3 COMPONENTES HISTÓRICOS E GEOGRÁFICOS DO MUNDO SERTANEJO SUL MARANHENSE: singrando rios, rasgando matas e serras, esfacelando
3.2. O lugar da Natureza: o ajustamento de formas de vida
Chama-se distrito ou freguesia de Pastos Bons (grifo meu) todo aquele terreno que desde a fazenda e riacho Serra, na extremidade sul dos limites de Caxias, cortada da beira do rio Parnaíba na povoação das Queimadas, à barra do riacho do Corrente no rio Itapecuru, se estende por entre o mesmo rio Parnaíba e o Tocantins até às margens do rio Manoel Alves Grande [...] (PAULA RIBEIRO, 2002, p. 146)
Transpondo o rio Parnaíba para situar fazendas de gado, os ocupantes, extasiados, vendo o esplendor e a exuberância da plaga, nominaram-na pastos bons. [...] Que [grifo meu] foi então uma expressão geográfica. Uma denominação regional geral, dadas pelos ocupantes à imensa extensão de campos abertos para o ocidente em uma sucessão pasmosa em que ao bom sucedia o melhor (CARVALHO, p. 67-68).
Nas duas citações, estão expostos elementos da natureza. A primeira nos fornece a localização da freguesia de Pastos Bons, tendo como referência os rios da região, e a segunda nos coloca, de forma romântica, diante das características desse lugar. Por esses aspectos, há evidências, consoante autores da literatura regional, da preponderância dos fatores naturais, a saber, relevo, solo, vegetação e a hidrografia, para a instalação das fazendas de gado no século XVIII e, que, grosso modo, mereceu a designação regional de Pastos Bons.
Diante do escrito, podemos notar a existência de uma articulação entre homem e natureza, de maneira a suscitar a completude social, ambiental e cultural. Nesse sentido, a questão aqui é buscar uma compreensão dessa completude do vaqueiro e da natureza no tempo e no espaço, além dos conflitos que se formaram no bojo dessa questão. Para tanto, um passeio pelas obras que retratam a vida humana e as condições fitogeográficas da região, quando da ocupação, faz-se necessário.
Enveredando para além do núcleo de Pastos Bons, nas direções Oeste e Sul, estendiam-se os campos naturais contínuos e cobertos de exuberantes pastagens, pastos realmente bons, regados por numerosos e perenes rios, córregos e ribeirões protegidos por florestas ciliares e entremeados por capões de matos e palmeiras, com clima ameno e saudável. São componentes bem diferentes de outras paragens encontradas pelos vaqueiros no caminho percorrido de Pernambuco e da Bahia, até chegarem ao Maranhão. E ao se depararem com a riqueza natural, os criadores denominaram o lugar de “Pastos Bons”, pois “em nenhum outro lugar havia as
mesmas condições de vegetação, pastagens naturais e tantos rios e riachos que pudessem oferecer condições para a criação do gado” (SANTOS, 2012, p.76).
Nos relatos dos que conheceram a região, sempre há ênfase nas condições ambientais. Sobre tal fato, Francisco de Paula Ribeiro, major que esteve nos sertões maranhense a serviço da coroa, faz uma caracterização dos rios, das matas, do clima e dos sabores, levando em conta, como referencial, principalmente os rios, para descrever as rotas, localizações de povoamentos e fazendas. Abaixo, trechos do autor:
Não é ali demasiadamente frio o inverno, que de ordinário principia, como na Europa, em outubro, e acaba em abril, nem o verão caloroso; às chuvas que até este mês produzem e criam os pastos se seguem de maio em diante os grandes orvalhos ou neblinas que, ensopando de noite a terra, os conservam até agosto; deste mês até setembro os fogos queimam e limpam os campos de todo o ervanço inútil, para que as próximas águas tornem mais viçosamente a reverdecê-los, no entanto que as criações, tendo buscado o refrigério dos vales por entre as serras aonde sempre há matos e beiras de riachos em todo o tempo frescos e verdes, se conservam e nutrem [...]. Encontram-se em Pastos Bons, entre a espécie vegetal, muito poucas aquelas plantas que deixam de ter propriedades úteis ou medicinais [...]. Criam-se por todo o distrito excelentes madeiras finas, como sejam a aroeira, quase incorruptível, a candeia, o gonçalo-alves, muito bem pintado de sua natureza, as violetas-do-mato e do campo, entre si diferentes, o angico, o moreira, o pau-marfim, o pau-roxo, e outras não só muito capazes de fabrico, porém até próprias para o ornato. Dá muito óleo de capaúba ou copaíba, e gomas-de-angico, de grande préstimo para a preparação de peitorais e expectorantes, a jutaicica, alcaçuz, almécega. É abundante de muitas frutas silvestres substanciais, [...], das quais as mais delicadas são as mangabas e as guabirobas. (RIBEIRO, 2002, p. 155).
