5. O jogo dos espelhos
5.2. A mente, um complexo mundo de espelhos
Figura 2. Mirrors of the mind, a psychedelic concept album retirada de https://studio3.am/projects/mirrors-of-the-mind/
É sabido que a mente recebe do seu meio exterior, através dos seus principais cinco sentidos, triliões de estímulos por minuto através de imagens, sensações, cheiros, sons e sabores. Também sabemos que esses mesmos estímulos desencadeiam de forma orgânica automática no nosso cérebro, um processo criterioso de análise, reconhecimento, denominação e catalogação desses mesmos estímulos para fazermos sentido do meio que nos rodeia e tirarmos dele o nosso sentido de personalidade comportamental e moral.
Espelhamos depois uma réplica desses exemplos que captamos do exterior como nossa própria identidade e conduta.
Inclusive, na fase de crescimento, é precisamente através da imitação que vamos assimilando as funções básicas como gatinhar, andar e falar e um pouco mais a frente aprendemos a desenhar as primeiras letras também através da reprodução de imagens que captamos dos livros de exercícios e reproduzimos o que os nossos olhos veem. Numa fase adulta este jogo de espelhos torna-se bastante mais complexo, derivado a sua ligação mais racional (mas nem por isso mais consciente), a outros fatores como pensamentos e emoções. Estes poderão ser usados inconscientemente de forma destrutiva. Por isto é importantíssimo percebermos um pouco como estes fatores nos influenciam diretamente a nível de todo o nosso funcionamento fisiológico.
5.2.1. A permeabilidade da mente
O Cérebro é um sistema muito complexo, estudado exaustivamente, mas ainda não totalmente entendido por ser algo tão multifacetado e mutante derivado á sua permeabilidade. Numa análise muito superficial podemos dizer que o cérebro se divide em dois hemisférios e estes têm, por norma, maior concentração de alguns neurotransmissores que outros, dando-lhes capacidades distintas e comandando cada um deles partes do corpo, funções e sistemas diferentes. Sendo um deles, o hemisfério esquerdo, responsável por nossas funções mais racionais e analíticas, enquanto que o hemisfério direito nos permite capacidades mais intuitivas e emocionais. Mas indo mais fundo anatomicamente, podemos dividir o cérebro em três parte, o cérebro reptiliano, o límbico e o neocórtex e aqui ficamos a perceber que temos um longo caminho pela frente para conseguirmos perceber e de alguma forma comandar o nosso sistema nervoso central, ou talvez não.
Vamos por partes. Vários cientistas defendem que utilizamos cerca de 5 a 7% do nosso cérebro, o que não consigo concordar. Alguns outros estudos indicam percentagens diferentes que me parecem mais acertadas. Estes analisam o cérebro em três partes (conceito cérebro trino) e designam a sua capacidade total de funcionamento (pelo menos aquela que se consegue estudar por meios científicos) da seguinte forma:
7% - NÉOCORTEX (Consciência Racional)
38% - LÍMBICO (Consciência Emocional)
55% - REPTILIANO (Consciência irracional)
Tal escala piramidal pode, por analogia, ser comparada com outra pesquisa consagrada no seu contexto geométrico. Falo da Pirâmide das Necessidades, do Psicólogo norte-americano, Abraham Harold Maslow (1908-1970), que analisou nossas principais necessidades humanas, também, através de uma simbologia piramidal. Esta percentagem apresentada, relativa ao cérebro trino, e suas ramificações de necessidades, irracional, emocional e racional, pode comparar-se literalmente à pirâmide de Maslow original encontrada no anexo B. Se conjugarmos, tal pirâmide, com nossos 3 cérebros, veremos que as divisões de ambos os estudos se encontram em concordância. Na análise de Maslow os primeiros degraus da sua pirâmide, estão representadas as nossas necessidades fisiológicas, tais como, fome, sono, segurança, dentre outras; mais acima, estão as mais emocionais, relacionadas ao amor, família, amizades, etc; já, nos últimos degraus, direcionados ao pico, estão as nossas realizações pessoais. Resume-se então que o cérebro reptiliano, o mais primitivo e irracional é o mais ativo no nosso quotidiano, desde as nossas necessidades fisiológicas primárias até mesmo à nossa comunicação com o exterior, uma vez que comunicamos principalmente através da nossa imagem e postura corporal. O cérebro límbico, mais emocional, também nos comanda de forma automática e pouco racional, uma vez que é gerido pelos estímulos excitatórios ou inibitórios dos neurotransmissores diversos que desencadeiam todas as manifestações físicas perante
14 acelerada, a dilatação das pupilas, aumento da sudorese, a contração ou relaxamento
muscular e a pressão arterial do nosso sistema circulatório, são tudo ações involuntárias que são influenciadas pelo nosso emocional do qual aparentemente não temos participação ativa. Assim sendo, poderíamos dizer, perante uma análise superficial, que até as nossas emoções são apenas impulsos orgânicos involuntários e irracionais que não podemos controlar. A parte racional do nosso cérebro (cerca de 7% ativa), apesar de diminuta em comparação aos restantes 93%, permite-nos agir de diversas formas sobre as outras partes, de consciência irracional e emocional, pois somos dotados de capacidades imensas e extraordinárias. A primeira, a meu ver de influência mais direta e rápida fisiologicamente, temos a capacidade de agir sobre uma ação inicialmente involuntária, a respiração, e já aqui temos uma panóplia de ferramentas a nosso dispor que iremos debater mais a frente. Em segundo, fomos dotados das capacidades de análise, comparação, discernimento, intuição e raciocínio lógico para além da importantíssima retenção de memória. Utilizando todas estas ferramentas de forma consciente e criteriosa, podemos alterar o nosso comportamento emocional, fisiológico e até transcendental (consciência esta, que acredito ser infinita e não quantificável). Isto é conseguido através da repetição de estímulos memorizados e voluntariamente reproduzidos, frases memorizadas (mantras) e emoções “manipuladas” através de postura corporal, respirações, visualizações e outras técnicas diversas, sempre num processo de repetição e observação até à integração da nova resposta cerebral automática do comportamento adquirido.
