado. A descrição vai além do que a poeta vê para mostrar o que ela percebe do contexto que a cerca, sem julgamentos sobre os indivíduos, com uma intenção de compreender as mazelas vistas.
Além do mapa, da pintura e do descritivismo, o espelho é mais um aspecto desta linguagem de exterioridade múltipla. Para Doreski, “a preocupação de Bishop
com reflexos, interfaces e superfícies [mapas e pinturas] indica seu interesse nos sintomas visuais de presença em lugar de numa imanência transcendental”
(DORESKI, 1993, p. 17, tradução nossa), deslocando o foco do que seria permanência para uma ideia de transitoriedade, ou de uma unidade do mundo para uma multiplicidade inescapável e que não pode ser controlada. Essa ideia de transitoriedade implica, ao mesmo tempo, mudança e processo, o que a aproxima do conceito de movimento. Não se trata de uma poesia imanentista ou transcendente, mas de uma poesia feita de processos e fenômenos cuja percepção acaba por abarcar múltiplas identidades e subjetividades, entre elas incluídas as da autora — pois mesmo estas não podem ser reduzidas à unidade e devem ser consideradas em sua pluralidade — e as de seus leitores, plurais não apenas por serem mais do que um, mas por trazerem também a fragmentação identitária como característica.
A linguagem de exterioridade que Doreski assinala aparece em toda a obra de Bishop. Na epígrafe de seu último livro, Geography III, lê-se “What is a Map?/ A Picture of the whole, or a part, of the/ Earth’s surface”61 (BISHOP, 1983, p. 157). Os versos apresentam a questão da multiplicidade e da transitoriedade na ressalva or a part: a Terra não é totalmente representada no mapa, mas apenas uma parte de sua superfície, o que exclui seu interior e sua constituição. Ao mesmo tempo, as linhas remetem ao primeiro poema de North & South, “The Map”, que ganha novo sentido como ponto de partida do trajeto. Trata-se de um movimento de retorno e também do fechamento do próprio mapa da obra, agora traçado de forma completa, desde o primeiro até o último livro organizado pela autora.
A retórica da superfície, que em “The Map” apresenta um registro cartográfico, aparece em outros poemas de North & South com outras formas, como em “The Gentleman of Shalott” e “Large Bad Picture”, neste com um registro pictórico, da superfície de uma pintura, e naquele com a figura do espelho, a superfície que reflete o próprio eu lírico, fornecendo-lhe não um duplo, mas uma outra metade. Em A Cold Spring, temos esta mesma marca de exterioridade em poemas que apresentam o tipo de esforço descritivo do inscape, como “A Cold Spring”, “The Bight” e “At the Fishhouses”. Entretanto, o ponto em que esta retórica
61O que é um Mapa?/ A representação do todo, ou uma parte, da/ superfície da Terra. (Tradução nossa).
de exterioridade se mescla mais intensamente com a ideia de movimento é no livro seguinte, Questions of Travel.
O livro é dividido em duas partes: a primeira delas contém vários usos do inscape hopkiniano, como em “Arrival at Santos”, “Brazil, January I, 1502” e
“Questions of Travel”. Descrições minuciosas e metáforas que aproveitam os detalhes das paisagens observadas, com diferentes níveis de aproximação entre o olho da poeta e o que ele observa. Em “ Arrival at Santos” há um julgamento seco e ligeiro do lugar novo, baseado na visão de uma paisagem que é esquadrinhada pela visão do eu lírico enquanto se aproxima. O eu poético nada conhece do local, mas traz suas próprias concepções a priori (e por isso, superficiais). Em “Brazil, January I, 1502”, a paisagem é de grande exagero, exuberante e quente, olhada por olhos estrangeiros que são incapazes de ir muito além da superfície, a menos que seja para explorar e conspurcar. Em “Questions of Travel”, existe uma interiorização do eu lírico que projeta sua paisagem interna na descrição da superfície.
Outro poema da primeira parte que vai tematizar a estética de exterioridade e superfície é “The Riverman”. Entretanto, diferente de outros poemas nos quais a exterioridade é a tônica, aqui ela encontra seu contraponto: a interioridade. O texto tematiza elementos representativos dos processos da autora em direção a uma subjetividade mais à superfície, o tipo de processo que permitiria à segunda parte do livro sua substância e daria a outros textos no futuro novas chaves de leitura. O eu lírico se confronta com complexos processos de interiorização pelo mergulho no rio, cuja superfície é fronteiriça entre o mundo real e o sobrenatural. Regina Przybycien analisa o poema e demonstra como nele Bishop “utiliza-se da máscara do outro para tocar em assuntos delicados” (2015, p. 117), no caso a sexualidade, ou ainda a homossexualidade, que resvala na subjetividade da poeta. O que nos interessa, particularmente, é o fato de que este “outro” — o eu lírico — também está em movimento. Ele transita entre mundos, o real e o mítico, e no segundo vive a sua sexualidade cindida. O tema da cisão do eu e da inversão já aparecera antes na obra da poeta, em “The Gentleman of Shalott” , de North & South, e em “Insomnia”, que figura em A Cold Spring e iria aparecer em poemas posteriores, como “Crusoe in England” e “Sonnet (1979)”.
No que concerne ao artifício da máscara, se ele consiste numa forma de lidar com assuntos difíceis é, entretanto, poeticamente, uma forma de externalizar uma
das múltiplas identidades possíveis encontradas na poesia de Bishop. Costello comenta que:
Bishop objetivava escrever poesia que participasse de esferas mais amplas que a do âmbito pessoal. O que tem sido chamado de disfarce ou manto projetado para autoproteção pode ser melhor compreendido como máscaras num sentido mais clássico, destinado à expansão simbólica e compromisso com a generalidade da linguagem (para usar a palavra de Adorno). Em poesia moderna a máscara tem sido um recurso de individuação de voz poética sem subjetividade unitária e para conectar ideias (o domínio geral e abstrato da linguagem) à experiência – não experiência pessoal, mas particularidade. (2003, p. 343, tradução nossa)
Analogamente a processos como os verificados em “Roosters” (North &
South), em que há um distanciamento da violência crua, eminentemente masculina, por meio da dissolução do eu, aqui também há um recurso poético que testemunhamos. O poema elabora imagens intensas de natureza e estabelece conexões com o universo dos sonhos e da mágica, lidando com a sexualidade de forma quase sagrada ao expandir uma lenda local, popular, e torná-la lírica. O movimento entre mundos — real e imaginário, natural e sobrenatural — é também um movimento entre gêneros — masculino e feminino.
Interessante é percebermos que a linguagem imagética da exterioridade e superfície caracteriza mais fortemente os dois primeiros livros de Bishop e a primeira parte do terceiro, mas arrefece na segunda parte deste e no terceiro livro. Nestes, exterioridade é um recurso ligado fundamentalmente à descrição e perde espaço62 para questões interiores, muito mais subjetivas. Por isso, “Elsewhere” e Geography III apresentam poemas que ilustram mais evidentemente a questão do movimento em sua conexão com a memória, nosso próximo eixo a ser abordado.