Candau (2011), ao discutir memória e identidade, assegura que esses dois conceitos estão indissoluvelmente ligados, estando facultada à memória alimentar a identidade. O autor, por essa perspectiva, postula que os sujeitos atravessam, em seu caminhar, uma construção, que ocasiona em remodelações do próprio Ser, e que a reconstituição de um passado pela rememoração é feito pela narrativa do sujeito sobre si, tendo como ancoragem o seu ponto de vista do agora, do lugar em que está posicionado, do estar. A identidade é vinculada, pois leva em conta o “situamento”, seja ele de classe social, cultural e político.
Partindo do ponto de vista de que a identidade se apresenta dentro do quadro da mobilidade, flexibilidade e hibridização, do não-acabado, faz-se necessário, consoante Souza (2014, p. 98), “recorrer à memória: é preciso revolver o passado para narrar-se, para construir uma identidade, para constituir-se como sujeito diante do outro e posicionar-se dentro do grupo”. Por essa via, com efeito da significância dada ao passado, é determinada, no presente, a identificação e re-afirmação do Ser, que o coloca num patamar de semelhança ou diferença entre este ou aquele, dentro de uma âmbito geral da sociedade. Ainda de acordo com as palavras de Souza (2014, p. 114):
[...] a construção identitária mobiliza necessariamente o arsenal memorial do indivíduo e a busca memorial apresenta viés identitário. Essa relação de mão dupla, no entanto, é marcada por conflitos entre o que deve ou não compor o processo memorial-identitário. Envolve, assim, o confronto e a escolha de versões do passado. A imbricação observada, portanto, se configura em meio a conflitos e tensões.
Dentro dos conflitos e tensões, há os interesses, que irão demandar qual imagem será reproduzida e a posição do sujeito ao assumir aquela imagem, que são condizentes com os elementos objetivos e subjetivos apresentados e experienciados ao longo da vida. Conforme Bosi (1994, p.48), “o passado conserva-se e, além de conservar-se, atua no presente, mas não de forma homogênea”. Isso porque, segundo a autora, há a “memória-hábito, memória dos mecanismos motores”, resultado de esquemas que o corpo guarda e, desta forma, interagem sobre o comportamento do indivíduo, atuando automaticamente na sua ação sobre as coisas. Por outro lado, existem as “lembranças isoladas, singulares”, que constituiriam autênticas ressurreições do passado desatreladas de quaisquer hábitos (48). Por essa perspectiva, as práticas socioespaciais, o agir, o olhar para si e para o mundo, encontram na memória uma via de fortalecimento.
Acompanhar a trilha do desvendamento identitário no sertão é revisitá-lo com todos os seus sujeitos em suas práticas cotidianas e estratégias de sobrevivência. A trilha aqui proposta foi construída com a intenção de buscar, através da rememoração, os fatos históricos e geográficos que nos deem sustentação para traçar um diálogo sobre o sertão com os sertanejos, que traga como pressuposto a compreensão das identidades constituídas nesse lugar e os movimentos que foram se formando em decorrência das determinações gerais impostas ao espaço geográfico.
Assim, entrevistando idosos que nasceram e têm toda a sua existência no sertão maranhense, procuramos conhecer suas histórias de vida, incluindo componentes da sociabilidade, do trabalho, das técnicas, dos fixos e dos fluxos impostos ao território. Dessa forma, poder-se-á construir o quadro histórico e geográfico, compreendendo quais elementos de determinados eventos marcaram suas vidas e que, por isso, mantêm-se preservados em suas memórias.
Um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos. Momentos desse mundo perdido podem ser compreendidos por quem não os viveu e até humanizar o presente. A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: repassada de nostalgia, revolta, resignação pelo desfiguramento das paisagens caras, pela desaparição de entes amados, é semelhante a uma obra de arte. Para quem sabe ouvi-la, é desalienadora, pois contrasta a riqueza e a potencialidade do homem criador de cultura com a mísera figura do consumidor atual (BOSI, 1994, p. 82).
Os sujeitos aos quais chegamos para nos presentear com suas narrativas não as fizeram sós. Em seus relatos, estiveram sempre presente o grupo de que fizeram e/ou fazem parte em cada momento de suas vidas, principalmente o familiar. Assim, analisar essas narrativas por meio da memória coletiva, correlacionada por Halbwachs (1968), faz-se necessária para o entendimento das significações inscritas nos modos de pensar, permeado de fragmentações, pluralidades, singularidades e subjetividades, sem linhas de separação, sem uma linearidade obrigatória. Grosso modo, as narrativas são mais psicológicas do que cronológicas, porquanto a memória não se prende a um fio retilíneo.