A esta capacidade da nossa mente adquirir novas formas de funcionamento se chama permeabilidade. Nome derivado da característica notória do cérebro permitir ao meio exterior trespassar as suas barreiras e a sua capacidade de reter algo desses mesmas interações, tipo esponja. Essa capacidade de retenção sendo manipulada eficazmente através de técnicas especificas de “controlar” ou direi, “observar e encaminhar” a mente farão com que possamos mudar o nosso modo de pensar, a nossa falsa identidade (ego) com a qual nos identificamos por alienação do próprio ser e a nossa necessidade inata de pertença ao meio envolvente e inclusive a nossa tendência a patologias físicas e emocionais. Conseguimos isto com algum trabalho, persistência e repetição que teremos de integrar na nossa vida e modo de estar, mas certamente será ótimo perceber que não estamos inertes, ao comando da nossa mente irracional por defeito e do nosso funcionamento biológico pré-definido por lotaria aleatório genética.
As técnicas são diversas, os exercícios infindáveis. Desde a respiração, a meditação, a hipnose, entre outras mais ou menos complexas, temos ao nosso dispor, o verdadeiro poder e responsabilidade de assumirmos todas as vertentes da nossa saúde física, mental e espiritual. Não me vou alongar nas técnicas mais complexas, até porque não são as mais importantes. O que interessa perceber é que a nossa mente não consegue distinguir entre o que é “Real” (o que assumimos como Realidade que os nossos 5 sentidos percecionam e a nossa fisiologia trata de forma automática) e o que é imaginado/manipulado por nós através da alteração consciente da nossa respiração, postura corporal, visualizações, etc.
A resposta bioquímica dos neurotransmissores são exatamente as mesmas em ambos os casos. Com isto, atrevo-me a dizer que o ser humano poderá um dia vir a ter quase total controlo sobre a sua orgânica.
5.2.2. A respiração e as emoções
A respiração é ao mesmo tempo, uma ação voluntária e involuntária e não é por acaso que é tão exaltada em inúmeras terapias desde a psicologia da medicina convencional aos mais primitivos ensinamentos de monges e yogis. A respiração, de forma irracional e automática altera-se visivelmente perante os nossos diversos estados emocionais e funções por nós exercidas, desde a sua rapidez máxima em estados irracionais de pânico, passando pela respiração mais profunda aquando da prática de exercício físico para maior aporte de oxigênio a todos os músculos envolvidos, até à respiração calma, longa e uniforme quando relaxamos para dormir. Estas poderão ser as mais comuns e involuntárias, mas fazendo da respiração, um aliado de forma consciente, algumas pessoas conseguem inclusive entrar em estados de transe profundos.
Não é esse tipo de respirações que venho propor, mas sim alertar a nossa aptidão para controlar ações fisiológicas e emocionais através do processo inverso da respiração involuntárias. Passo a explicar dando um exemplo prático, certamente conhecido;
- Acordamos atrasados e uma reunião importantíssima está na primeira anotação da agenda, o nosso cérebro faz todo o seu trabalho rapidamente para nos pôr em alerta máximo e acelerar todas as nossas funções, não só exteriores, mas principalmente fisiológicas. De imediato a nossa respiração acelera, a circulação sanguínea aumenta e tudo se torna uma correria desenfreada. Chegamos a tempo. Após um suspiro de alívio, sentamo-nos e acalmamos gradualmente a respiração, mas quando abrimos a boca deparamos com um cérebro muito pouco cooperante e uma mente em branco. Entre outras causas, a principal aqui terá sido uma respiração pouco eficiente, curta e rápida que baixa a oxigenação eficaz do nosso corpo e automaticamente acionam hormonas como cortisol, dopamina e adrenalina. Tudo hormonas que nos possibilitam prontidão de ação e reação, mas que põem o nosso corpo sob stress e pouco ajudam em termos de raciocínio pragmático. Ou seja, apesar da pressa poderíamos facilmente inverter esta situação tendo começado pela atenção á nossa respiração e voluntariamente agirmos com respirações mais longas e profundas evitando o desencadear automático da resposta “luta ou fuga”
irracional do nosso corpo sob stress.