Fica nítido que tanto o gado quanto a população que para aí rumaram encontraram meios para sobreviver de forma “facilitada”. Afora os empecilhos encontrados em decorrência das numerosos tribos indígenas, que suscitaram muitas lutas e mortes, e os algures da vegetação mais fechada, o alimento para o gado era tido sem muitos esforços e, com a fertilidade do solo, pôde-se plantar os alimentos necessários para o consumo. Em relação à comunicação com outras localidades, ela era feita principalmente pelos rios, abundantes no Maranhão, contribuindo para que funcionassem, durante muito tempo, como rotas que ligaram, através de sua navegabilidade, a região a outros territórios. Por meio deles, subiam e desciam os produtos comercializáveis e pessoas, facilitando a exploração de um espaço até então desconhecido da Coroa portuguesa. Entre os principais rios, Ribeiro assim os descreve:
Entre as bocas dos referidos Parnaíba e Turi, pontos limítrofes entre Piauí, Maranhão e Pará, saem ao mar pelo longo da costa do Maranhão, discorrendo leste para oeste, os principais rios que acompanham quase toda a latitude da capitania, que vêm a ser o Munim, o célebre Itapecuru, o Mearim e o Pindaré, todos eles com suficiente largura, e mais ou menos navegáveis. A estes se ajuntam os de Balsas, Balsinhas, Alpercatas, Neves, Macapá, Canela, Grajaú e Farinha, regando a parte superior dos sertões da mesma capitania no distrito de Pastos Bons, o mais extenso e o mais precioso espaço dela, e no qual todos estes rios nascem (RIBEIRO, 2002, p.75).
A caracterização do relevo maranhense é reveladora da riqueza hidrográfica, uma vez que o Sul, a parte mais elevada do estado, vai sofrendo uma diminuição na altitude em sentido norte, até chegar ao nível do mar. Nessa região, há a presença de Serras, por exemplo a Serra do Gado Bravo, a Serra do Penitente, região Serrana de Fortaleza dos Nogueiras, Serra Vermelha e Serra da Croeira, em que está assentada a Serra Negra, lugar onde nascem importantes rios. Também, a exemplo de Francisco de Paula Ribeiro, Carlota Carvalho deu grande importância em seus escritos à hidrografia maranhense. No entanto, a autora parte de uma busca de explicação geográfica para tal aspecto e refere-se, ao Planalto Central, para poder explicar de forma contundente, conforme descrito a seguir:
Sobre esse maciço continental (Planalto Central, grifo meu) correm paralelos, de Sul a Norte, o São Francisco e o Tocantins, mas muito distantes. Em certa altura o São Francisco dobra o curso para o nascente e é substituído no paralelismo pelo Parnaíba. Profundamente cavada no lado em que se desenvolve a bacia do Tocantins, a dita planície apresenta, a Leste, uma borda muito alta, que vista do lado do Tocantins, é, pelo aspecto, chamada serra do Duro, de Santa Maria, de São Domingos. Somente do lado do Tocantins tem aparência de serra.