O autor parte do pressuposto de que “a memória não tem sentido senão em relação a um grupo do qual faz parte, pois supõe um acontecimento real outrora vivido em comum e, por isso, depende do quadro de referência no qual evoluem presentemente o grupo e o indivíduo que o atestam” (HALBWACHS, 1968, p. 04). Dessa feita, concebe-se que a memória coletiva se solidifica na continuidade, porque
só retém do passado o que está vivo ou é capaz de viver na consciência do grupo que a mantém. Logo, a memória é o vivido, o experimentado, não individualmente, mas como produto da interação social e deve ser vista sempre como memórias coletivas múltiplas, de diferentes grupos sociais situados7 num contexto espacial e temporal.
O espaço-tempo privilegiado é de 50 a 60 anos, seleção que ajudará a demonstrar a realidade deste momento. No entanto, em relação à leitura ocupacional sertaneja, correlacionada aos ditames de intencionalidade e apoderamento territorial, um retorno aos fatores históricos é obrigatório. Como o espaço e o tempo são mutáveis, entendemos que a análise dos fatos a nós relatados dos anos 50 do século passado até os dias de hoje nos colocará numa situação de entendimentos da trajetória sertaneja. A cronologia apresenta-se, assim, como pano de fundo para vermos as mudanças sob o olhar da interação entre passado, presente e futuro. O que vai de encontro ao entendimento de que o espaço geográfico é movimento ininterrupto e, por isso, nunca se chega à realidade.
Com base nas narrativas, entendemos a relação do tempo com o espaço, que pode se apresentar com o efeito de saudades do que não existe mais: relações sociais, estrutura do espaço, relações culturais, saberes, sabores. O tempo, na fala dos sujeitos, clarifica-nos acerca do espaço vivido, do cotidiano e da subjetividade. Na verdade, a construção de um lugar pelos sertanejos, no Sul do Maranhão, guarda especificidades com a forma de ocupação dessa região, que está relacionada à chegada de criadores bovinos, que foram atraídos pelos fatores propícios da natureza: verdejantes pastos, clima agradável, presença de perenes e caudalosos rios e pelo “vazio” demográfico (CARLOTA, 2000, CABRAL, 1996, RIBEIRO, 2002).
Em se tratando das relações históricas guardadas entre o sertanejo de hoje, vinculado aos costumes citadinos, e ao sertanejo de ontem, fechado em si por conta das dificuldades de vinculo social, econômico e político, dotado de modos de vida arcaicos. Há uma diferenciação no modo de ver o mundo, nos desejos, nas relações sociais e nos elementos culturais, que estão ligados ao modo de vida global. Há o desejo do novo, da inserção do moderno.
7 Se o ser humano é situado – onde o corpo se funda como experiência de vida num jogo relacional incessante -, a sua situação define um pouco o conteúdo de sua condição de sujeito como espacial e historicamente fundado. Poder-se-ia compreender aqui que não há período histórico vazio, banal, sem relações de sentido, como não há corpo sem uma densidade histórica que faculta a existência e os lugares. (CHAVEIRO, 2012, p. 265)
Notamos, em conversas informais com sertanejos idosos que residem, desde o nascimento, na localidade, que os espaços da infância, da mocidade e dos caminhos trilhados permanecem guardados na memória, como a casa onde nasceu e viveu a infância, as festividades religiosas, o trabalho na roça e nos afazeres domésticos, além das relações de sociabilidade com os irmãos, pais, tios, padrinhos e com os demais do grupo. Existe toda uma trajetória de reestruturação espacial e da vida que é reconstruída pela memória desses sujeitos, o que nos permite compreender o que foi e o que é o sertão e o ser sertanejo.
É mister trazer a lume que a espacialidade construída pelos sertanejos encontra-se prenhe de suas subjetividades e de suas relações identitárias, permitindo- nos enxergar a objetividade impressa no espaço geográfico. Os sertanejos sul- maranhenses têm construído um lugar, lugar predominantemente rural ou em pequenos aglomerados urbanos cujas práticas são muito mais rurais que urbanas. Destaca-se a fronteira existente na região, que se caracteriza muito mais por ser social do que econômica, pela existência de conflitos inerentes a sua própria existência nesse tempo de fluidez intensa e pela presença do outro.
Ao refletir sobre esses elementos, buscamos compreender o mundo que qualifica o Sertão e os sertanejos no/do Sul do Maranhão. Daí emerge as seguintes questões: quais realidades materiais e imateriais existentes no Sertão para que possamos concebê-lo como um ente dotado de singularidades? A partir de que elementos culturais e identitários podemos entender os sertanejos enquanto sujeitos? Como os sertanejos sul-maranhenses lidam com o outro (por exemplo, a agroindústria)?