4. A NOSSA NATUREZA CIBORGUE
4.1 A mente estendida na Web
Se pudermos pensar que a mente se estende através de máquinas que se incorporam ao sistema cognitivo, e pudermos conceber o computador como uma tecnologia transparente ampliada pela internet, então podemos pensar que a mente pode se estender até a internet, e consequentemente, pelo ciberespaço.
Essa é a ideia da Mente Estendida na Web, caracterizada como "a ideia que os elementos informacionais e tecnológicos da Web podem, pelo menos ocasionalmente,
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constituir parte da base material superveniente para (ao menos em alguns) estados e processos
mentais de um agente humano"115.
Em SMART (2012) podemos encontrar uma boa análise do que seria o caso de termos a mente estendida para o mundo virtual. Segundo ele, o formato atual da Web não atende aos critérios elaborados por Clark para que um dispositivo passe a ser parte do aparato cognitivo do usuário. Os critérios são:
a) Disponibilidade: o recurso que precisa ser utilizado tem que estar disponível de uma forma segura e ser comumente invocado para tal tarefa.
b) Confiança: a informação do recurso precisa ser endossada automaticamente, como se ele fosse parte biológica do organismo.
c) Acessibilidade: a informação precisa ser facilmente acessível quando for requerida116.
Smart afirma que a Web convencional não se dispõe de acordo com os critérios acima. Ela é uma Web centrada em documentos, na qual visitamos lugares (websites) para ler textos dispostos de modo semelhante ao que encontraríamos em livros ou bibliotecas. Isso faz com que o acesso à informação se torne algo conturbado, pois muitas vezes a informação requerida está sobreposta por milhares de outras informações irrelevantes, o que impede que o fluxo da informação seja semelhante ao da memória biológica.
É preciso salientar que o que Smart chama de Web se confunde com o conceito de Ciberespaço. Apesar de ele tratar a Web como um modo de organização de conteúdos, ele a toma numa forma total, fundindo com o que entendemos sobre internet.
De qualquer modo, Smart afirma que devemos encarar a Web pelo seu potencial. Se olharmos de perto, todas as tecnologias que incorporamos ao nosso aparato cognitivo levaram anos de treinamento para que sejam bem executadas. Mesmo o simples ato de utilizar uma caneta para escrever (hábito cada vez mais raro!) precisou de uma grande adaptação da humanidade para que essa tecnologia estivesse sempre à mão. No início da escrita, por exemplo, as palavras eram grafadas imitando a oralidade, sem pontuações ou pausas entre as palavras. Pausas e pontuações foram aprimoramentos que demarcaram a diferenciação entre a oralidade e a escrita. Assim, afirma Smart, a Web tem sua forma baseada na escrita. Visitamos locais que se assemelham a páginas de livros e seus conteúdos são dispostos para
115
SMART 2012, p. 451, tradução nossa.
aqueles que são primariamente leitores. Isto ocorre porque a leitura e a escrita são modos de organizar nossas funções cognitivas.
Mas a Web não tem necessidade de ter esse caráter bibliográfico. Ela pode ser modificada para atender a outros tipos de demanda por usuários que buscam por informações, em vez de leitores que procuram textos.
Um modo como a Web poderia atender aos critérios de Clark para se tornar uma extensão da mente seria a partir de duas mudanças:
a) de uma Web de Documentos para uma Web de Dados: este novo modo de organizar a internet tornaria mais fácil buscar, agregar, integrar, filtrar e apresentar informação.
Esta Web de dados teria três principais vantagens: 1) Ampla independência do formato que seria usado; 2) Centralização sobre um conjunto de dados limitados;
3) Enriquecimento semântico, que fortalece a recuperação da informação relevante117.
b) a segunda mudança importante é o que Smart chama de Web no Mundo Real118: esta é a mesma ideia do que vem sendo chamado de Ambiente Inteligente ou Computador Ubíquo: "A ideia básica é que a Web baseada em informação deveria, onde quer que fosse possível, estar embutida no mundo real e ser facilmente acessível enquanto parte da nossa interação diária com o mundo"119.