É simplesmente uma depressão. Subindo-a, o viajante caminha para a Bahia numa planície suavemente inclinada para o São Francisco. Ao Norte da extremidade setentrional da depressão, abaixo, no campo, nasce o rio Parnaíba. Correndo de Leste a Oeste, o rio Sono descreve com o Parnaíba um ângulo reto. Em cima, onde o Balsas nasce e onde começa a lombada divisora, o solo é constituído por formação aluvial arenácea sobre a qual se dilatam campos. Nesses campos, mais e menos ondulados, brejos e buritizeiros dão origem a riachos que vertem no Balsas e no Tocantins, confundindo as cabeceiras como acontece às de afluentes do rio Sono e do Parnaíba. Descendo o curso do Balsas em seu paralelismo com o Tocantins, encontram-se cabeceiras de afluentes deste, que são: Manoel Alves Pequeno, Cartucho, Tauá, Ouro, Aldeia, Manoel Alves Grande, Sereno, Farinha, emaranhando-se com nascentes de riachos que correm para o Balsas. Entre as cabeceiras do Manoel Alves Grande e o leito do rio Balsas, aparece a serra, designada por Chapada das Mangabeiras”, o que coaduna, porque o terreno arenoso dos campos dessa paragem era muito abundante de mangabas. Ficam muito longe um do outro o Parnaíba e o Tocantins, e esse afastamento permite o aparecimento das pequenas bacias intermediárias constituídas pelos Alpercatas, Itapecuru, Mearim, Grajaú,
Pindaré, Gurupi, Tucumandeua, Capim e Guamá. (CARVALHO, 2000, p. 61 – 63).
Enfatizamos que, no âmbito deste trabalho, quando relatamos as condições naturais como favorecedoras para a instalação das fazendas de gado no Sertão maranhense, corremos o risco de colocarmos a natureza como determinadora dessas relações socioespaciais. Contudo, é imprescindível considerar que as relações de produção no espaço estão condicionadas, em parte, pelo desenvolvimento das técnicas de uso desse espaço, o contexto em que se insere o mundo e especialmente o Brasil no século XVII deve ser levado em conta.
De tal modo, em relação ao exposto, Cabral (1992, p. 109) ratifica que:
Não se trata, como observou Otávio Guilherme Velho, de um determinante geográfico absoluto, mas da face que representava o meio físico para a sociedade, considerando um determinado desenvolvimento histórico das forças produtivas. A existência de campos naturais, além de ser a causa e o motivo da própria escolha do local, foi condição indispensável para o desenvolvimento da pecuária extensiva e itinerante.
Por conseguinte, os elementos da natureza propiciaram que os rebanhos bovinos se assentassem na região, no entanto não foi a natureza que detonou as transformações nesse espaço, mas, sim, os condicionantes econômicos, políticos e sociais, mesmo que a dependência humana estivesse atrelada à existência de uma vegetação, da hidrografia, do clima e do relevo favorecedores dos processos aí ocorridos. Então, não podemos considerar a vida social nos sertões como análoga à natureza, mesmo que os modos de vida possam ter sido constituídos desse imbricamento, pois entende-se que a articulação entre as populações aí inseridas, não só os sertanejos, como também os índios, com a natureza tiveram/têm vínculos densos, que geram elementos de uma vida social particular.
Seguindo por essa linha de abordagem, Cleps Júnio & Martins (2012) nos fornecem ideias para se pensar a ligação do homem com a natureza, que vai se desenrolando para forjar a identidade e o sujeito verdadeiro. Os autores tratam do veredeiro, enquanto homem das veredas, situados no Norte de Minas Gerais.
Situação essa que está muito próxima do sertanejo maranhense, que se constitui por ser um homem do Cerrado, espaço composto por veredas. Nesse aspecto, enfatizam que esses “homens, sujeitos (grifo meu) têm suas territorialidades envolvidas por suas águas e terras, mas isso acontece devido aos ajustamentos dos
tempos sociais aos tempos da natureza, da dinâmica humana e da dinâmica das veredas” (CLEPS JÚNIO & MARTINS, 2012, p. 288). E acrescentam que, “por detrás disso há tessituras, que englobam tempo-espaço, cultura e sociabilidade, homem e natureza” (p. 188).
Numa análise importante sobre a natureza culturalizada, Almeida (2005) parte do olhar de que há uma pluralidade de valores frente ao Cerrado e afirma que a natureza é um conceito plural. “Para uns, Cerrado é ecossistema, para outros é capital” (ALMEIDA, 2005, p. 322). Destarte, o que está em bojo é o sentido valorativo atribuído aos lugares, que está em conformidade com a relação dos diversos sujeitos dentro de um contexto histórico, que não pode se desvincular do econômico, do político e do social. Esses argumentos afiançam que toda sociedade cria e inventa suas concepções acerca da natureza. Dessa forma, a natureza é histórica ao revelar o olhar sobre o mundo que cada sujeito possui. O que exige que pensemos como esses processos acontecem no tempo e no espaço e os conflitos inseridos no bojo dessa discussão. Noutras palavras, o que fica evidenciado é a integração existente entre as categorias natureza e cultura.