O mesmo se aplica às nossas emoções, cada emoção tem o seu padrão de hormonas libertadas e ações naturais fisiológicas que se manifestam em todo o corpo e principalmente na respiração. É por isto que é imperial, estarmos atentos como observadores da nossa respiração e mente para agir da melhor forma no nosso dia a dia e não reagirmos por emoção, pois já sabemos serem irracionais e involuntárias.
A meditação, o chi kung ou simples exercícios de respiração serão ferramentas imprescindíveis para conseguirmos estar no comando das nossas emoções através da respiração pois dão-nos inúmeras formas de estar alerta e conscientes destes processos.
No chi kung, por exemplo, é comum utilizar-se respirações determinadas em alguns exercícios para ativar ou acalmar diferentes emoções através desse mesmo movimento.
Por vezes, quando só a respiração não nos permite estar totalmente em pleno controlo da nossa mente recorre-se igualmente a visualizações. Como veem, são simples jogos de imitação, repetições dos tais espelhos que são o nosso meio envolvente e interior, o dito
16 5.2.3. A visualização e o Shen
Como já referido anteriormente, o cérebro não distingue uma realidade física exterior a uma realidade imaginada internamente pela nossa mente pois esta realidade imaginada não deixa de ser uma reprodução interna de algo anteriormente visualizado no nosso meio envolvente. A este conceito de realidade imaginada apelidamos de visualização. Nem sempre é fácil, algumas pessoas têm mais facilidade e capacidade criativa para a fazerem, mas é sem dúvida algo bastante útil no nosso quotidiano aliado à respiração e é indispensável na prática do chi kung.
No chi kung é muito fácil fazer-se visualizações, por vezes acontece mesmo automaticamente uma vez que os próprios exercícios são ações concretas que reproduzem algo do nosso meio envolvente, principalmente do meio natural. Fica fácil imaginar um animal, um lago, o céu, a lua. Através da imaginação e senso comum conseguimos depois traçar as características principais desse mesmo elemento imaginado e automaticamente, sem darmos conta desse trabalho mental, damos pelo nosso corpo físico a copiar essas características, espelhando esse elemento na nossa postura corporal. Paralelamente a respiração altera-se (automaticamente assumindo características representantes á postura corporal agora optada) e por consequência as nossas emoções modificam-se correspondendo a esta mesma postura corporal e respiração. Ou seja, não só conseguimos agir sobre as nossas emoções controlando a nossa respiração como também conseguimos alterar as nossas emoções invertendo características corporais por essas mesmas emoções desencadeadas. A visualização nestes casos será muito fácil, acionada simplesmente fechando os olhos ao mesmo tempo que estamos totalmente a vivenciar as várias experiências físicas, emocionais e fisiológicas que estão a decorrer. Neste caso, deixando-nos levar totalmente por estes vários estímulos e emoções experienciadas pela visualização, será um caminho relativamente rápido para seguramente atingir um estado de tranquilidade e conexão espiritual que no chi kung se designa Shen.
O shen poderá traduzir-se como um estado de plenitude e quietude plena. Um total conforto físico em que o corpo deixa quase de ser sentido derivado ao seu total relaxamento, a mente fica calma como um lago sem corrente e neste estado de total atenção interna conseguimos visualizar e até sentir o nosso sistema fisiológico, as funções ativas naquele momento ou até uma ligeira sensação de formigueiro, calor, dormência ou outra sensação inexplicável pessoal nalguma zona do corpo para onde direcionarmos a nossa atenção. O Shen pode comparar-se a um estado meditativo e servirá para diversas funções. Este estado de Shen é primordial aos dias de hoje, á nossa gestão emocional para vários fins. Sejam eles para trabalhar o Qi, energia vital do nosso corpo, e reverter patologias promovendo o bem-estar e longevidade ou dar-nos ferramentas preciosas para estarmos num comando mais consciente das nossas vidas.
Cultivando o Shen diariamente podemos olhar para o meio exterior e seus acontecimentos de forma menos emotiva e irracional, estando a mente como um lago tranquilo e cristalino que nos permite ver até ao fundo de forma plena e desobstruída.