O princípio desta ideia é associar informação relevante a objetos, lugares, e mesmo à pessoas, sem que seja necessária a busca ativa do usuário, pois tais informações são acessíveis de forma imediata através de uma interface onipresente. Assim, o usuário não necessitaria parar uma atividade está exercendo para buscar informações, tal como fazemos quando caminhamos e queremos uma localização qualquer através do sistema de GPS num Smartphone, pois geralmente temos que parar de caminhar para olhar as informações disponíveis na tela. O movimento de olhar para a tela seria desnecessário, pois a informação já está automaticamente no campo visual do usuário.
117
Cf. SMART 2012, p. 457.
118
Real Word Web.
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Os dispositivos que possibilitariam a Web no Mundo Real acrescentariam informação à percepção do usuário, aumentando sua realidade. Segundo Smart, a Web tradicional nos força a ver a Web como:
1. Passiva: a informação precisa ser descoberta pelo usuário, para então ser utilizada;
2. Distinta das interações com a vida diária: os usuários precisam parar suas atividades comuns para buscar informações na Web;
3. Impessoal: os usuários precisam adaptar as informações requeridas para seus próprios fins120.
Assim, "... A Web no Mundo Real nos dá a visão da Web como algo que é proativo,
pessoal e imediato perceptualmente"121. No entanto, é preciso deixar claro que esta versão da
Web proposta por Smart não é ainda factível e muito menos disponível ao grande público. Na linguagem de Floridi, o que Smart sugere é a ampliação da Infosfera através da utilização de dispositivos de realidade aumentada e ambientes inteligentes. Quando o ambiente começa a funcionar como parte da nossa atividade cognitiva, automaticamente temos a mente estendida, e quando esta extensão é feita em rede, temos a mente estendida na Web.
Essa extensão é bastante singular. Diferente do uso de uma máquina de calcular, por exemplo, que estende a mente num sentido local, a extensão promovida pela interação com uma Web de Dados estende a mente num sentido em adquirir as características da Infosfera, tornando-a sincronizada, deslocada e correlacionada.
[...] nosso romance com máquinas de informação anuncia um relacionamento simbiótico e ultimamente um casamento mental com a tecnologia. Percebida corretamente, a atmosfera do ciberespaço carrega o aroma que certa vez envolveu sabedoria. O mundo exprimido como pura informação não somente fascina nossos olhos e mentes, como também captura nossos corações. Nós nos sentimos aumentados e poderosos. Nossos corações batem nas máquinas […]122
Por consequência, nossa identidade pessoal também é alterada nessa relação com os computadores. Para Clark, isso é possível porque o Eu não é uma estrutura enclausurada em si mesma tal como pensam grande parte dos defensores do internalismo. O eu afeta e é afetado pelos constantes contatos com o mundo externo, se mesclando ao ambiente em que se encontra. Esta plasticidade do eu é fruto e causa de grande parte da evolução humana.
120
Cf. SMART 2012, p. 459.
121
SMART 2012, p. 459, tradução nossa.
Não há ‘Eu’, se por ‘Eu’ nós entendemos algum essência cognitiva central que faz quem e o que eu sou. No seu lugar há apenas o “eu plástico”: um esboçado-e-confuso processo de coalizão de compartilhamento de controle – parte neural, parte corporal, parte tecnológico – e um contínuo guia contando uma história, pintando um quadro em que “Eu” sou o jogador central.123
Essa nossa mistura às máquinas é um evento recente dentro da história humana. A tecnologia se torna tão interconectada, cumprindo uma gama de tarefas, que é possível obter informações através dela e dos processos de seus programas. As máquinas se comunicam entre si e coordenam vários aspectos da nossa vida cotidiana, desde o clima até transações bancárias. "Nós alimentamos o sistema, que então alimenta constantemente informação de
volta para nós. Nossos eus mais as máquinas constituem um ciclo de retroalimentação"124
Apesar de as condições atuais da Web não favorecerem uma mente estendida de acordo com a tese de Clark, é possível pensar que o contato com o mundo virtual gera uma Identidade Virtual. A expressão "identidade pessoal online" pode gerar equívocos pelo fato de o termo "online" sugerir que o usuário precisa estar ativamente utilizando a máquina para que a identidade pessoal se mantenha. Como veremos, um espectro surge quando entramos em contato com o mundo virtual. A identidade virtual não é apenas uma metáfora. Ela é a nova entidade, parte integrante do que chamamos Eu.
123
CLARK 2003, p. 138, tradução nossa.